quinta-feira, maio 26, 2022

Cantoras pela vida

Formado principalmente por vluntárias que já passaram pelo câncer , o coral Superação é mais um dos projetos do Grupo Gama dedicados a divulgar mensagens de otimismo e prevenção

Matéria publicada originalmente na Revista Vanilla em junho/julho de 2017 – Por Nelson da Luz Junior – Fotos: Helmuth Kühl

 

Ei dor, eu não te escuto mais. Ei medo, eu não te escuto mais. A letra da canção O Sol, famosa na interpretação da banda Jota Quest é mais uma daquelas músicas pop motivacionais lembradas mais pela mensagem do que pela relevância artística. Soa até ingênua se seu medo ou sua dor são relativamente simples de resolver. 

Mas o conteúdo da música pode ter uma proporção bem maior se a dor é sentida na mente e no corpo, e é causada por uma doença que ainda desperta imediatamente o medo da morte.

Letras e canções como essa tem sido a fonte de inspiração para um grupo de mulheres que escolheram usar a música para expressar esperança, oferecer conforto e também estimular a prevenção contra o câncer. 

Elas integram o Coral Superação, mais um projeto ligado ao Grupo de Apoio à Mama (Gama), uma das entidades que está na linha de frente do combate à doença na região, com ênfase no câncer de mama.

A maioria das cerca de 18 cantoras voluntárias já sentiram ou ainda sentem na pele os efeitos da doença e do seu tratamento, e buscam na música forças e apoio para enfrentar os próprios fantasmas e também ajudar a espantar os alheios.

Para isso procuram ensaiar semanalmente e se apresentar, seja para os acolhidos na Casa de Apoio do Gama, em Pato Branco, que abriga gratuitamente pacientes em tratamento e seus familiares, seja para internados nos hospitais da cidade. Até o fim do ano também devem acontecer apresentações na Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), e na Unidade de Pronto Atendimento (UPA).

Uma das fundadoras do grupo, Clemair Ruffato Bertol, conta que a ideia de criar um coral remonta aos primeiros anos de existência do Gama, mas a iniciativa foi sendo adiada, em partes, por falta de um maestro e de orientação profissional em música. Era um sonho, que pudéssemos ter um coral, algo que pudesse nos estimular, lembra.

Isso mudou há cerca de um ano, quando o regente Gerson Giusti se voluntariou para a função. Ele me encontrou e disse para reunir a mulherada. Agora foi, pensei, conta Marlene Schenatto, também pioneira no grupo Gama.

A vida de Giusti também foi marcada pelo câncer. Sua mãe faleceu há cinco anos vítima da doença. Ele conta que a falta de prevenção pode ter contribuído para sua morte, e alertar para a importância do diagnóstico precoce foi uma das razões que o aproximaram do grupo. O trabalho com essas mulheres também é uma forma de falar sobre prevenção, pontua.

Natural de Palmas, mas residente em Pato Branco há mais de 20 anos, o maestro conduz ou já conduziu corais em vários municípios do Sudoeste, como Santa Izabel do Oeste, São Jorge D´Oeste, Realeza e Itapejara D´Oeste.  

O Coral Superação, porém, tem suas particularidades e uma curiosidade: até onde se sabe, é o único grupo regional formado exclusivamente por mulheres.  

Aqui é diferente. Nós temos coralistas que estão em tratamento. Então nosso lema é vir para o ensaio também nos momentos de dificuldade, pois o coral é uma válvula de escape. Nossa função também é divulgar a Casa de Apoio, que precisa de recursos financeiros, de doações para ser mantida, diz Giusti.

No time de voluntárias com experiência em corais está Bruna Carolina da Costa, que também participa do Coral Renascer Chama Viva, além de ser professora e regente de coral na escola Udir Cantu, no bairro São João. Independente do contexto, Bruna acredita que música é uma fonte de motivação. Música é vida interior, e quem tem vida interior jamais padece de solidão. É isso que a gente tenta fazer, de uma forma ou outra a música vai tocar as pessoas, conta.

Bruna não teve câncer, mas sofre de endometriose. Até ser diagnosticada com a doença, a coralista conviveu com a possibilidade de ter câncer no útero. Você percebe que o seu problema não é maior do que o de ninguém. E eu tento transmitir para os outros que não se deixem abater.

Exemplo
Marlene Schenatto acredita que além da música, os exemplos das integrantes do grupo também são fonte de motivação. Há 26 anos ela foi diagnosticada com câncer de mama, e a notícia pareceu uma sentença de morte. Você pensa nos filhos, na família, em como eles vão ficar, e também se questiona por que aquilo está acontecendo com você, ela lembra, citando angústias comuns a quem precisa lidar com a doença.

Na época, o tratamento precisou ser feito em Curitiba. Eram quatro viagens mensais para ser submetida à quimioterapia. Cansaço, sintomas de depressão e os efeitos colaterais do tratamento foram pivôs de alguns dos momentos mais difíceis daquele período.

Hoje curada, Marlene atua nos projetos do Gama compartilhando suas experiências. Além do coral e da Casa de Apoio, voluntárias do grupo também realizam visitas domiciliares a doentes e promovem a Roda de Superação, encontro mensal de motivação e acolhimento.

Mais de duas décadas depois, Marlene conta que muitos dos preconceitos com relação ao câncer ainda estão vivos. Histórias de mulheres abandonadas pelos amigos, parentes e até maridos não são raras nos círculos de convivência do Gama.

Em um exemplo de extrema crueldade, a conhecida de uma personagem anônima desfez a amizade em uma rede social, alegando que pessoas com câncer davam azar.

Marlene também relata a falta de tato de algumas pessoas que visitam pacientes com câncer. Na falta do que dizer muita gente conta histórias de conhecidos que morreram com a doença, e outras coisas tristes. Quem convive com um doente precisa estar preparado, então nós temos formado esse grupo para tentar falar como eles podem sair disso.

Além de Marlene e Clemair Bertol, que teve câncer há cerca de 16 anos, no coral também há quem descobriu a doença mais recentemente. Em 2014, aos 36 anos de idade, Nádia Pedrozo percebeu um nódulo no seio ao fazer o autoexame. Era câncer de mama, do tipo HER 2 positivo, um tumor agressivo que se espalha rapidamente pelo organismo. Para ela, quem mal pegava uma gripe, foi um choque. 

A lista de receios foi a mesma de todas as histórias ouvidas pela reportagem de Vanilla. Nádia pensou na morte, se preocupou com o futuro dos filhos e teve medo. Por mais que você tenha fé, que acredite que tudo vai dar certo, você pensa na morte. Se eu faltar, quem é que vai cuidar dos meus filhos?, conta. 

Não bastasse as consequências do tratamento convencional, Nádia ainda precisou entrar na justiça para conseguir um medicamento complementar de alto custo, necessário para o seu caso.

Foi seu marido quem buscou o Gama à procura de ajuda, e desde então, Nádia participa ativamente do grupo, inclusive na diretoria. Ela conta que procurava se fortalecer em histórias como as de Clemair e Marlene, que já estão curadas há bastante tempo. 

Com a maior parte do tratamento já superado, a voluntária diz que seu sentimento é outro; antes precisava de ajuda, e agora pode ajudar. É uma espécie de gratidão. Tudo o que você puder retribuir é uma forma de devolver a ajuda que estava precisando.

Ela conta que ter passado por uma doença grave a fez rever algumas prioridades. Por um lado, a queda do cabelo resultante do tratamento a fez dar menos importância para a estética. Por outro, o tempo de folga e o lazer com a família passou a valer mais.

Tal desprendimento fica mais explícito no grupo durante o ensaio, movido a muito riso e muitas brincadeiras. O clima lembra o que diz naquela música: pra onde tenha sol, é pra lá que elas vão.

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