quarta-feira, maio 25, 2022

Selando histórias

Fotos: Helmuth Kühl
Matéria publicada originalmente na revista Vanilla em fevereiro de 2017

Quando pequena, lembro que sempre via minha irmã mais velha manuseando algumas pastas com papéis de carta. Não entendia muito bem o porquê disso, mas o cheirinho dos papéis me encantava. Sem contar os desenhos que neles tinham, com os mais diferentes significados. 

Assim como os papéis de carta, os selos estão ficando cada vez mais raros. Isso porque, não se escrevem mais tantas correspondências como antigamente. Tudo isso, devido à vida moderna.

Com o surgimento dos e-mails e das mensagens de texto (inclusive, estou escrevendo o início desta matéria em meu celular, enviando uma mensagem de texto para mim mesma, às 23h05 de uma terça-feira, para não fugirem as ideias), o escrever no papel se tornou uma raridade.

Num passado não tão distante, há aproximadamente 15 anos, também lembro que trocava cartas com meus amigos e amigas. Era aquela expectativa em receber respostas após dias ou até semanas.

Felizmente, há quem tenha o hobby de colecionar, sobretudo selos, que são o protagonista desta matéria. Um deles é o pato-branquense Maurício André Vendruscolo. O assistente administrativo tem 42 anos e desde os nove resolveu ingressar na filatelia termo que, segundo o dicionário, define o hábito e o gosto de colecionar selos do correio.

Meu irmão era seminarista em Agudos (SP) e, em uma de suas viagens de férias a Pato Branco, trouxe sua coleção de selos. Gostei bastante e resolvi começar também. Isso até os meus 20 anos, quando parei por um período. Em 2013, resolvi voltar a coleção e agora não pretendo parar tão cedo, resumiu.

Parte da coleção de Maurício Vendruscolo 

O pato-branquense não se recorda ao certo qual é o primeiro selo de sua coleção. Contudo, uma coisa não se apaga em sua memória: as várias correspondências que escrevia e recebia. É triste dizer antigamente, mas naquele tempo era comum trocar cartas. Como meu irmão morava em Agudos e tinha também outros parentes que moravam longe, em Mato Grosso, trocávamos muitas correspondências.

Com isso, segundo Vendruscolo, foram surgindo as primeiras unidades de sua coleção, que conta hoje com cerca de 13.500 selos. Ele retirava os selos que vinham nos envelopes, bem como ia ao Correio a cada 15 dias, para ver se havia algum selo novo para comprar. Também trocava com alguns amigos, que tinham o mesmo hobby.

De Pato Branco, para o mundo
A coleção de Vendruscolo não se limitou apenas a Pato Branco. Aos 13 anos, ele passou a trocar selos com pessoas de outras cidades brasileiras, como São Paulo (SP) e Campo Bom (RS). 

Ao contrário dos dias atuais, em que a internet é uma aliada para a continuidade da filatelia, o jovem utilizou de métodos hoje nada convencionais. Um deles foi por meio de seus gibis do Tio Patinhas e do Pato Donald.

Em alguns desses gibis existia uma coluna para pedidos de correspondências. Certo dia escrevi para a editora, que gostaria de me corresponder com pessoas do Brasil inteiro para trocar selos. A partir daí foram surgindo as trocas, recordou.

Com o passar dos anos, o colecionador também se utilizou da revista Cofi (Correio Filatélico) — publicação entre 1977 e 2014, emitida pelos Correios e específica para filatelistas —, a qual também contava com uma coluna destinada a pedidos de correspondências para trocas de selos.

Além das trocas, por meio de cartas, também comprava alguns selos. Inclusive em algumas papelarias, livrarias e rodoviária, em Curitiba, que vendiam séries completas ou pacotes com 100 selos. Isso no final da década de 80. Mais tarde, passei a comprar também das Filatélicas de Brasília e da Olho de Boi, em Curitiba.

Outras origens de seus selos foram além do território brasileiro. Vendruscolo conta que, em 1988, um amigo lhe falou que escreveu para uma revista de Moçambique, pedindo correspondências e sugeriu para que fizesse o mesmo. 

No ano seguinte recebi algumas dezenas de cartas. Porém, antes disso, me perguntei: ‘Que língua falam lá?’. Na época não se existia Google para perguntar. Então fui pesquisando e descobri que lá também falam o português, relembra o colecionador, acrescentando que também trocou selos com filatelistas de Angola, da então Alemanha Oriental, da União Soviética, de Cuba, da África do Sul, entre outros países.

O colecionador Mauricio Vendruscolo, com selos de Getúlio Vargas

Antiguidade
O primeiro selo do mundo, conforme o site dos Correios, é conhecido como Penny Black, o qual foi emitido na Inglaterra, no dia 6 de maio de 1840. Já o Brasil, por sua vez, lançou seu primeiro selo três anos depois, em 1843, com a notória série Olho-de-boi, sendo o segundo país do mundo a emitir selos.

Na coleção de Vendrusculo, os mais antigos são os três selos da série Olhos-de-cabra, emitidos no Brasil, no ano de 1850, nos quais pagou R$ 10, R$ 30 e R$ 90. Contudo, o que considera como o mais importante de sua coleção até o momento é um bloco de 1988, adquirido na agência dos Correios de Pato Branco.

O bloco, emitido neste mesmo ano, é alusivo ao Dia do Selo Postal Brasileiro, comemorado no dia 1º de agosto. É uma pintura em tela, em que costureiras estão fazendo uma enorme bandeira do Brasil e há algumas crianças brincando com esta bandeira. Considero um dos selos mais belos que tenho em minha coleção, descreveu.

Selo em comemoração ao Dia do Selo Postal Brasileiro

Para o colecionador, este é um hábito bastante saudável. Sem contar que é um meio de desenvolver ainda mais a comunicação e o conhecimento. Posso dizer que, por meio da filatelia, adquiri muito conhecimento em geografia, história e política também, destaca Vendruscolo, acrescentando que não tem preferência pela época em que iniciou a coleção ou agora. Era muito bom enviar cartas naquela época, porém também gosto da realidade de hoje, da velocidade de informação. 

Quando retomou a coleção, em 2013, uma das ferramentas que passou a utilizar foi o Facebook, através de grupos específicos para trocas de selos. Entrei, por exemplo, em um grupo de Filatelia da Espanha e prestei atenção em como eles faziam. Lá tiram fotos dos selos, fazem álbuns e postam no grupo. Quem tem interesse, seleciona. Assim, resolvi fazer igual, tanto que surgiram interessados de Minas Gerais e até da Itália, disse o colecionador, que nestes últimos quatro anos fez mais de 90 trocas.

Origens
Com toda essa trajetória, Vendruscolo possui 13.500 não repetidos, além de muitos outros ? que não sabe precisar a quantidade, utilizados para troca. Destes não repetidos, 2.700 são apenas do Brasil. Já o restante é oriundo de mais de 100 países. 

Diria que coleção mesmo é a do Brasil, que pretendo completar dentro do período de 1900 a 2000. Já os demais, como os filatelistas mais avançados chamam, é uma acumulação, porque existe no mundo uma quantidade exorbitante de selos. Por isso a necessidade de se delimitar a coleção, disse o assistente administrativo, que armazena seus selos em classificadores, álbum específico para filatelia.

Vendruscolo também dá outras dicas para quem deseja começar na filatelia. Além dos grupos do Facebook, hoje em dia é possível adquirir em sites de filatélicas, bem como nos próprios Correios, que vendem selos novos. Caso você receba uma correspondência, retire-os do papel, exceto os autocolantes, que o indicado é que sejam recortados. Também recomendo que sejam delimitadas as coleções. Se será do Brasil, de flores, ou de carros, enfim, definir, antes mesmo de se iniciar, facilitando o seu andamento.

Selos e etc…
Natural de Pato Branco, Olaumir Pedro Guérios, mais conhecido como Tio Tuca, tem 72 anos e é eletricista aposentado pela Copel. Quando tinha apenas 12 anos, ele começou a sua primeira coleção: de almanaques. O adolescente se interessou pelas publicações, que sua mãe tinha e foi guardando.

Adorava esses almanaques, porque era um meio das pessoas se orientarem. Neles tinham as fases da lua, os dias santos, feriados, época do plantio, entre outras informações sobre medicamentos. A partir dessa coleção, fui me interessando por outras também. Digo coleções, porque, por menor que seja, para mim é uma coleção, relembrou Tio Tuca, informando que ao todo tem cerca de 40 almanaques.

Além disso, o aposentado tem coleções de moedas, compostas por 60 unidades. A mais antiga é de 1000 réis, do ano de 1860. Essa moeda meu pai quem me deu. Éramos em três irmãos mais velhos e ele tinha seis moedas, sendo que deu duas para cada um de nós. A partir daí fui conseguindo mais, ganhei de meu padrinho e hoje tenho essas dezenas.

Outra coleção que Tio Tuca tem é de caixas de fósforo. A primeira das 70 que possui é do ano de 1963, quando serviu o Exército. Ganhei a primeira caixinha quando saí de campanha (treinamento), para o acaso de precisar acender o fogo. Era um dos itens que o soldado precisava ter em sua mochila. A caixinha era condicionada em um plástico, para que, se caíssemos na água, não molhasse. Guardei com carinho e tenho até hoje.

A coleção diversa de Tio Tuca

As demais caixas, segundo o aposentado, ele conseguiu em viagens. Em um ano que fiquei no quartel, em Francisco Beltrão, viajávamos bastante. Com isso, passávamos por hotéis e restaurantes, os quais geralmente davam brindes; e um deles era caixa de fósforos. Assim, surgiu mais esta coleção, recordou Tio Tuca, acrescentando que também possui cerca de 400 cartões telefônicos e 200 calendários de bolso, coleções que também se iniciaram na mesma época.

Outro item que Tio Tuca coleciona é o selo. Esse item ele começou a colecionar quando tinha 16 anos, e também foi por influência de sua mãe. Ela sempre recebia muitas cartas, então guardava os selos. Além disso, enviava correspondências para uma instituição de São Paulo, para a qual pedia selos. E, como vinha na carta cerca de cinco unidades, eu pegava dois e guardava.

O aposentado informou que possui entre 350 a 400 selos, destes, 70 são internacionais, oriundos da Itália, do Japão, do México, dos Estados Unidos, da Dinamarca e do Canadá, que foram adquiridos por meio de troca entre amigos. Mas têm também muitos selos que comprei.

Vinis
De todas as suas coleções, a única que Tio Tuca permanece hoje em dia é a de vinis. Ele começou a colecionar na década de 60, sendo que a primeira unidade é um compacto simples, do acordeonista Nardeli e seu conjunto.

Ao todo, tenho 455 discos, entre os LPs (Long Plays), que são os discos grandes; e os compactos (discos pequenos). Os mais recentes que tenho são entre os anos 1989 e 1990, quando pararam de ser fabricados.

Quanto aos gêneros musicais, o aposentado disse que possui discos dos mais variados. Desde o rock metaleiro e dançante, até o boêmio e o sertanejo antigo. Também tenho as baladas e os orquestrados, bem como os grandes clássicos do cinema.

Uma das vitrolas do acervo de Tio Tuca

De todos os discos, o colecionador informou que o carinho maior é pelos LPs do Roberto Carlos, seu ídolo. Praticamente todos os dias paro para escutar os discos em minha garagem. Lá tenho dois aparelhos de som. Um maior e um portátil, sendo que o segundo adquiri quando trabalhava na usina na ponte do rio Chopim, em 1968. Era uma ‘coqueluche’.

Ele disse que esta é a única coleção que continua atualmente, devido à facilidade. Hoje em dia consigo os vinis pela internet, assim como no Sebo, em Curitiba, na Praça da Catedral. Sem contar vários amigos, que se lembram que coleciono e me dão de presente. 

Para ele, que tem três filhos, além de ser um hobby saudável, colecionar algo é uma forma de ter raridades, uma vez que poucas pessoas guardam certas coisas. O bacana, no caso dos vinis, é que é algo que inclusive uso. Se quero recordar uma música, basta pegar o vinil, justifica o aposentado, que pretende incentivar os filhos ao mesmo hábito.

Tio Tuca, entusiasta dos discos de vinil

Realidade dos selos
O desenvolvimento tecnológico e o crescimento do acesso à internet — seja por meio do computador, do smartphone ou do tablet — têm acelerado o processo de substituição das mídias impressas (cartas, jornais e malas diretas) pelas mídias digitais (e-mail, sms, whatsapp e redes sociais).

Segundo informações da assessoria dos Correios, esta é uma tendência mundial, que afeta diretamente os negócios de correios em todo o mundo. No caso do Brasil, houve redução de 9,55% no volume de correspondências postadas, somente de 2015 para 2016, apontou.

De todos os estados brasileiros, São Paulo é o que mais envia correspondências (carta, FAC, remessas econômicas, expressa e local) hoje em dia, com 61,42%. Já o que menos envia, conforme os Correios, é Roraima, representando somente 0,01%, ou seja, cerca de 334.236 cartas.

O Paraná, por sua vez, é o quinto estado que mais envia correspondências no país, ficando atrás somente de São Paulo, Distrito Federal, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Contudo, se comparados os anos de 2015 e 2016, os paranaenses reduziram em 6,72% o envio de correspondências, sendo que em 2016 foram 119.006.962.

Apesar da redução nas correspondências, a assessoria dos Correios informou que a procura por selos nas agências filatélicas dos Correios ainda é grande. 

Embora colecionar selos possa não ser tão visível como antes, o que isso reflete é mais a fragmentação da cultura geral e a proliferação de outros interesses de nicho. De fato, o colecionismo de selos encontrou novos públicos. Graças aos mercados emergentes no exterior e aos interesses apaixonados de filatelistas, pode-se argumentar que as tendências de colecionismo de selos estão mais vivas agora do que nunca.

Para manter a filatelia viva, os entusiastas acham importante derrubar dois grandes mitos, segundo informou os Correios: O primeiro é o de que é um hobby caro. Não necessariamente, já que os correios ainda emitem e vendem selos dignos de coleção a preços módicos. O segundo é o de que a filatelia é hábito da terceira idade. A presença de disputadas categorias juvenis em feiras internacionais é prova de que ainda encontra eco entre adolescentes. O desafio é cativar as novas gerações acostumadas com o computador, a televisão e o videogame.

Artigo anteriorÉ guerra?
Próximo artigoProjeto de vida

Ultimas Notícias