quinta-feira, maio 26, 2022

Sou bicho do Paraná

A vida no campo, a natureza e as belezas locais são os temas cantados por João Lopes, músico que por décadas leva a cultura do Paraná para o Brasil

Bicho do Paraná, a música de maior sucesso de João Lopes, foi uma canção feita em um momento no qual era difícil divulgar o trabalho, assinar com gravadora, fechar shows. Uma época ainda analógica, que as pessoas conheciam o artista pelo rádio antes de comprar seu LP. Ainda assim, o paranaense de Califórnia, foi em busca do sucesso no lugar onde era o centro dos acontecimentos artísticos: o Rio de Janeiro. Na bagagem, algumas canções, umas três matérias em jornais e mais nenhum material de divulgação.

A capital carioca vivia a Bossa Nova de João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, e chega lá um cara soprando gaita de boca. Não conseguia nada, e já batia aquele desespero de precisar de dinheiro. Os produtores pedindo para melhorar minha aparência, cortar o cabelo, fazer a barba, ideias que eu nunca compraria. Foi quando, brincando, disse: vim de uma região de terras férteis, sou do interior do nortão do Paraná, onde as características do homem do campo são essas aqui. Felizmente, consegui cantar e tocar um violão, relembra.

A pressão pela aparência só aumentava, e continuavam dizendo que estava difícil vende-lo como artista. É claro que era difícil, eu não tinha o que vender. Eram algumas canções conhecidas no interior do Paraná.

Para fazer dinheiro, João ia até os bares da Barata Ribeiro, onde conseguiu umas duas apresentações com cachês que pagavam seu almoço no PF. Bar não tem como pagar bem.

Em determinado momento, fechou um show na cobertura de uma obra. Tinham acabado de concretar a laje, e o costume era fazer um churrasquinho para os peões quando termina essa etapa da obra. Nessa aí, o cara resolveu fazer um show e, felizmente, ele me encontrou a perigo na praia. E a perigo significa duro mesmo, sem nada de dinheiro. Comia e dormia no hotel, mas não tinha ideia de como pagaria, lembra.

Desta vez o cachê do show, ele lembra, foi a conta do hotel. Inclusive, acharam a despesa muito salgada.

No caminho do aeroporto, o músico brincou com o taxista. Me tira desse lugar, pelo amor de Deus. Eu sou bicho do Paraná. Pensando em toda a história vivida, a letra foi concluída ainda dentro do avião.

Sucesso, sucesso mesmo, a canção só fez depois de cinco anos, com a campanha do Bamerindus. Mas, hoje, seis discos depois, vira assunto de documentário.

O projeto do longa-metragem feito por Antonio Martendal e Vander Colombo, que conta a história do Bicho do Paraná desde de 1978, ano da canção, foi aprovado em segundo lugar pela Profice, e está sendo feito pela L’avant Filmes, de Curitiba.

Sobre essa e outras histórias, conversamos com João Lopes, quando ele passou por Pato Branco para se apresentar em um evento realizado pelo Colégio Integral.

Vanilla – Você é conhecido por ser o porta-voz musical das tradições do Paraná, mas a identidade cultural no nosso estado varia de região para região. Qual é a sua percepção sobre todas essas diferentes identidades?

João Lopes – À identidade cultural do Paraná atribuo mais ao povo caipira que somos, acanhados. Partiu de Curitiba essa história que paranaense é fechado, que não valoriza seu talento, sua terra. Como são vários povos dentro do Paraná, acho que a cultura tem que se desenvolver por regiões. Tem a cultura do Norte do Paraná, que sofre uma influência bárbara do interior de São Paulo, e também das pessoas que vieram no norte do Brasil, que vieram na época da cultura de café. Essa é a minha região. Aqui, no Sudoeste, vocês têm uma influência muito legal do Rio Grande do Sul. (Neste momento, sua esposa, Carminha, que o acompanha, também entra na conversa).

Carminha – Estávamos discutindo exatamente isso na hora do almoço. Falávamos das pessoas do nordeste, que endeusam a sua cultura, os artistas deles. É isso que falta um pouco no Paraná. O gaúcho tem mais isso, o catarinense também, e no Paraná esse orgulho é menor.

João Lopes Eu atribuo esse fenômeno multicultural a essa mistura toda. Fica mais fácil trabalhar por região. É preciso entender que há diversas culturas, e não tirar essa identidade que há em cada região. Aqui encontramos pessoas vestindo bombachas, no Nordeste do estado isso não funciona, lá eles usam chapéu de vaqueiro. E tudo isso está aqui dentro do nosso estado, em cada canto há um segmento cultural.

Falando pela música, posso dizer que as pessoas acreditam que canto as tradições do Paraná por causa de uma música que fiz chamada Bicho do Paraná. Essa música deu origem a uma campanha que ficou 13 anos no ar e que, de uma certa forma, me colocou nesta posição, mas não é só isso. Quando essa campanha entrou no ar, um jornalista, em Curitiba, que não era paranaense, disse que a música era bonita, mas que deveriam pegar um artista paranaense.

Ele achou que eu fosse nordestino, parecido com o Alceu Valença. E eu não tenho nada a ver com o Alceu Valença, sou muito mais bonito (risos). Mas, voltando ao assunto, acho que o paranaense tem identidade cultural, sim. Que há um caipirismo em todas as regiões.

Mesmo em Curitiba?

Eu sempre digo que se você fizer sucesso em Curitiba, saia correndo, porque o curitibano vai acabar te queimando. Ele gosta muito de você, mas não sabe chegar pedir um autógrafo, dar parabéns, um abraço. Nunca me esqueço quando começamos a tocar em bares por lá e tinha muitos amigos que vinham chamar a gente para fazer um som. Naquela época não tinha um movimento musical no Paraná como tem hoje, muito rock ´n roll.

Nós tocávamos com uma gaitinha de boca e um violão nos barzinhos, pubzinhos pequenos. Quando fui pra São Paulo, com a esperança de ficar lá uns três anos até ser contratado, depois de quarenta dias fechamos um contrato com a Continental [gravadora]. Fomos ao programa do Rolando Boldrin, que estava à frente do Som Brasil, lá no Rio de Janeiro, e a [revista] Veja estava fazendo uma entrevista com a gente, falando do nosso segmento musical.

Eles usavam muito a expressão rock rural, que eu nunca curti muito. Eles pensavam: o pessoal faz um som meio pesado, atrás tem uma letra que fala sobre o campo, aí deram esse nome. O Almir Sater estava junto, ele ia estrear no Som Brasil. Não tinha nenhuma palavra minha nesta entrevista, quem falava era o Almir e o Rolando. Mas tinha um disco meu em cima de uma mesa, que eu levei pro Rolando.

Quando eu cheguei em Curitiba, meus amigos vieram todos em cima de mim. Você está famoso, cara. Eu te vi na Veja, grande coisa. Ficaram no bar, bêbados, discutindo isso. O João Lopes foi embora, abandonou a gente, eles falavam. É esse o tipo de carinho que eu vejo nos curitibanos, eles se importam, mas do jeito deles. Não acho que é ignorância, estupidez, inveja, nada disso. É aquela falta, aquele sentimento de perda misturado a um orgulho. Você traiu o movimento, seu burguês. Saiu na Veja. E o que eu tenho de burguês? Sou um capiau que veio do meio do cafezal. Enfim, levo isso com muito carinho. E sempre digo aos meus amigos curitibanos que são ótimos músicos, mas precisam receber melhor as críticas.

Falamos do Almir (Sater), do Rolando Boldrin e de você não gostar do rótulo rock rural. Mas vemos em sua música um pouco de folk, um pouco de rock e desse caipirismo que você se orgulha. Quais são, então, suas principais influências?

Não que não goste do rock rural, mas eu nunca rotulei a minha música. Sempre gostei de falar que o estilo que faço é Música Popular Brasileira que não é samba. Porque você chega fora do Brasil e fala MPB, o cara já espera um sambinha. Só que a música sertaneja, por exemplo, é super popular.

O rocknroll pode ser super popular. O folk, como você acabou de dizer, está em alta, todo mundo está ouvindo. Mas a minha música não vou chamar de folk, porque ela é brasileira. E também não vou chamar de música sertaneja. Eu sou um caipira moderno, com influências que vêm do norte do Paraná, daquela colonização do povo do interior de Minas Gerais, de São Paulo, dos nordestinos que chegaram através da cultura do café, que mobilizava muita gente na época em que tinha plantação de café.

E quando eu era criança, ia lá brincar no meio do cafezal e eu ouvia o cancioneiro daquela gente. (Cantarola) Eu tava na peneira, eu tava peneirando, eu tava no namoro, eu tava namorando, que era do Luiz Gonzaga, lá do nordeste. Ao mesmo tempo eu ouvia uma música do Tonico e Tinoco, ouvia Nelson Gonçalves.  Depois, na adolescência, pintou o lance de começar a ouvir a Jovem Guarda, Roberto Carlos.

E sempre tive um pezinho mais para o rock nroll do que para o popular. Eu me lembro que gostava muito de Renato e seus Blue Caps, de Erasmo Carlos, Eduardo Araújo, que era uma galera mais do rock, eu curtia muito. Depois pintou o negócio dos sonhos. Quando ouvi Satisfaction [do Rolling Stones] pela primeira vez mudou tudo, foi uma loucura. Só que ao mesmo tempo eu gostava de ouvir também um Luiz Gonzaga, que era aquela coisa da infância. Foi tudo se misturando antes mesmo de eu saber que um dia eu iria fazer uma música.

Como foi fazer a sua primeira música?

A minha primeira letra é uma música que eu nunca cantei e que não tem muito a ver com o meu trabalho em geral. Eu sempre gostei de cantar coisas que não perdem a data de validade, com um discurso que vai perdurar para sempre. Para mim, a letra é 80% da música. A melodia é um dom, você tem que nascer captando melodias, para ser um compositor.

Já a letra é uma redação, mas ela precisa vir do coração, para você colocar para as pessoas e ela ter um valor. Costumo dizer que não sou um compositor de escritório. Ou místico, que precisa subir uma montanha para ter insight de uma letra, acender um incenso. Eu estou dirigindo, de repente vem um tema, paro o carro e escrevo.

Minha família, da parte do meu pai, era muito musical. No interior de Califórnia era o cafezal, viola e sanfona. Essa era a rotina. Aqueles intervalos de trabalho, às 9h, depois às três da tarde, quando todos vão tomar café, eles já pegavam os instrumentos para diminuir o sofrimento do trabalho, digamos assim.

Hoje eu percebo, quando criança, quando saía para os matos, nadar nos rios, aos domingos, eu ouvia lá de longe as violinhas, aqueles duetos de vozes, e muitas vezes eu abandonava aquela pescariazinha, aquela brincadeira, e ia em direção à música. Eu gostava de ficar sentado, ouvindo.

Muitas vezes eles já tinham até almoçado e me chamavam para comer aquela macarronada, e eu ia só pra poder ficar perto da música. Fingia que comia, mas ficava participando daquela cantoria, daquela musicalidade. Mas aí veio o rock nroll e estragou tudo. E hoje digo que minha música é popular brasileira, mas não é samba.

Se você acha que 80% da música é letra, o que está achando deste movimento do Sertanejo  Universitário que avassalou o país?

Estou só esperando eles se formarem para ver se dá uma melhorada, mas eles estão reprovando muito. Sempre digo que prefiro um caipira analfabeto do que um sertanejo universitário, que é o meu caso. Mas tenho dois primos estourados na mídia que são dessas raízes, Cesar Menotti e Fabiano.

Mas Cesar Menotti e Fabiano é outra história. Eles fazem uma releitura de canções sertanejas dos anos 80 e 90, que são bonitas. Você não acha?

Também acho bonito. As letras são incríveis, não têm nada a ver com o que está tocando hoje em dia. Mas cada um tem seu espaço, inclusive o sertanejo universitário.

Você foi recebido pelas crianças [alunos da escola Integral] com comoção. Isso te dá esperança de dias melhores?

Criança é assim, você precisa educá-los. Achei incrível quando bati o primeiro acorde e todas elas já foram cantando. Mais de cem crianças cantando a música inteirinha, é muito emocionante.

Outra coisa, as minhas letras não fazem apologia a nada que leve a pessoa pro mal. Eu quero é um mundo livre e gostoso para facilitar a caminhada aqui dentro.  Acho que a criançada aprende por aí.

Não tenho nada contra os outros segmentos musicais, como falamos agora. O que precisamos concordar é que é melhor colocar uma música mais pura para uma criança do que ensinar a ficar rebolando feito louco porque uma coisa chama a outra. Deixa a galera do funk, por exemplo, fazer o lance deles no lugar deles.

Quando você chega em uma escola, quer botar a gurizada para tomar um chimarrão, e o cara vem com outras ideias. Não cabe. Você precisa deixar um rastro brilhante para a molecadinha seguir. Se vai mostrar alguma coisa, que seja uma coisa boa.

A internet está aí para facilitar a divulgação do trabalho dos músicos. Você usa bastante esses meios?

Eu sou cara meio burro nesses negócios. Aliás, sou um cara que só canta porque Deus pediu para eu cantar, certamente. Porque, se você me pedir meu penúltimo disco, não tenho mais, não sei nem onde tem. Procuro mostrar para o público, e até para os próprios artistas, que valorizando o seu território, sua essência, você vai dar voz para o seu povo, que está ligado na sua vibração no segmento cultural. Eu só posso falar da minha música porque é dela que eu vivo, mas quando falo um disco, uma letra, já tenho a intenção de ver se melhoro a vida de alguém ou dar um conforto ao menos.

Fora a música, ouvi dizer que você é um bom cozinheiro. Essa informação é verdadeira?

Ah, eu gosto de fazer comidas que vêm do campo.

Carminha – Tem prato que o João cozinha muito bem. A vaca atolada é um deles. Costela de boi do João é inacreditavelmente maravilhosa, nunca comi igual. Eu agradeço.

João Gosto de utilizar as coisas ali de casa. Como a gente mora fora da cidade, tem muito ingrediente bom que nos permite fazer uma comida com mais qualidade. Uma verdura sem agrotóxico, uma galinha caipira, criada sem ração, que come as coisinhas do mato. Até para os peixes a gente joga resto da horta, milho verde. Se eu pesco uma tilápia, vou caprichar para fazer um prato bom.

Se colho um feijãozinho de primeira, faço uma feijoada bacana, modéstia a parte, dessas de comer à vontade. Faço geleias quando tem frutas em casa, geleia de pimenta. As pessoas chegam lá em casa morrendo de fome, e acham aquela comida gostosa. Também tem a coisa de fazer com carinho, pensando em quem vai participar da mesa.

Ultimas Notícias