quinta-feira, maio 26, 2022

A semeadora

Matéria publicada originalmente na edição de Vanilla fevereiro/março de 2017 (Fotos: Helmuth Kühl)

Subir a escadaria que leva até o escritório de Dulce Ampessan é revisitar um pouco a história de Pato Branco. Estreitos, de revestimento avermelhado, os degraus denunciam a idade do prédio, construído muito provavelmente há várias décadas.

Do escritório com amplas janelas, se tem uma visão quase completa da área de vendas da Papelaria e Encadernadora Apolo e de parte da rua Pedro Ramires de Mello, no centro da cidade.

Dulce Ampessan

Ela e o marido, Itamar Ampessan, viram muita coisa mudar a partir daquela janela e da porta de sua empresa. Aberta há 46 anos, a papelaria é um dos empreendimentos locais mais antigos, e não apenas no seu segmento.

Prestes a completar 70 anos de idade, a maioria deles vividos em Pato Branco, Dulce também foi testemunha das transformações sociais da cidade, e de certo modo, foi personagem delas. É difícil mensurar ao certo se ela é mais conhecida como proprietária da Apolo ou como catequista.

Gerações inteiras, algumas pertencentes à mesma família, foram catequizadas por Dulce Ampessan, que exerce essa função desde 1971. Em um exercício rápido de memória, ela lembra de vários sobrenomes tradicionais que já receberam suas lições ao longo dos anos.

Quando trata do assunto, Dulce fala com entusiasmo, como se visse um grande propósito em catequizar, uma espécie de missão. E ela diz acreditar que seja isso mesmo.

Dulce Regina Ampessan nasceu em Chapecó, Santa Catarina, em 24 de fevereiro de 1947. Seus pais vieram a Pato Branco 11 anos depois, porém, sem a filha, que nestes tempos estudava em Curitiba.

Ela costumava visitar a família no Sudoeste nos meses de férias escolares. Nessas idas e vindas, conheceu Itamar, com quem namorou e depois se casou, cerca de um mês após ter concluído o então chamado ginásio, e mudado de vez para Pato Branco. Estão juntos até hoje.

O matrimônio, no entanto, gerou um novo ciclo de mudanças. Itamar era bancário, no extinto banco Bamerindus, e estava na função de gerente na agência de Dois Vizinhos. O casal também chegou a morar em União da Vitória, mas por intermédio de parentes, retornaram definitivamente para Pato Branco.

Dulce conta que já tinha dois filhos e esperava a chegada do terceiro quando surgiu uma transferência para Campo Grande, hoje capital do Mato Grosso do Sul. Isso aconteceu na época em que a região centro oeste do Brasil era vista com muita desconfiança.

Seu sogro sugeriu que por aqui ficassem, além de ceder um terreno para a construção de um negócio próprio. Essa foi a semente da papelaria Apolo, que funciona no mesmo endereço desde sua fundação. Segundo Dulce, o casal entrou neste ramo por influência de seu cunhado, que trabalhava com encadernações.

Sala de aula
Dulce foi dona de casa, e antes de começar a trabalhar na papelaria foi professora, função que exerceu nos anos em que cursou Economia Doméstica, na Unioeste de Francisco Beltrão, tendo feito parte da segunda turma do curso, concluída em 1980.

Sacramentos, orações e mandamentos na sala de catequese

Lecionou técnicas industriais, no Colégio Castro Alves, e história da arte no Premem. Ela conta que o curso de técnicas industriais exigia dos alunos alguns materiais específicos, para o que ela considerava como um aprendizado ideal. Muitos alunos não tinham condições de adquiri-los, e por isso ela mesma comprava alguns itens para a turma com o dinheiro de seu salário. O Itamar brincava que como eu gastava todo o meu salário, estava dando despesa (Risos).

Foi professora por quatro anos, até que os filhos estavam mais crescidos e sua presença se tornou necessária no negócio da família. Apesar disso, de certo modo, Dulce não abandonaria as salas de aula.

Catequista
Dulce obteve boa parte de sua educação formal em colégios religiosos. Brinca ela, que é comum sair de instituições assim pensando que já rezou o suficiente, mas na prática não foi bem assim. Como batizada, eu tenho uma função. Me comprometi então a fazer algo, lembra.

Ela diz ter renovado seu compromisso como cristã depois de passar pela formação do cursilho, uma espécie de curso que prepara os fiéis para atuar na comunidade, fora das autarquias da igreja, como em projetos de voluntariado.

Logo que retornou do cursilho, Dulce foi convidada a catequizar pelas irmãs do Colégio Nossa Senhora da Graças. Aceitou, pois acreditou que essa era sua missão; foi se apegando aos poucos, se apaixonando pela função, e nunca mais parou. Em quase cinco décadas, foram várias turmas, e incontáveis catequizandos.

Dulce com mais uma turma de catequizandos (Foto: Arquivo Pessoal)

Nos primeiros anos, as catequistas eram as freiras, Dulce e mais duas senhoras. A formação se resumia as instruções das religiosas, a encontros mensais com a equipe, e o roteiro da catequese se dava por um manual.

Não chegava a ser um improviso, mas o método estava longe da sistemática atual. Atualmente, o voluntário que se propõe a catequizar se submete a um curso preparatório. Além disso, há reuniões mensais de formação, e os veteranos também costumam participar de cursos de atualização. O método, o conteúdo e os materiais evoluíram, mas a essência, porém, é a mesma, acredita ela.

Assim como a igreja e a catequese se aprimoram e se modernizam, Dulce diz também não gostar de acomodação. Mesmo com a larga experiência, ela diz que não é possível deixar de lado a preparação. Eu estudo. Meu encontro é na quarta-feira, e no domingo eu já estou me preparando, vou para a internet, pesquiso, estudo. Hoje em dia, as crianças não se contentam facilmente. Elas querem saber de onde vêm as coisas, são mais curiosas, fazem perguntas, que muitas vezes até nos embaraçam. Então é preciso pesquisar.

Um de seus catequizandos costumava fazer pesquisas na internet e aparecer no encontro com uma lista de questionamentos. Ela diz que não se deve enganar uma criança, é preferível reconhecer que não sabe na ocasião, do que dizer algo que não corresponde à realidade.

Rotina
O cronograma semanal começa no sábado à tarde, na missa das crianças, que acontece por volta das 14h30 na Matriz São Pedro Apóstolo. Dulce, costuma frequentar a celebração por acreditar que o exemplo vale mais do que a palavra. Para exigir a presença da criança na igreja, eu preciso primeiro estar lá.

Dulce, Metilde, Moire, Jandira e Maria Helena (In Memorian). Colegas catequistas (Foto: Arquivo pessoal)

No domingo, Dulce costuma estudar a lição e a passagem bíblica que irão guiar o encontro da semana. Ela também costuma usar a internet para buscar mais conteúdo, sobretudo por conta dos novos tempos.

Dulce diz ter notado que as crianças estão aprendendo mais pelo visual, pelas imagens, algo que ela especula ser consequência do bombardeio de telas de smartphones, tablets, computadores e televisores.

Você precisa fazer com que eles aprofundem sua fé também pelo visual. Para isso, Dulce recorre aos cartazes, por exemplo, e outros recursos para tornar seu encontro mais atraente.

Interação
Ela investe nisso para quebrar o estereótipo de catequese chata, maçante, algo que se espalha também para a religião. A própria igreja já se preocupa em preparar os catequistas para as transformações.

Isso geralmente acontece por meio de cursos e encontros de formação em âmbito regional e diocesano feitos para os coordenadores. Preparação repassada para a equipe de catequistas.

Esses ensinamentos são repassados em grupos menores, o que evita a evasão, comum quando as reuniões mensais aconteciam com o grupo todo. Tais encontros acontecem imediatamente após o horário da catequese, o que para Dulce fortalece os laços de colaboração entre as catequistas.

Em 2016, havia 72 catequistas na Matriz São Pedro Apóstolo. Seu grupo costuma chegar mais cedo para trocar figurinhas, tomar chimarrão, confraternizar e trocar experiências, informações e materiais que enriquecem a experiência.

Transformação
Dulce ministra a catequese para o terceiro módulo, etapa de preparação para a primeira eucaristia. As crianças, que começam os estudos no ano em que completam oito anos de idade, estão com 10 ou 11 anos nesta etapa, a adolescência, portanto, está chegando.

É um período de transformações para os alunos, que estão aos cuidados de alguém que viu muita coisa mudar, e que acredita que o catolicismo precisa perceber a evolução da sociedade. A igreja deve se modernizar de acordo com a modernização do mundo, diz ela.

A catequista, em sua sala. “Como batizada eu tenho uma função”

Dulce não defende o liberalismo ou novos ritos, mas julga que a igreja católica precisa ser mais alegre, mais atrativa e mais aberta. Ela cita como exemplo os divorciados, que já foram mal vistos pela cristandade, e mais recentemente os homossexuais, que entraram na pauta de acolhimento, sobretudo a partir do papado de Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco.

Acho que (Francisco) é um papa para frente, moderno, corajoso, sobretudo ao discordar de ideias mais radicais.  Ele se propõe a fazer a mudança, necessária para manter os fiéis, avalia a catequista.

Para ela, antigamente o compromisso com a religião parecia ser muito maior. Dulce diz perceber que para muitos, completar o rito de formação da catequese e a presença no templo, por exemplo, é visto mais como um compromisso social do que uma experiência individual. Ela justifica analisando o quórum da missa das crianças, onde cerca de 20% é formado pelo seu público alvo, e a maioria por idosos.

A catequista defende um maior comprometimento, e faz a sua parte, despertando o que ela acredita ser a principal mensagem do catecismo: Jesus, sua vivência e seus ensinamentos. A catequese é como o plantio de uma semente, que pode demorar, mas algum dia brota. A esperança é essa. Não desistir, não desanimar, mas continuar pregando. Amém, dona Dulce.

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