quarta-feira, maio 25, 2022

Marco zero

A praça Presidente Vargas foi o cenário de alguns dos principais eventos da história de Pato Branco. Nela discursou um presidente da República, um grupo de agricultores promoveu uma revolução, e uma igreja definiu os rumos da cidade

Por Nelson da Luz Junior – Fotos: Acervo Rudi Bodanese/Patonauta

Os domingos costumam encher a Praça Presidente Vargas de pessoas. São fiéis que saem das celebrações na Matriz São Pedro Apóstolo, jovens e famílias que aproveitam o principal espaço do centro da cidade para confraternizar, tomar chimarrão e ver o tempo passar.

Mas a praça nem sempre foi lugar só de calmaria. Quem hoje descansa nos bancos próximos ao lado voltado para a Rua Iguaçu, nem imagina que há cerca de 60 anos, aquele pedaço de calçada na época chão batido – estava tomado por homens armados de facões, foices, revólveres e espingardas.

Mobilizados por Ivo Thomazoni, locutor da Rádio Colmeia, hoje Celinauta, um grupo de agricultores se aglomerou na praça, prontos para confrontar a violência dos jagunços das companhias de terra. Era 9 de outubro de 1957, data importante para a Revolta dos Posseiros, um dos conflitos agrários mais significativos do sul do Brasil.

Na praça Presidente Vargas também discursou João Goulart, o primeiro presidente da República a visitar o Sudoeste, em 1962.

Desde que Pato Branco ganhou seus primeiros traços de cidade, a praça foi cenário de alguns dos principais acontecimentos de sua história. Visitas ilustres, manifestações e eventos, como o desfile de Natal e de 7 de setembro ainda hoje convergem ali, repetindo um fenômeno que é visto em todo o mundo.

Foi na praça Tahrir, no Cairo, que as manifestações da chamada primavera árabe ganharam corpo e força no Egito. Foi na praça da Sé, em São Paulo, que aconteceu um dos comícios mais emblemáticos do movimento pelas eleições diretas no Brasil.

As cidades geralmente surgem no entorno delas, e quem sabe por isso as praças sejam tão simbólicas. Imagino que seja por conta de uma sensação de pertencimento, especula a jornalista Jozieli Cardenal Wolff.

Há pelos menos dois anos ela investiga a história da principal praça de Pato Branco, pesquisa que recentemente virou projeto de mestrado no Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR), da UTFPR. O trabalho é orientado pelo professor Anselmo Lima.

Sua intenção é entender como a praça se relaciona com o desenvolvimento da cidade. Ela não é apenas um espaço inanimado. Ela recebe as percepções, as características sociais, econômicas e políticas. A jornalista pretende mostrar isso através da análise de acontecimentos importantes que tiveram a praça como cenário. E não foram poucos.

Praça Presidente Vargas, 1968

Desenho

Lembro que as pessoas saíam da igreja e iam assistir à banda de música de uma loja, que tocava no coreto. Assim costumavam ser os domingos na praça central na década de 1960, de acordo com as memórias de Delise Guarienti Almeida, presidente do Grupo Diário.  Hoje, no lugar do coreto está um campo de futebol, e o chafariz ocupa o espaço que já foi o da igreja.

Vasculhando acervos de fotos antigas do centro da cidade é possível perceber as transformações da praça, cuja localização foi determinada ainda na década de 1930, quando o engenheiro Duílio Beltrão definiu o primeiro traçado urbano de Pato Branco.

Cientes do que significaria morar ou ter um estabelecimento no entorno da praça central, muitas famílias reivindicaram a construção na proximidade de suas propriedades. E foi a religião que resolveu o impasse.

Por determinação dos padres franciscanos, a capela da vila foi transferida em 1935 para a área da então Praça Brasil, sacramentando assim a localização.

Com isso também se determinou o anel central de onde avançaria o processo de urbanização de Pato Branco. No entorno da praça, e até mesmo dentro dela, surgiram algumas das edificações mais importantes da história da cidade, como a escola do professor Juvenal Cardoso, o primeiro hotel e o Hotel Brasil, também conhecido como hotel rodoviária.

O desenho similar a um triângulo permaneceu praticamente o mesmo, apesar das reestruturações e revitalizações feitas nas várias décadas de existência na praça.

Algumas das mais significativas foram feitas entre 1956 e 1960, na gestão de Harry Valdir Graeff, quando foram feitas intervenções no nível do leito da praça, e início da década de 1970, com mudanças na arborização.

As ruas no entorno da praça também já foram diferentes. Por muito tempo, a Avenida Tupi passava em frente à Matriz São Pedro Apóstolo, e até a década de 1980 havia uma área de estacionamento no trecho da rua Guarani que passa em frente à loja Paraná Plásticos.

Presidente

Até 25 de outubro de 1953, a praça central de Pato Branco se chamou Praça Brasil. Uma lei, publicada nessa data, determinou o nome de várias ruas e praças, como a Presidente Vargas.

Fontes entrevistadas por Jozieli dão pistas de que o batismo se deu por dois motivos: o contexto político e a origem dos pioneiros da cidade.

Quando as primeiras casas começaram a aparecer por Pato Branco, Getúlio Vargas era uma figura política importante e respeitada. Também era gaúcho, como boa parte, se não a maioria dos primeiros moradores a se estabelecer na cidade.

A jornalista conta que até agora, as principais fontes de sua pesquisa são acervos fotográficos, jornais, livros e entrevistas com pesquisadores e personagens célebres, como o frei Policarpo, a professora Neri Bocchese e o fotógrafo Rudi Bodanese, dono de um grande acervo de imagens históricas de Pato Branco.

Da internet também vieram histórias. Além do trabalho acadêmico, Jozieli criou uma fan page no Facebook (facebook.com/pracapresidentevargas) para compartilhar imagens da praça, e através dela a pesquisadora soube do relógio de sol que já existiu por lá. Quem tiver fotos e histórias pode compartilhá-las por meio da página.

Linha do tempo

A Praça Presidente Vargas foi o cenário de vários acontecimentos históricos de Pato Branco. Conheça alguns dos mais importantes (Fonte: pesquisa de Jozieli Wolff):

1935 -A igreja Duílio Beltrão foi o engenheiro que criou o primeiro traçado urbano da vila que viria a ser Pato Branco. Nele já estava determinado a localização da praça central. Mas foi preciso instalar a segunda igreja da cidade no centro da praça para estabelecer de vez os seus limites. Prevendo a importância do espaço, muitas famílias reivindicavam que a praça fosse vizinha de suas propriedades, impasse resolvido com a instalação da igreja, no espaço onde atualmente está o chafariz. Na década de 1960, era comum as pessoas saírem da missa para assistir à banda que tocava em coreto, que ficava onde hoje está o campo de futebol.

1948 – A torre

Já existiu uma torre de madeira de 17 metros de altura na esquina entre as ruas Iguaçu e Guarani. Equipada com três cornetas de som e um estúdio na base, a torre foi instalada pelo então candidato a deputado estadual Antonio Odorzick Filho, com a intenção de promover a sua campanha.A eleição passou e a torre passou a ser utilizada para divulgar recados, notícias, propagandas e outras mensagens importantes para a comunidade.

1957- Prontos para a briga

Cansados dos desmandos e da violência dos jagunços das companhias de terra, agricultores se aglomeraram na praça central em outubro de 1957, armados com facões, foices, revólveres e espingardas. O evento foi o ápice da chamada Revolta dos Posseiros, um dos principais conflitos agrários da região sul e um dos poucos na história do Brasil onde os colonos saíram vitoriosos.A repercussão do conflito rendeu outro capítulo importante para a história não apenas da praça, mas da região Sudoeste; a primeira visita de um presidente da República.

1962 – Visita de João Goulart

Quatro anos depois do levante dos colonos, o presidente João Goulart esteve em Pato Branco para continuar o processo de legalização das terras em disputa, iniciado um ano antes com a assinatura de um decreto que desapropriou as terras em litígio.Foi na praça que o então presidente entregou o primeiro título de terra a um colono da região. Na ocasião, Goulart também inaugurou uma agência do Banco do Brasil.

1965 – A nevasca

Em 21 de agosto de 1965, um sábado, Pato Branco amanheceu coberta de neve, para alvoroço dos moradores. Para contemplar o fenômeno, muitos curiosos se reuniram na praça, onde foram feitas algumas das fotografias mais famosas daquele dia, como a da noiva.Segundo Jozieli, o frei Policarpo conta que naquele dia aconteceriam 12 casamentos na igreja, mas um deles não aconteceu. Essa história teria motivado as pessoas a fazer um boneco de neve no formato de noiva, eternizada em fotografia por João de Paula.

Artigo anteriorSou bicho do Paraná
Próximo artigoLembrando a velha guarda

Ultimas Notícias