quinta-feira, maio 26, 2022

Desconstruindo os clichês

Aparência não é tudo, mas é tão exageradamente levada a sério que muitos se iludem pelas primeiras impressões. Franciela Alberton Biava é delegada de polícia na vida real, mas foi modelo nas páginas desse perfil. Longe das obrigações profissionais, ela é mãe, esposa, tem valores e sentimentos como qualquer outra mulher, ou melhor, como qualquer outra pessoa.

A moça que queria ser juíza e acabou se tornando policial é um símbolo involuntário de que profissões e cargos não são de homens ou mulheres, mas de pessoas capazes ou não.  

Por Nelson da Luz Junior

A aparência da delegada Franciela parece não corresponder ao que se espera de um profissional das forças de segurança pública. “Muita gente já me disse que não tenho tipo de delegada, como se delegado tivesse um tipo”, diz ela, depois de quase sete anos de carreira.

Na prática não tem, mas por algumas razões o imaginário coletivo costuma distribuir rótulos e classificar pessoas e profissões em estereótipos, que na maioria das vezes são interpretações equivocadas e limitantes.

Franciela é mulher, jovem – tem 33 anos -, bonita e educada, um perfil que, segundo tais rótulos, não se parece o de alguém que trabalha em uma Delegacia de Polícia. Mas aparência não é tudo. Aliás, é quase nada.

Há cerca de quatro anos ela é delegada adjunta da 5ª Subdivisão Policial de Pato Branco (5ª SDP), ajudando a gerir uma estrutura que cuida de mais de 20 municípios e assumindo o comando na ausência do delegado-chefe.

Para chegar ao cargo, Franciela precisou passar por uma rotina de estudos e treinamentos de botar inveja em muito marmanjo com pinta de machão. Além dos anos no curso de Direito, graduação exigida para a função, Franciela conta que por um ano aliou meses de preparação para o concurso público com uma dura rotina diária de exercícios, que incluía corridas, pelo menos 1h30 de academia e até a escalada de uma corda pendurada no quintal da casa dos pais, em Dois Vizinhos. “Eu subia e descia aquela corda várias vezes ao dia. Penso que os vizinhos deviam se perguntar o que eu estava fazendo. Sofri muito para conseguir alcançar os níveis de preparo exigidos nos editais”, lembra.

Foram dois concursos públicos, um para a Polícia Civil de Santa Catarina e outro para a do Paraná. Passou em ambos, mas foi convocada primeiro pelo catarinense.

Em quatro meses de treinamento aprendeu a atirar, realizar perseguições, investigar e outras técnicas que a adolescente que sonhava em ser juíza jamais imaginou que precisaria saber.

“Ver o sofrimento de uma família é mais triste do que a cena de um crime”, afirma Franciela – Foto: Bia Toledo

Transformação

A magistratura era a meta da estudante que no colegial tirava notas boas nas ciências humanas e notas máximas nas ciências exatas. Para aprimorar a habilidade na leitura e escrita cursou Letras Português, simultaneamente ao Direito.

Apegada às raízes, nunca morou há mais de 300 km de Dois Vizinhos, cidade onde cresceu. Estudou em Cascavel, advogou em sua cidade natal e foi delegada em Campo Erê, Oeste de Santa Catarina, onde descobriu que a nova profissão, escolhida por estímulo de colegas, lhe ensinaria muitas lições. “Nós temos contato com gente que acabou de ser vítima de um crime. É preciso exercitar várias coisas, desde a si mesmo, para não sofrer as consequências do excesso de negatividade, até a sensibilidade. Para aquela pessoa, a situação que ela viveu é gravíssima, para nós é mais um caso”, detalha.

Lidar com as dificuldades da profissão já foi um desafio maior para quem confessa ser mais emocional do que racional. Mas Franciela conta que há dois tipos de crimes que ainda a afetam muito: os crimes sexuais e os homicídios.

Ela lembra do primeiro homicídio que lhe chocou, ainda em Santa Catarina. Depois de expulsar a esposa de casa, um homem matou a filha de 12 anos e se suicidou em seguida. Quem deu a notícia à mãe foi a escrivã, que acabava de saber do fato, enquanto a mulher prestava queixa da briga da noite anterior. “A pior parte da minha profissão é dar notícias, ver o sofrimento de uma mãe ao saber que o filho está preso ou o desespero de alguém que foi vítima. Fazer parte do sofrimento de uma família é mais triste do que a cena de um crime”, resume.

Conhecer tantas histórias e pessoas envolvidas em delitos fez com que a delegada visse o problema da segurança pública de forma bem mais aprofundada. Segundo ela, há um contexto por trás das situações que levam uma pessoa a entrar no mundo das drogas, por exemplo, gerado muitas vezes por situações de desamparo e desigualdade social.

Por isso, Franciela tenta não fazer pré-julgamentos antes de conseguir entender as motivações de um crime, lição que levou também para a vida pessoal. “Aprendi a respeitar mais os outros”, conta.

“Como delegada, aprendi a respeitar mais ou outros” – Fotos: Hemuth Kühl

Vida

Fora da delegacia Franciela é uma pessoa como qualquer outra. Cuida da casa, da filha de 1 ano e alguns meses, ouve rock e vê filmes. Seus preferidos são os da série Tropa de Elite — não por corporativismo, mas por ter tido a coragem de mostrar várias duras realidades das forças de segurança, como o vínculo com a figura do político, algo que ela critica.

Diz nunca ter sofrido preconceito de colegas de profissão, mas isso já mudou de figura enquanto estava à paisana. Ela conta já ter notado um estranhamento de pessoas de fora da Polícia quando disse ser delegada, como se sua capacidade para o cargo fosse questionável por ser jovem e mulher.

Hoje, Franciela é casada, mas nos tempos de solteira eram raríssimos os homens que arriscavam cortejá-la. “Acho que isso acontecia, sim, por causa da profissão. Pode ser que alguns homens ainda não estejam acostumados a se relacionar com uma mulher que não se enquadra necessariamente em um perfil de fragilidade, de dependência”, especula.

Sem querer, a delegada com rosto de modelo quebra vários tabus, prestando assim um serviço à sociedade que vai além de sua função pública. Ela acredita que é só uma questão de tempo para que cada vez mais mulheres assumam cargos semelhantes ao seu. “Sei que o sonho de muitas mulheres que hoje cursam Direito é ser delegada”

Franciela é a prova de que rótulos só servem para produtos, e que competência independe de gênero ou aparência.

*Matéria de capa de Revista Vanilla de maio de 2014 – edição nº 01

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