quinta-feira, maio 26, 2022

É guerra?

Matéria publicada originalmente na revista Vanilla em abril de 2017

Fotos: Helmuth Kühl

O som das rajadas cortava o silêncio do matagal, que somado ao barulho da movimentação denunciava o contexto: um tiroteio estava acontecendo na região da chácara Dal Ross, na região leste de Pato Branco. Pouco depois, homens com roupas camufladas e armamento pesado começavam a aparecer no estacionamento da entrada da chácara. Estavam fora de combate, haviam morrido.

Melhor, estavam fora do jogo. Antes que você acredite que algo mais sério estava acontecendo é bom esclarecer que tudo não passava de uma competição. Os parágrafos anteriores descreveram uma partida de Airsoft, um esporte onde os atletas simulam situações de combate com réplicas de armamento e munição não letal.

Seu paralelo mais popular é o paintball, mas as principais diferenças estão nas armas e na munição. Ao invés de marcadores de tinta, os praticantes do Airsoft municiam seu armamento com micro bolinhas de plástico, as BBS.

Sem marcas de tinta para indicar um impacto, como no paintball, os jogadores confiam na boa fé uns dos outros para saber quem foi ou não atingido. De acordo com a regra, um jogador alvejado deve se acusar erguendo uma das mãos, ou colocando um pano vermelho na cabeça, e se retirar do campo de batalha.

Jogador anuncia que está fora de combate

As partidas acompanhadas por Vanilla eram testes de campo para um futuro evento da modalidade. Ao todo, participaram cerca de 20 atletas do GOES – Grupo de Operações Especiais na Selva (Airsoft Pato Branco), e do GTO – Grupo Tático Operacional, de São Lourenço do Oeste.

Na ocasião, a dinâmica do jogo, realizado em um bosque, foi a seguinte: O grupo foi divido em duas equipes. Vencia o time que eliminasse a equipe adversária. De acordo com Maycon Colombo, do GOES, por se tratar de um teste, o enredo foi simples, mas o Airsoft costuma ter tramas bem mais elaboradas.

História

O Airsoft foi criado no Japão, na década de 70, por entusiastas do tiro vivendo em um país onde o porte de armas por civis é proibido. Segundo o site QG Airsoft (qgairsoft.com.br), a prática começou como simples tiro ao alvo, mas com o tempo as armas passaram a ser usadas em simulações de combate, pois a munição não causa ferimentos graves – apesar de um pouco dolorosos, como pude sentir na pele.

As disputas acontecem em diferentes formatos, como captura de bandeira, defesa de território, resgate de reféns e várias outras situações que simulam a atuação de forças militares, sejam do exército sejam da polícia.

Há também a simulação de missões que realmente aconteceram. Recentemente, em Francisco Beltrão, foi realizado um evento que reproduziu a Operação Mogadíscio, também conhecida como Black Hawk Down, uma missão de resgate da tripulação de um helicóptero abatido, realizada em 1993 na capital da Somália. A história é contada no filme Falcão Negro em Perigo. Um helicóptero real chegou a ser utilizado no evento.

Rodolfo Vieira, mais conhecido como Ed, do GOES, explica que o Airsoft possui uma ramificação chamada real action. Se o jogador é atingido é preciso chamar o médico, que fará o atendimento. Em alguns eventos, o cara é alvejado, levado a um local que seria o hospital, onde precisa passar por uma transfusão de sangue simulada para poder voltar

Usar a criatividade também vale. Ed conta que o grupo já criou uma operação com países, líderes e um enredo fictício, material geralmente disponibilizado antes da partida para a ambientação dos jogadores.     

O GOES, de Pato Branco, e o GTO, de São Lourenço do Oeste

No Brasil a modalidade começou a ganhar terreno em meados de 2007, por meio dos usuários de um fórum na internet, o Airsoft Brasil. A partir de então, passaram a surgir equipes grandes em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Curitiba, onde aconteceu a Operação Fênix, evento considerado um marco da modalidade no país. Eram tempos mais difíceis para a prática por conta dos equipamentos menos acessíveis, conta Ed, que já praticava o Airsoft na época.

O perfil dos jogadores é variado. Na partida acompanhada por Vanilla, havia empresários, estudantes e policiais. Todos homens, porém, o esporte também é praticado por mulheres. A praticante Carol Grillo, de São Paulo, mantém um canal no Youtube a respeito do Airsoft, com vídeos sobre manutenção de equipamentos, resenhas, gameplays, e também sobre a participação feminina na modalidade.

De modo geral, a adrenalina da simulação é o que atrai os jogadores. O empresário Robson Gaeski pratica Airsoft há cerca de cinco meses. Ele diz ter conhecido o esporte por vídeos na internet, e o que lhe chama a atenção é a emoção das partidas, assim como o realismo das réplicas de armas, das missões e do combate.

O empresário Paulo Dutra acompanha o filho adolescente nos jogos, apenas como espectador. Ele acredita que o esporte estimula a socialização em uma convivência ao ar livre, funcionando como uma válvula de escape para o estresse e a exposição cotidiana a aparelhos eletrônicos, como smartphones.

Contato, nove horas
Além da brincadeira, o Airsoft também pode servir como forma de treinamento para situações reais. Ed e Maycon já participaram de cursos de instrução com o capitão do Bope do Paraná, voltados para o Airsoft, mas com técnicas aplicadas em situações reais.

A comunicação em campo, inclusive, costuma ser feita por meio de códigos militares. Ed explica que é uma orientação via ponteiros do relógio. Por exemplo, um alvo à esquerda está a nove horas; à direita, três horas. Quando você vê um inimigo você fala `contato´, nove horas, e o grupo já sabe mais ou menos onde ele está. Também há a comunicação com gestos, para evitar a identificação pelo inimigo.

Equipamento
Pelo seu princípio de simulação, os praticantes de Airsoft procuram se vestir a caráter. Uniformes camuflados, insígnias da equipe, de identificação pessoal, máscaras estilizadas, capacetes e bandanas são peças comuns na indumentária do jogo. Indispensável, porém, são os óculos de proteção. O jogador até pode entrar em campo de bermuda e camiseta se quiser, mas sem óculos não.

A média distância, diretamente na pele, um tiro de BB causa um ferimento superficial, seguido por uma ardência prolongada. Nada grave. No olho, porém, a força do impacto pode levar à perda da visão. De modo geral, óculos de proteção disponíveis em lojas de EPI´s, são suficientes, mas costumam embaçar por conta da transpiração. Por isso, há quem prefira óculos com tela de metal.

A arma 
Uma arma de Airsoft passa facilmente por um armamento real. São réplicas que imitam em detalhes desde pistolas até fuzis de assalto e de longa distância.

Segundo Ed, para adquirir um equipamento legalizado é preciso ter 18 anos de idade, e comprar em um estabelecimento que emita nota fiscal. Obrigatoriamente, a arma precisa ter ponta laranja, marca que a identifica como um equipamento para a prática de Airsoft.

Também há regras específicas para o transporte. Não é permitido praticar a modalidade em via pública, onde há risco de atingir outras pessoas, e também não é permitido deixar a arma exposta, como por exemplo, andar com uma pistola de Airsoft na cintura. No carro, o equipamento deve ser transportado sem munição, em recipiente adequado, e em local que não seja de fácil acesso, como o porta malas. O proprietário também precisa portar a nota fiscal. 

Isso vale para as armas cujo sistema de disparo é elétrico, as mais comuns, chamadas de AEGs (sigla para Automatic Eletric Gun). As de disparo a gás exigem um certificado de registro junto às forças armadas.

Preços
O Airsoft é um esporte que exige um certo investimento inicial, mas o baixo custo de manutenção, como se costuma dizer, faz com que o esporte possa ser considerado relativamente barato. 

O equipamento mais caro é a arma, que pode ser comprada em lojas especializadas ou mesmo pela internet. Há réplicas muito parecidas com diversos tipos de armamento, desde pistolas a rifles e espingardas. Na internet, o preço médio de um rifle é R$ 1.600. É possível encontrar modelos mais baratos, e muito mais caros. 

Já um pacote de munição custa a partir de R$ 40,00 e vai, em média, até R$ 90,00, dependendo do tipo e da quantidade de BBS. Os pacotes possuem pelo menos 2000 mil bolinhas. Para quem pretende ir a fundo, também há vários tipos de acessórios, como patchs, coletes, bandoleiras, coltres, entre outros. 

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