quarta-feira, maio 25, 2022

Lembrando a velha guarda

Humorista Nelson Freitas fala sobre humor, as transformações do programa Zorra, da Rede Globo, e seu espetáculo cujo modelo é inspirado na comédia feita pelos mestres do gênero    

Por Nelson da Luz Junior

O ator e humorista Nelson Freitas não só viu de perto, como participou da transformação do humor brasileiro nos últimos anos. No elenco do programa Zorra Total desde 2001, Freitas acompanhou a mudança de linguagem de um dos programas de humor mais longevos da TV.

Até meados de 2015, o programa fazia o clássico humor de bordão, com personagens e quadros fixos. Hoje, a atração mudou de nome, se chama apenas Zorra, e conta com esquetes curtas. Freitas conta que a mudança foi feita para se aproximar com o público mais jovem, da geração acostumada com a linguagem stand up comedy e Porta dos Fundos.

No teatro, porém, o formato que escolhe é inspirado no humor que o moldou, aquele feito por nomes como Juca Chaves e Jô Soares. Recentemente, Freitas esteve em Pato Branco com a espetáculo “Nelson Freitas e vocês”, por ocasião da reinauguração do Teatro Naura Rigon. Nela o humorista dialoga com o público, brincando com situações do cotidiano e os relacionamentos.    

Nelson Freitas ingressou na carreira artística em 1985. Fez teatro, cinema, novelas e minisséries nas redes Manchete, Globo, sendo um dos protagonistas da novela Chiquititas, sucesso do SBT no fim dos anos 90. Vanilla conversou com o ator.

Como é a dinâmica do espetáculo Nelson Freitas e Você?

Esse espetáculo não é um stand up. Essa modalidade, que é muito comum, tem certas regras que diferem do show de humor das antigas, do Chico Anysio, Jô Soares, Zé Vasconcellos, Juca Chaves, pessoas que eu procurei me inspirar.

Então ele é um show de humor nos moldes do que faziam esses antigos comediantes brasileiros. Eu faço um apanhado sobre relacionamento, basicamente; o marido e a mulher, pais e filhos, a melhor idade, e sempre com um ponto de vista bem-humorado da questão.

Esse show tem uma chancela muito importante para mim que é a do Chico Anysio, nosso amado mestre, que dirigiu o espetáculo. Não que eu queira me fazer de Chico Anysio, porque para isso eu ainda tenho que comer muito feijão com arroz. Mas o caminho que eu quis seguir foi o das instruções dele, da elegância, de uma picardia bem colocada, entendeu?

Portanto não é um espetáculo que fala mal dos outros, que atira pedra, que tem palavrão, que seja grotesco. Muito pelo contrário, ele é um espetáculo elegante e inteligente.

E é como se fosse um bate papo na sala de casa. Quanto mais próximo eu puder estar do público melhor, pois eu troco palavras, conversas com as pessoas na plateia. Ou seja, é um espetáculo meio que interativo, onde eu provoco eles em muitos momentos para participarem, lembrarem coisas comigo. A sensação é de que eu estou sempre improvisando.

O humor brasileiro se transformou muito nos últimos anos, com o aumento de popularidade do stand up e das esquetes. Nesse contexto, qual é o papel de um programa longevo como o Zorra, e como ele se aproveitou dessas transformações?

A transformação do humor é visível. Hoje de 10 peças publicitárias, sete tem um viés humorístico, o restante é ecologia e emoção. Eu acho que com o advento de TV a cabo e internet, que estão cada vez mais presentes na vida das pessoas, a gente passou a ter acesso a vários tipos de humor, principalmente o humor mais rápido, mais ágil.

A nossa temática é sempre tentar agradar. O Zorra tem 15, 16 anos no ar. Nós tínhamos um formato mais popular, mantendo a tradição do humor de bordão, que existe desde os primórdios da TV brasileira em programas como Balança mas não cai; Faça amor, não faça guerra; Planeta dos Homens, todos os Chicos, City e Total. Particularmente eu acho que o humor de bordão devia fazer parte do patrimônio histórico e cultural brasileiro.

Isso agradou por muito tempo, tanto que o Zorra Total foi um campeão de audiência, nós nunca perdemos para ninguém. Mas houve essa necessidade de ir mais adiante, falar um pouco mais com os jovens, entrar nesse movimento Porta dos Fundos, a TV na TV, e tantos outros programas com mais agilidade, programas de quadros e esquetes.

Por exemplo, no Zorra antigo, eu gravava no máximo duas vezes por semana. Porque em uma ida lá eu matava dois quadros, que correspondem a dois finais de semana, que são 15 dias. Quadros como a Lucicreide, o Homem do Futuro, Marcia e Leozinho.

Hoje em dia nós temos menos tempo de programa, que passou de uma hora para meia hora, e a gente trabalha o dobro, de segunda a quinta, com pelo menos quatro ou cinco gravações.

E mesmo assim a gente não consegue fazer um programa por semana. A gente sai pra rua, monta um grande set para fazer uma cena que não dura um minuto. Ele é muito ágil, indo ao encontro dessa nova fronteira do humor brasileiro e mundial eu diria.

Além da TV e do teatro, você está trabalhando em outros projetos?

Hoje em dia eu também tenho me dedicado muito a um movimento, que talvez seja o mais importante de toda essa transformação que o Brasil está passando. Eu por acaso sou casado com uma procuradora da república, e eu estou sempre em contato com todos os procuradores, e esses nossos heróis que tem lutado por uma situação melhor no país.

Então eu tenho dedicado grande parte do meu tempo a um grupo que eu montei com nossos atores, que se chama A Grande Chance, que ajuda a forçar até o fim a aprovação do projeto das 10 Medidas contra a Corrupção.

Essas medidas compreendem muitas ações que foram estudadas por um grupo de procuradores que hoje cuidam da operação Lava Jato, cujo comandante é o Deltan Dallagnol, meu amigo pessoal…

Que inclusive é natural de Pato Branco

…mentira! Não acredito! Que informação preciosa que você me deu. Mas só pra gente finalizar essa história. Nós temos esse grupo, com cerca de 70 atores e músicos que estávamos atrás de assinaturas para a campanha, que já conseguiu 2 milhões de nomes. Fomos a Brasília, eu, Cássia Kis, Thiago Lacerda, Vanessa Lóes, Luana Piovani, entregar assinaturas, enfim.

Eu estou muito dedicado a esse momento brasileiro, que acho ser a única solução que a gente tem. Essas 10 medidas nada mais são do que um pedido de socorro do Ministério Público, que realizou tantas operações, e correu riscos de vida por mexer com gente perigosa. Isso é uma mobilização popular, um apelo popular.

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