quinta-feira, maio 26, 2022

“A fotografia me escolheu”

Fotos: Marcos Hermes ©

O fotógrafo Marcos Hermes é um cara que desperta admiração, seja em profissionais de fotografia, seja em quem gosta muito de música e especialmente para quem seja os dois.

Hermes mirou sua atuação no mundo da música, e em quase 30 anos de carreira viajou o mundo, fotografou alguns dos artistas mais importantes do cenário nacional e internacional, alguns nos principais festivais, como o Rock in Rio, e suas fotos estamparam capas de CD’s que venderam milhões de cópias, como vários da série Acústico MTV.  

Alguns registros também são históricos, como as imagens para os lançamentos em CD e DVD que registram a turnê conjunta de Caetano Veloso e Gilberto Gil, e a cobertura fotográfica da recente reunião dos Novos Baianos.

Em ação

  Outros trabalhos recentes incluem a cobertura fotográfica da turnê dos Rolling Stones, que passou pelo Brasil entre o fim de fevereiro e o início de março. Igualmente importante foi a produção das fotos oficiais da turnê de Amy Winehouse no Brasil em 2011, mesmo ano de sua morte. 

Hermes também foi consultor da cinebiografia da cantora, Amy, que ganhou o Oscar de melhor documentário em 2016. Pelo trabalho, o nome do fotógrafo aparece nos agradecimentos. 

Além disso, Hermes também acumula experiência em vários outros setores, como o fotojornalismo, a fotografia publicitária, corporativa, e projetos pessoais como o Devotos, com registos de pessoas realizando grande esforço, que deve ser divulgado em 2017.  

Natural da baixada fluminense, no Rio de Janeiro, Hermes escolheu a fotografia pelo desejo de se aproximar dos artistas e da cena pela qual circulava como frequentador e pretenso músico, já que é baterista e também toca outros instrumentos.

Era o fim dos anos 80, época em que a rock nacional já estava bem consolidado, e o heavy metal começava a ganhar mais importância. Eu fotografei alguns dos primeiros shows do Sepultura, lembra.

Ele conta que entrou nesse meio por frequentar a icônica Fluminense FM, e seu batismo já foi de peso. Com a câmera analógica da mãe, Hermes fotografou como correspondente da rádio um dos shows da então primeira turnê do Metallica pelo Brasil, em 1989. A partir de então, não parou mais.

Vertentes

Por algum tempo, Marcos Hermes também conciliou a rotina de fotógrafo de música, geralmente à noite, com a de fotojornalista para alguns dos principais jornais e revistas do país, como a Veja. Segundo ele, porém, a rotina atribulada e violenta do Rio de Janeiro cansou as lentes de um cara que se define como da paz.

A foto para uma capa de CD que lhe rendeu sozinha um mês inteiro de ordenado foi decisiva para que ele passasse a dedicar a maior parte de seu tempo à música. Desde então, ele acumula mais de 650 capas de CD´s, VHS e DVD’s de artistas de várias searas.

Algumas das mais famosas são as capas dos Acústicos MTV de Cássia Eller, Lobão e Paulinho da Viola, além do Acústico Ao Vivo da dupla e Bruno e Marrone, que revelou oficialmente a faixa Dormi na Praça.

Apesar da atitude e da aparência rock, Hermes não tem preconceitos. Ele conta que costuma participar da concepção dos projetos dos quais participa, tendo a expertise para trabalhar com artistas de vários gêneros, desde os roqueiros até os sertanejos, com a mesma desenvoltura. São dele, por exemplo, as fotos de capa dos CDs e DVD’s de Sandy e Junior e Ivete Sangalo, gravados ao vivo no Maracanã.

Sobre outra vertente de seu trabalho, a fotografia de shows, Hermes conta que o segredo é imergir no ambiente, onde conversa e interage com as pessoas e literalmente sente a vibe da apresentação.

Ele conta que conhecer o setlist do show é importante, e que prefere explorar aspectos menos convencionais, como as fotos de espaços do palco pouco iluminados.

Ser músico e entender de música também é uma ferramenta. Como baterista, eu fico ali, contando o tempo, diz o fotógrafo, sobre um hábito que o permite prever o ápice ou momento específico de uma canção que pode render um bom clique.

Em outubro, o fotógrafo esteve em Pato Branco onde conversou com estudantes de publicidade da Faculdade de Pato Branco (Fadep), e também com o Diário do Sudoeste e a Revista Vanilla. A seguir, alguns dos principais trechos do bate-papo.

O início

Eu acho que a fotografia me escolheu. Lembro que uma das minhas primeiras fotos que eu fiz foi da família. A gente ia fazer a foto e eu implorei para tirar, para me darem a câmera. Criança, eu devia ter uns sete oito anos. Eu ainda vou achar essa foto, pois eu tenho essa lembrança. 

Dali até chegar na rádio foi como músico. Comecei a fazer fanzines, vendendo discos, e um amigo me apresentou a um apresentador da rádio. E eu comecei a colaborar com ele levando alguns discos importados que eu tinha. Fiz isso por três ou quatro meses, e nesse tempo rolou o show do Metallica.

Na foto ao topo, Caetano e gil. Registro de reunião histórica


Keith Richards, na turnê mais recente dos Rolling Stones pelo Brasil


Incursão do exército em favela carioca, em 1995


Em Belo Horizonte, público aguarda o show da turnê de reunião dos Novos Baianos


 Amy winehouse, no Brasil em 2011 


Matt Bellamy, do muse, arremessa sua guitarra. Entre os cliques favoritos


De frente com o Metallica

Eu tinha 15 anos, e a rádio Fluminense me credenciou para cobrir o Metallica no Maracanãzinho. Lembro que o palco era super alto, e eu fui com a câmera da minha mãe emprestada, com flash embutido. Dei sorte de começar fotografando uma de minhas bandas favoritas. Isso foi uma das coisas que me seduziram a me interessar por fotografia como arte, como profissão, como caminho.

Fotojornalista

Eu trabalhei e colaborei com muitos veículos. No Rio trabalhei no Jornal de Hoje e no O Dia. Em São Paulo trabalhei na Quatro Rodas, na Veja, colaborei com a Playboy, Marie Claire, Cláudia, Bizz e Rolling Stone, já na área da música. Houve um momento em que desisti do fotojornalismo, por não querer me envolver com algumas coisas. Volto na questão do gostar. Eu passei a não me identificar com a questão social do Rio do Janeiro, muita violência, muita tensão, e eu sou um cara da paz.

As capas e o universo digital

Eu imagino que nos próximos dois anos eu vá fazer algum projeto ligado às capas, porque vai acabar. O formato digital vai prevalecer. Eu participei inclusive, da introdução da fotografia digital nas mídias onde eu trabalhei. Só isso já começou a mudar a relação do fotógrafo com o cliente, principalmente quanto ao tempo e o resultado. Antes ele era impresso, e agora ele está em várias telas, que você precisa se preocupar com a resolução, e outros fatores para que ela seja palatável, bem consumida.

Acho que o que o justifica a impressão de algo em vinil, CD ou DVD, é a qualidade do produto em si. O papel tem que ser melhor, a impressão, um 3D, enfim, atrativos que seduzam o consumidor para a obra. Às vezes ele vai ouvir apenas uma vez, e depois no aplicativo que ele prefere, mas ele tem o CD por conta da arte, da capa.

Os shows

Você precisa mergulhar naquilo, e não ficar com o olho grudado na câmera o tempo inteiro. É observar, escutar, e usar um bom protetor auricular. Eu converso com as pessoas, tento um credenciamento que me dê um acesso melhor. O fato de eu ser músico ajuda. Baterista, eu tô ali contando junto, entendendo a hora que vai acontecer um acorde especial. Também escuto o som, ouço antes de trabalhar. Se eu conhecer o repertório me ajuda muito.
Momentos
Eu gosto de trabalhar com cenas rápidas, quando tem muita dança, muita atitude, onde tem pouca luz. Lembro que o Muse fez um show no Rock in Rio, e o vocalista jogou a guitarra, e eu peguei o momento da guitarra voando. Lembro que essa foto é muito especial. Tem uma foto do Flaming Lips, que ele pegou uns papéis picados na mão e jogou, parece um mágico.

Processo criativo

Raramente a ideia já vem pronta. Eu costumo participar muito das questões conceituais. Quando há mais intermediários, o envolvimento fica mais difícil, por isso que quando o artista está mais próximo eu consigo ter uma gerência maior do resultado. 

Fazer o que gosta

Ninguém nunca me disse que eu poderia ser fotógrafo profissional, ou que pudesse trabalhar com arte aplicada no mercado da música e do entretenimento. Eu evidencio muito isso nas minhas palestras e relações pessoais: Você precisa fazer o que gosta. Às vezes não dá certo, mas depois dá. O resultado disso é você ser uma pessoa melhor, que vai trocar com o mundo de forma muito saudável.

Stones e McCartney

Eu fui escolhido para acompanhar os Stones. A produção brasileira foi só uma ponte. O backing vocal do Mick Jagger é amigo de um amigo meu, não foi por isso que fui escolhido, mas eu encontrei com eles na festa, então rolou essa proximidade por conta de um amigo em comum, Doug Wimbish, baixista do Living Colour, que tocou com os Stones no Bridges to Babylon.

Foi um privilégio enorme poder trabalhar diretamente para eles. Lembro que no segundo show eu pedi para levar uma escadinha de três degraus para ter um ângulo melhor. Lembro que não deixaram, pois o Mick iria me ver, e ele queria ver apenas a massa de pessoas. Então não pude usar escada, é importante respeitar a regra.

Já o Paul McCartney foi o artista internacional que eu mais trabalhei, foram 15 shows no Brasil, de 2010 a 2014, ele chegou a posar para mim, apesar de ter o seu fotógrafo. O Paul é um cara que eu gostaria que voltasse ao Brasil todo ano.

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