quarta-feira, maio 25, 2022

O parto do amor

O parto humanizado, mascimento humanizado, ou parto ativo; processo que busca oferecer o máximo de acolhimento. Uma experiênica afetuosa e segura, onde a prioridade é o respeito da relação de amor entre a mãe e seu bebê

Por Nelson da Luz Junior – Fotos: Angela Zolet Palma/Vogal Foto Amor

Paciência seria um bom adjetivo para definir o trabalho do médico ginecologista e obstetra Igor Chiminacio. É uma qualidade pouco exercida no acelerado mundo da era da informação, onde as rotinas profissionais e até mesmo pessoais, dificilmente não seguem cronogramas.

Igor literalmente não tem horário, pelo menos em parte do que se propõe a exercer enquanto profissional. Seu principal foco de atuação é o tratamento da endometriose, e no auxílio a mulheres com dificuldade em engravidar.

Tais vieses mais do ponto de vista da técnica, pois por virtude, o médico se propõe a atuar em outro campo, o parto humanizado, ou parto ativo. É quando ele pode guardar a agenda na gaveta.

A gestante tem autonomia para decidir cmo será o andamento do parto ativo. Ela tem a sua disposição uma estrutura que a permite comer, tomar banho, dormir ou até mesmo exercitar-se em equipamentos como bola de fisioterapia. Nas imagens o nascimento de Carla

Em linhas gerais, o parto ativo é um procedimento onde a gestante é a única protagonista. O trabalho de parto acontece em um ambiente que a faça se sentir em casa, e ela escolhe o que fazer durante o processo. Comer, caminhar, ver TV, dormir, tomar um banho quente, se movimentar em uma bola de pilates; nada é necessariamente proibido. Enquanto isso, o médico e a equipe técnica auxiliam, aguardando que a natureza faça seu trabalho, interferindo somente quando há necessidade.

Diferente do que se costuma acreditar, o parto ativo não é o contraposto da cesariana, e nem mesmo pode ser considerado sinônimo de parto normal. Nos tempos de faculdade, cursada na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), em Curitiba, Igor conta que teve a oportunidade de conhecer dois tipos de parto normal.

Em um deles, o clássico, a mulher também costuma esperar por horas, em uma sala fria, de azulejos, impessoal, geralmente apenas deitada, até ser encaminhada para a sala de parto. Também não é raro ser submetida a uma lavagem intestinal, além de ter de forçar contrações, isso sem muito acolhimento em um ambiente cirúrgico.  

O outro é o ativo, que começa já nas primeiras consultas do pré-natal, e que não descarta a cesariana em caso de necessidade, mas a inclui em um contexto de humanização.

Pelo parto humanizado de suas pacientes, Igor passa horas em alerta, costuma desmarcar outros compromissos, inclusive pessoais, para estar à disposição nos horários mais diversos, inclusive de madrugada.

Diz fazer isso por vocação, questão de princípios, e também como consequência do encantamento do primeiro parto que acompanhou, ainda enquanto estudante de medicina. De certo modo, foi um bebê que mudou a direção de sua carreira.

Igor Chiminacio nasceu em Londrina, viveu parte da infância em Maringá, e em 1996, adolescente, foi de mudança com a família para a Curitiba, que acompanhava o filho mais velho recém aprovado no curso de Medicina da UFPR.

Apesar de se interessar por Arquitetura Igor decidiu ser médico, por admiração tanto ao irmão quanto ao tio, Osvaldo, uma de suas referências enquanto postura de profissional de medicina.

Filhos de um economista e de uma professora, Igor e o irmão tiveram uma educação de qualidade suficiente para passar no primeiro vestibular a que se submeteram.

Desde os primeiros anos de curso pensava em se tornar ortopedista, muito provavelmente na área esportiva. Ele chegou a estagiar nas categorias de base do Atlético-PR, tendo acompanhado a equipe em algumas competições e peneiras.

Mas bastou auxiliar um parto para mudar de ideia. Sem saber explicar os motivos, Igor foi tocado pelo nascimento. Era 2001, durante seu internato, espécie de estágio, no Hospital Nossa Senhora de Fátima, em Curitiba, quando uma mãe adolescente deu à luz a um bebê que ele não recorda o sexo. “Eu até tenho guardado o cartãozinho com os dados da paciente, data, horário, que costuma ser desprezado, e eu guardei”, lembra.

Graduado, Igor atuou em Curitiba antes de se transferir para Pato Branco há cerca de nove anos por razões pessoais. Atua como diretor técnico do hospital São Lucas, e atende em seu consultório, no Centro Médico Dr. Sílvio Vidal.   

Processo

O chamado parto ativo envolve um contexto de fatores muito amplo, que segundo Igor, um exercício de humildade do médico, que precisa entender o seu papel como parte do processo, e não como protagonista. Nesta posição deve estar a mulher.

E tudo começa muito antes das primeiras contrações. Igor explica que a hipótese do parto ativo é apresentada e discutida com a gestante desde o pré-natal. Cabe ao médico apresentar todas as possibilidades, verificar riscos e manter uma relação de diálogo durante toda a gravidez, para que a mulher tenha condições de decidir o passo a passo do nascimento do filho, estando de acordo com todos os procedimentos apresentados.

Igor esclarece que este tipo de parto está muito longe de ser apenas um modismo. Os benefícios, tanto para a mãe quanto para o bebê, são comprovados por diversos estudos científicos. “A Organização Mundial da Saúde, inclusive, demonstrou através de estudos que o acolhimento torna o procedimento muito mais seguro”, cita.

A partir do início do trabalho de parto, que acontece espontaneamente, a mãe é acolhida na maternidade. Igor atende pelo Hospital São Lucas, que possui o selo Amigo da Criança, concedido pela Unicef as instituições referência na atenção de saúde ao público infantil.

Na sequência de imagens, o pai corta o cordão umbilical da criança recém-nascida

Pensado para ser acolhedor, o quarto possui dois ambientes, com cama hospitalar, sofás, televisão, banheiro, sacada, além de bolas de fisioterapia para exercícios e outros equipamentos que possam ser necessários. “Ela é recebida sempre de forma muito espontânea, com o mínimo de procedimentos. Nós deixamos acontecer tudo de forma natural, sem aplicação de soro, sem forçar o rompimento da bolsa”, acrescenta.

Jamais é feita depilação e lavagem intestinal, é possível comer durante o processo, e a gestante pode usar as próprias roupas, para citar apenas alguns pontos que se contrapõe ao parto clássico.

Com a gestante está uma profissional chave para o andamento do processo: a doula. Ela entra em ação antes mesmo do trabalho de parto, atuando de forma concomitante ao médico, oferecendo informações e orientação. No parto propriamente dito, a doula oferece suporte, acalma a paciente, realiza massagens, e outras atividades complementares (mais detalhes no box).

Além da doula, a equipe é formada por técnicas em enfermagem, que no caso do São Lucas, trabalham no setor de obstetrícia há mais de 20 anos, e foram treinadas para as técnicas e o ambiente de humanização.

Ao médico, cabe garantir a segurança do processo, monitorando os batimentos cardíacos do bebê, realizando exames como o toque, e realizar o parto propriamente dito. O processo também conta com o acompanhamento do marido, ou de um acompanhante.

Igor já acompanhou um parto de 18 horas, mas a média fica entre 6 e 12 horas de duração. O nascimento acontece na posição que a mulher preferir, e até as luzes da sala são controladas para não estressar o recém-nascido.

A experiência parece ser excepcional. Para a fisioterapeuta Carla Bortolini, é importante que as mulheres saibam que existe essa opção. Ela tem dois filhos, Bento, de três anos, nascido por cesárea, e Clara, de 41 dias até o fechamento desta edição, nascida de parto humanizado. Ela conta ter ficado fascinada ao descobrir um processo cujo modelo de assistência respeita a fisiologia do nascimento, onde a mulher e o bebê são tratados com cuidado e responsabilidade.    

Carla conta que escolheu o parto humanizado por ser a forma mais benéfica e segura de nascimento. A fisioterapeuta, paciente de Igor, conta que recebeu muita atenção desde o pré-natal, o que foi fundamental para que se sentisse segura.  “Foi uma experiência maravilhosa! Fui respeitada durante todo o tempo, não sofri intervenções, me alimentei e me hidratei, tive liberdade para me movimentar, usar a bola e ficar no chuveiro quente. Minha doula, minha enfermeira obstetra e meu marido me ajudavam a lidar com a dor, me acolhiam e me incentivavam.  Minha filha nasceu no tempo dela, veio direto para meus braços, fez a transição de forma suave e acolhida, mamou e só foi para a sala da pediatra após a hora de ouro, no colo do pai. Depois recebeu a vacina e a vitamina K no meu colo, mamando, o que alivia a dor. Me senti realizada por ter proporcionado para minha filha um nascimento respeitoso”, descreve.

Igor Chiminacio, a esposa, também médica, Carolina Obrzut, com quem trabalha de forma articulada, os filhos Alice e Bruno e as mascote Jujuba

O papel da cesariana

O Brasil é o país onde mais se realizam cesarianas no mundo. Mais de 40% dos nascimentos no país são realizados pelo método, quando o índice recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), é de 15%. Isso acontece por vários fatores, que vão desde a comodidade, até a crença de que a cesariana é mais segura, ou que previne complicações. 

Apesar disso, Igor afirma que a cesariana não deve ser encarada como uma vilã. Na opinião do médico, o procedimento é uma cirurgia muito importante que salva muitas vidas. “Não se trata de uma briga entre a cesariana e o parto normal. As pacientes podem desejar isso, não há nada de errado. Mas eu preciso oferecer a chance de ela ter um parto natural. Não se deve ter essa visão polarizada”, destaca.

Por fatores como a identificação de riscos à mãe, ou ao bebê, a cesariana pode ser cogitada, mesmo em um parto natural ativo.

A doula

Um termo que descreve bem o trabalho de uma doula é “cuidadora”. A função exige familiaridade com o processo, além de sensibilidade. “O papel da doula inicia antes mesmo do parto, ajudando a família a buscar informação, para que ela possa escolher como deseja receber seu filho e se preparar para o parto”, explica a fisioterapeuta e doula Denize Rodrigues Penteado.

Denize tem duas filhas, e ambas nasceram por meio do parto humanizado. No caso da primogênita, que hoje tem três anos de idade, houve a necessidade de uma cesariana. A segunda, de dois meses, nasceu de parto natural.

A escolha do parto humanizado veio por meio de pesquisas sobre humanização, conversas com amigas, e após assistir ao documentário “O Renascimento do Parto”, sobre a realidade obstétrica no Brasil, que confirmou seu desejo pelo processo ativo. “Escolhi o parto humanizado, primeiramente por ser natural, mais seguro e respeitar a fisiologia da mãe e do bebê, segundo porque queria proporcionar uma recepção amorosa e respeitosa ao bebê”, explica.

Já a vontade de atuar como doula surgiu quando uma de suas amigas engravidou, e também por não ter encontrado uma profissional em Pato Branco para sua própria gestação. Denize fez o curso com o objetivo de acompanhar a amiga e também auxiliar outras mães. Hoje se divide entre a atividade de doula e a posturologia.    

No trabalho de parte a doula oferece suporte. “Ela irá ajudar a preparar o ambiente para que a mulher se sinta à vontade e segura, dará apoio físico e emocional e encorajamento tanto para a gestante, quanto para o marido/acompanhante. Ajudará com técnicas não farmacológicas para alivio da dor, como orientação de posições e movimentos, massagens, uso de óleos essenciais, técnicas com o rebozo, uso de água quente, seja no chuveiro ou com bolsa térmica”, descreve.

A doula já é testemunha de vários nascimentos, inclusive da filha de Carla Bortolini, também ouvida pela reportagem, sua amiga e uma das pessoas que a incentivou a exercer a função. “Não há como não se emocionar ao ver uma família nascer junto com o nascimento do bebê. Como não há um roteiro previsível, cada um fica marcado com suas peculiaridades. É muito gratificante poder acompanhar e ajudar num momento tão especial”.

Sobre o parto humanizado

– Melhora do aleitamento materno, recuperação mais rápida pós-parto.

– Número menor de hemorragias e complicações pós-parto para a mãe, e diminui os riscos de problemas respiratórios para o bebê.

– O bebê fica o maior tempo possível no colo da mãe após o nascimento.

– O processo não é indolor ou fácil. Porém, a dor é encarada como parte do processo pelas gestantes. Durante o parto o organismo libera substâncias, que causam uma sensação de êxtase no nascimento do bebê, que faz que a dor não seja traumatizante.   

– Não é realizada a episiotomia de rotina, corte intencional no períneo da mulher

– Utilização de equipamentos de massagens e bolas de fisioterapia

– A cesariana não é descartada durante o parto humanizado, mas feita de forma respeitosa e segura, caso necessária.

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