quinta-feira, maio 26, 2022

O colecionador de memórias

Dono de um acervo de lembranças e material histórico sobre Pato Branco, Alberto Pozza reúne seu repertório em livro que analisa a formação política, social e econômica do município

Por Nelson Junior

“Todo homem precisa compartilhar um pouco do que sabe”. Foi com essa frase em mente que Alberto Pozza arranjou disposição para escrever seu primeiro livro de memórias, aos 90 anos de idade.

Subsídios para isso o pioneiro tem de sobra. Desde 1947, quando chegou ao Sudoeste do Paraná, Pozza guarda recortes de jornais, livros, fotografias e outros impressos que dão suporte a sua matéria prima mais abundante, a lembrança.

Bastou um empurrãozinho dos amigos para que em alguns meses surgisse      

“Memórias de Alberto Pozza em Vila Nova de Pato Branco”, livro lançado em junho passado. Com a obra, o pioneiro se une a uma lista de escritores locais que se dedicaram a registrar a história da cidade e da região.

Apesar do trabalho de pesquisa, o livro de Pozza é essencialmente um registro pessoal, que contém não só o relato dos fatos, mas também análises a respeito da política, economia e da sociedade pato-branquense, sobretudo nas primeiras décadas após a fundação do município.

Alguns discursos de deputados sobre a emancipação política de Pato Branco estão na obra, recheada de fotografias, e reproduções de recortes de jornais e anúncios publicitários, como o da Empreza Cattani Ltda, datado do final dos anos 50, época em que a palavra empresa ainda era escrita com “Z”.

Também está lá a valiosa reprodução de algumas das capas do jornal Oeste Paranaense, o primeiro jornal publicado na ainda vila de Pato Branco, assim como matérias inteiras sobre a fundação dos primeiros partidos, sobre as primeiras eleições no município e outros fatos.

O acervo que Pozza guardou por nostalgia hoje compõe um esboço do que o município já foi, e ajudou o pioneiro a realizar uma das suas ambições. “Eu quis deixar um pouco de história para os jovens e para as gerações futuras”, disse no lançamento do livro, que aconteceu no plenário da Câmara de Vereadores.

E choveu carne

Pozza explorou todos os temas possíveis em sua coletânea de recordações, alguns deles já esmiuçados a exaustão pela historiografia regional, como a Revolta dos Posseiros, e outros nem tanto. Soltas pelo livro estão várias curiosidades e pelo menos uma história inusitada.

Deu na capa do Oeste Paranaense, provavelmente nos anos 50. Um grupo de colonos jogava bocha em uma propriedade há alguns quilômetros da vila de Pato Branco quando algo estranho caiu na cancha. Eram bifes.

Segundo a reportagem, cerca de mil pedaços supostamente caíram em uma área de 100 m². Não demorou para que os curiosos se aglomerassem e criassem teorias. Uns acharam que era a carga de algum avião, outros que era uma brincadeira; tese refutada pelos mais crédulos. Com o preço exorbitante da época, quem em sã consciência compraria tanta carne para jogar fora, diziam.

Há ainda um capítulo inteiro dedicado às curiosidades, como o nome da primeira mulher a dirigir em Pato Branco, o nome do provável primeiro morador do perímetro urbano, e os primeiros números de telefone.

A reprodução das leis que delimitavam os limites geográficos de distritos como Verê e Dois Vizinhos, hoje municípios, e o resultado detalhado da primeira eleição para prefeito também estão no livro.

Pioneiro

Alberto Pozza herdou o empreendedorismo e a liderança dos pais, que assim como várias outras famílias de pioneiros migraram do Rio Grande do Sul para o Paraná atrás de oportunidades. Nascido em Nova Bréscia, em 11 de junho de 1924, Pozza Chegou a Vila Nova de Pato Branco aos 16 anos de idade.

Ele foi comerciante, ativo nos assuntos da comunidade, membro de diretorias de clubes sociais e de serviço e militante político. Ajudou a fundar o diretório de várias siglas no município, como MDB, PMDB, PDT e PTB, pelo qual foi candidato a prefeito duas vezes e membro do diretório estadual.

O pioneiro diz se orgulhar do desenvolvimento de Pato Branco, mas não deixa de lamentar pelo que a cidade poderia ter se tornado. Segundo ele, várias conjecturas políticas em diferentes escalões e épocas frearam o progresso da região.

“Tivemos um pouco de azar. Hoje poderíamos ser duas vezes mais desenvolvidos. Nós perdemos a oportunidade de ter o Jânio (Quadros) como presidente. Ele não acreditava em ninguém, e por isso renunciou. Depois assumiu o Jango, e em seguida vieram os anos de ditadura. A primeira usina hidrelétrica da região poderia ter sido inaugurada em 1955. Também tínhamos a promessa de uma estrada de ferro ligando Pato Branco a Guarapuava”, conta Pozza.

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