quinta-feira, maio 26, 2022

Meu quintal é o mundo

Passar meses morando na estrada, conhecendo diferentes lugares e vivendo novas experiências. Assim é a vida dos caravanistas que exploram o mundo em motorhomes

Por Nelson da Luz Junior – Fotos: Helmuth Külh e Acervo pessoal

Rozimbo Bianchi, nos primeiros anos de viagem

Uma imensa planície, árida até onde a vista alcança, muito quente durante o dia e fria durante a noite. Assim é o deserto de Atacama, o mais alto e seco do mundo, que se estende pelo norte do Chile até a fronteira com o Peru. Era lá que Rozimbo Bianchi estava na segunda metade dos anos 1970, com a esposa, Hilda, e outros sete casais. 

O grupo viajava em dois carros e um trailer. A intenção era chegar no México, mas o pernoite no deserto mudou os planos. Era areia branca, sem um pé de grama e uma árvore. As mulheres ficaram com medo e quiseram voltar, lembra Bianchi. 

Na votação sobre ficar ou partir ele foi voto vencido, e a comitiva deu meia volta. Para compensar a viagem, pegou um avião em Santiago e visitou a Ilha de Páscoa. Depois da experiência, decidiu que a partir de então viajaria apenas na companhia da esposa.

Esse é o resumo da história da primeira viagem de trailer do empresário, que mais de 40 anos depois continua explorando o cone sul dirigindo um motorhome. Seu espírito aventureiro, porém, foi despertado bem antes daquela incursão. 

Natural de Lagoa Vermelha, Rio Grande do Sul, Bianchi chegou em Pato Branco há 65 anos. Ele era motorista de caminhões de mudança, e por conta dos conhecimentos de mecânica recebeu alguns convites para trabalhar na cidade. Minha intenção era ficar um mês em cada lugar para conhecer o mundo, e logo no primeiro destino fiquei, conta.

Veio praticamente com a roupa do corpo e uma mala de madeira, e se hospedou no icônico Hotel Paraná, pouso de muitos pioneiros recém-chegados. 

Tempos depois abriu sua própria oficina, onde também vendia algumas peças, na altura do Trevo da Patrola. Em uma viagem a Balneário Camboriú, sua esposa notou que muita gente saia da região em busca de peças automotivas, e percebeu a oportunidade de ampliar o negócio em Pato Branco. Assim surgiu a empresa que hoje se chama Rozimbo Peças, e que recentemente completou 55 anos de história.

Neve no Chile 

Rozimbo Bianchi diz ter uma ligação especial com o Chile. Foi lá que sua primeira viagem de trailer terminou precocemente, e o país também é lembrado por seus policiais honestos. Mas foi em 1978 que Bianchi diz ter vivido a história mais marcante.

Ele precisou esperar por cerca de dois dias na estrada para que uma camada de neve derretesse e fosse possível seguir viagem. Eram 6 metros de altura de neve. Eu pegava com uma pá, jogava pela janela e descongelava para cozinhar e tomar banho.


Casa sobre rodas

Uma das várias paisagens testemunhadas por Bianchi

Em janeiro de 1975, Bianchi reacenderia o sonho de rodar o mundo. Ao visitar um amigo em um camping em Foz do Iguaçu, conheceu o universo dos trailers. 

Comprou um por telefone, no dia seguinte, e de lá para cá foram nove casas sobre rodas, um número considerável para quem na juventude nem imaginava ter um veículo. O maior tinha 18 metros de comprimento. 

De modo geral, um motorhome vem equipado para realizar todas as funcionalidades básicas de uma moradia. Neles há quartos, banheiros, cozinhas, sofás, máquinas de lavar, televisores, acesso à internet, TV a cabo com a possibilidade de implementar vários outros acessórios.

Por sua experiência na estrada, Bianchi costuma ser procurado pelos fabricantes para testar e avaliar as novidades. Aos 83 anos de idade, ele é um dos caravanistas mais experientes do Brasil, condição que lhe garantiu um prêmio em um dos encontros de motorhomes mais importantes do país, realizado em Santa Helena, Paraná. Ganhei de um senhor de Curitiba por seis meses.

Viajar de motorhome possibilita várias liberdades. Há quem prefira passar a noite em hotéis, ou pernoitar apenas em campings, mas levar a casa nas costas permite estacionar praticamente em qualquer lugar, e ficar o tempo que julgar necessário.

Em quatro décadas de estrada, ele rodou o Brasil, conheceu Paraguai, Uruguai, Argentina, Chile e chegou até a fronteira com a Bolívia, em uma região há mais de 4 mil metros de altitude. Ele e a esposa, já falecida. Foi minha grande companheira.

Antes do GPS, dos celulares e da internet móvel, a rota era feita pelo mapa. Bianchi lembra de ter visto filas para usar um orelhão no centro de Buenos Aires, realidade que também era comum no Brasil.

Da Argentina ele guarda algumas histórias, como a leviandade da polícia, e uma amizade fraternal. Certa vez, em Balneário Camboriú, Bianchi serviu um copo de café com cachaça a um argentino, com a intenção de lhe pregar uma peça. Seu nome é Luis Palma, que provou a mistura e sentenciou: que coisa boa. Estava selada a amizade.

Modelo mais recente, e um dos mais antigos usados por Bianchi

Grande ou pequeno

Desde os trailers, que precisam ser rebocados, até os grandes motorhomes, existem vários modelos disponíveis. Rozimbo Bianchi já teve um veículo que media 18 metros, mas hoje viaja em um modelo menor. Quanto maior, mais pessoas podem ser embarcadas com mais conforto. Quanto menor, mais mobilidade. 

Hoje tem de tudo. Há os mini, apenas com o básico, os médios com todo conforto, gerador, placas solares, ar-condicionado, lavadora de roupas, churrasqueira, forno elétrico, sofá cama, quarto de casal, TV grande, etc. Os grandes costumam ter beliche, lista a caravanista Graça Soares.

Segundo ela, dependendo do veículo, é preciso ter uma habilitação adequada para dirigir um motorhome. Outra habilidade importante é conhecer a mecânica do veículo e estar atento a detalhes como os reservatórios de água, potável, servida e negra (do banheiro), para não ficar sem ou se constranger.

  “Minha intenção era ficar um mês em cada lugar para conhecer o mundo, e logo no primeiro destino fiquei”, Rozimbo Bianchi, sobre seus planos ao sair do Rio Grande do Sul, sua terra natal. Está em Pato Branco há 65 anos, e há mais de 40 viaja de motorhome.

Viagens

Entre os adeptos do caravanismo, o hábito mais comum é determinar um destino e seguir o rumo, mas tudo pode mudar no meio do caminho. A viagem mais longa feita por Bianchi não foi necessariamente planejada. 

Ele seguiu até Porto Alegre, e de lá decidiu percorrer o litoral brasileiro. Foram cerca de 17 mil quilômetros até a cidade de Capanema, no Pará. Suas paradas geralmente acontecem em postos de gasolina, e apesar do critério pouco rigoroso na escolha das pousos, ele conta que nunca chegou nem perto de ser assaltado.

Bianchi, em algum lugar da América do Sul

A professora aposentada Graça Soares (61) conta que nos últimos anos costumava planejar viagens longas para locais como Ushuaia, Machu Picchu, Porto Seguro e o camping Mundaí, para onde vão vários sulistas que fogem do frio. Para além disso, as viagens acontecem sem planos.

Graça e o marido, Renato Wenzel, são caravanistas desde 1984 e atualmente vivem em Itapema, no litoral catarinense (Nota do editor: Renato faleceu alguns meses depois da primeira publicação desta reportagem, na edição de junho/julho de 2016 da revista Vanilla). Eles são coautores de um aplicativo com endereços e dicas para motorhome no Brasil, além de manterem um blog sobre o assunto (gracita-sowen.blogspot.com) e colaborarem para a revista MotorHome.

Ela conta que o casal costumava passar nove meses viajando, e que o tempo de parada em cada destino depende de vários fatores. Nas viagens longas vai depender das atrações priorizadas e do tempo disponível. Às vezes pensamos em ficar dias, mas o lugar nos decepcionou e vamos embora. Em outros somos surpreendidos pela natureza ou pelas pessoas e ficamos mais tempo, explica.

Na bagagem, Graça e Renato também carregam experiências pela América Latina, como uma incursão que começou no Brasil, passou por Machu Picchu, Nazca, Arequipa e Puno, no Peru, e seguiu do norte até o sul do Chile.

Família

Graça conta que o que os levou a viajar foi o gosto pela estrada e a convicção de que as experiências contribuiriam para o aprendizado dos filhos. Quando acampamos de barraca na Festa da Maçã, em São Joaquim em 1983, nossa filha, então um bebê, acordou maravilhada. Ali decidimos procurar um trailer, relata.

Os filhos os acompanharam até ingressarem no mercado de trabalho. Segundo ela, a partir de uma certa idade, geralmente após a aposentadoria, a maioria dos adeptos ao caravanismo viaja em casais.  

Graça Soares e Renato Wenzel, na estrada há mais de 30 anos

Dois lados

Viajar sem lenço e sem documento parece maravilhoso, mas nem tudo são flores. Segundo Graça, a melhor parte é conhecer novos lugares, pessoas, viver aventuras e superar limites. Imagina o prazer de comprar um pão, queijo e vinho, se esticar no sofá, sem pressa, e saborear tudo isso ouvindo tuas músicas preferidas em qualquer lugar do mundo? Não tem preço, resume.

Mas também existem as estradas e campings ruins, problemas mecânicos e outros revezes, como falta de sinal de internet e TV. A gente trabalha mais no doméstico do que em casa, pois ninguém leva uma diarista. E além de cozinhar, lavar roupas e limpar, algumas coisas se desgastam, e temos que fazer a manutenção.

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