quinta-feira, maio 26, 2022

A cuca mais querida da cidade

Ingredientes:
– Toneladas de fé
– Muitas horas de caridade
– Quilos de açúcar
– Décadas de tradição

Há mais de 30 anos, a Feira da Cuca da Igreja Luterana reúne muitos apreciadores aliando culinária, crença e voluntáriado

Por Nelson da Luz Junior – Fotos: Helmuth Külh

O frio não intimidava o grupo que fazia fila no Pavilhão da Igreja Evangélica Luterana Cristo Redentor, no centro de Pato Branco. Eram cerca de 15 pessoas, que esperavam sentadas a saída de mais uma fornada de cucas, cujo aroma adocicado dominava o espaço. Hoje a fila está pequena. Às vezes ela sai pela porta e segue do lado de fora, diz Lindacir Dalla Costa Altmann, que se revezava entre a entrevista, o cuidado com o caixa e o atendimento do telefone.

Naquela sexta-feira, antevéspera do Dia das Mães, Lindacir era uma das várias pessoas que participavam da organização da Feira da Cuca, um dos eventos gastronômicos mais longevos e concorridos da cidade. Segundo Lindacir, não é raro que os estoques acabem horas antes do horário de encerramento das vendas.

A Feira da Cuca é realizada duas vezes ao ano; geralmente em maio, por ocasião do Dia das Mães, e em agosto, para homenagear o Dia dos Pais. Cerca de 70 voluntários se revezam nas várias etapas dos preparativos, da cozinha ao balcão de vendas, onde vários clientes são velhos conhecidos.

Entre diferentes formatos e configurações, a feira é realizada há pelo menos 30 anos. Mariza Fink é uma compradora assídua. Ela saiu do último evento com sete cucas, que serviriam a quatro famílias.

Mariza diz que a tradição familiar e a qualidade do produto a fazem voltar. É alimento para o corpo e para a alma, diz. Apesar da grande compra, Mariza foi até modesta. Há quem adquira até 15 cucas para congelar e consumir por meses.

A tradição também é comum entre o voluntariado. Vários dos participantes acompanham a realização da festa desde a infância, como Elen Sauthier, levada ao evento pelos pais, e que aos 38 anos de idade continua envolvida na organização.

Ela diz que a integração proporcionada é uma forma de compartilhar experiências com os colegas da igreja. É um sentimento de união. Aqui nós temos a oportunidade de conhecer os irmãos mais a fundo.

Produção

Para que as cucas estejam prontas para a venda no horário marcado, ou seja, geralmente em uma sexta-feira, a receita começa a ser executada na quinta à noite. Os preparativos, porém, levam meses.

A receita da cuca não é segredo para ninguém. Houve um tempo em que ela ficava à disposição na parede do pavilhão, lembra Ivone Kossmann, (57) uma das voluntárias mais antigas da cozinha.

Ela acredita que o sabor particular do produto final venha dos ingredientes, sempre os mais frescos e naturais que se consegue utilizar, e do cuidado artesanal que não deixa escapar nem os detalhes. As cozinheiras preferem ralar o pau de canela ao invés de usar canela em pó, por exemplo.

Em nome do sabor original, elas preferem até bater a massa à mão. Foi comprada uma máquina para bater, mas as cucas não ficaram boas, justifica Lurdes Kalinke (68), outra voluntária experiente.

As uvas são compradas ainda em janeiro, sua época de colheita, e congeladas até o momento de virarem recheio, e os abacaxis são comprados e cortados com dez dias de antecedência. Além destes sabores, também costumam ser fabricadas cucas de chocolate, banana, requeijão e farofa.

Por feira são vendidas cerca de 1.300 cucas, mas já houve ocasiões em que até 1.500 foram comercializadas.

Na cozinha, o expediente é longo. O primeiro turno facilmente passa das 23h, e o retorno acontece cinco horas depois, mas ninguém parece reclamar. Pelo contrário, alguns voluntários voltam sempre que possível.

História

Dona Lurdes Kalinke tem os macetes da receita na ponta da língua, assim como as outras voluntárias mais experientes. Ela sentencia: para ficar bom, o recheio de coco precisa ferver por pelo menos uma hora. A única coisa que elas não conseguem prever é o horário de tirar o avental. Não sabemos até que horas vamos ficar aqui, mas é gratificante , diz Ivone Kossmann.

Ambas estão na festa desde as suas primeiras edições, que segundo elas, começou mais ou menos assim: mulheres faziam cucas em casa para vender na igreja, uma ação que evoluiu para um chá organizado pelas servas, um grupo de mobilização feminina.

O chá acontecia no pavilhão, onde as pessoas se serviam e comiam ali mesmo. No cardápio havia bolo de fécula de batata, pastel, torta de coco, torta salgada, entre outros pratos. Segundo Ivone, o custo benefício de preparar toda essa comida para apenas um dia passou a não compensar mais, e as cucas foram retomadas.

Mas ao invés de preparar em casa, a equipe passou a cozinhar no pavilhão. A cuca não foi escolhida à toa. O prato é um dos mais tradicionais da culinária alemã, nação de origem de Martinho Lutero e da maioria dos antepassados dos voluntários, como Dorotea Barp (72). Ela explica que a cuca do evento é feita com a típica massa mole alemã.

Como em uma fábrica, os voluntários se distribuem em uma linha de produção. Após uma oração, o trabalho começa. Primeiro são feitos os recheios, depois vem a massa, que fica crescendo até as 4h.

É na madrugada que são acesos os fornos. Enquanto alguns montam a massa nas formas, outros acrescentam o recheio. Sem o contar o tempo de preparo da matéria- prima, da montagem até o ponto de levar para casa são necessárias de duas a três horas.

O que dita o ritmo da Feira da Cuca da Igreja Luterana parece ser uma mistura de fé, compromisso, tradição e caridade. Segundo as voluntárias entrevistadas, o dinheiro arrecado com a festa é revertido para entidades beneficentes e para a manutenção da igreja. Propósitos e cuidados transmitidos pela culinária.

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