quinta-feira, maio 26, 2022

Sagrada energia que emana do feminino

Filosofia que existe há milênios vem conquistando cada vez mais mulheres em busca de autoconhecimento e autocura

Por Mariana Salles

Vamos começar com uma pergunta que parece bem simples: o que é ser mulher? A resposta mais clichê seria algo como ter o dom da maternidade, mas será que é só isso? Ser mulher é apenas ser mãe?

Agora peguemos o contexto atual, com diversos movimentos feministas brigando pela igualdade. O que seria, então, a mulher em tempos de equidade entre os sexos?

As perguntas existencialistas são sempre complexas, e responde-las exige a capacidade de conhecer a si e ao mundo.

Listar o que a mulher tem biologicamente diferente do homem não é suficiente. É preciso mergulhar nas profundezas do feminino para descobrir essencialmente o que é ser mulher — uma reflexão estendida também aos homens.

Os comparativos esdrúxulos trouxeram novamente a tona uma filosofia de vida milenar chamada “sagrado feminino”. São mulheres (e homens) que querem saber mais sobre o próprio corpo e como os ciclos femininos são capazes de interferir no emocional e estabelecer uma conexão direta com a natureza.

“Quando falamos em Sagrado Feminino, estamos falando de sua mãe, de suas avós, de mulheres. Estamos falando de uma energia que existe em todos. Estamos falando de conceber, gestar, gerar. De semear, brotar, florescer, colher. Estamos falando de ouvir o coração. Estamos falando de dançar com a vida. De criação, de potencial de criação. Isso é energia feminina. Estamos falando de olhar para tudo isso com amor e revência, isso é o sagrado”, explica a terapeuta holística Juliana Karl, que tem como nome espiritual Ananda Nam.

Pela descrição de Juliana, o Sagrado Feminino seria então como despertar para uma nova consciência. Nela, a supremacia patriarcal dá lugar a um mundo mais maternal, afetivo e artístico, logo com menos racionalidade e mais sensibilidade.

“Sagrado feminino é a energia geradora da vida. Tudo tem dois lados, como yin e yang. Assim existe também a energia do sagrado  masculino, e uma esta em conexao com a outra o tempo todo, em todos os momentos”, define Bruna Giongo Delfe, estudiosa sobre oassunto. “A força dessa energia sagrada, sendo resgatada hoje em dia pelas mulheres , está na forma da retomada das lembranças de o quanto somos especiais por trazermos essa energia com a gente. Os encontros do sagrado femino trazem consigo essa missão: reconecção com a energia sagrada que carregamos, que vivemos, e nem nos damos mais conta disso”, complementa.

O conhecimento para a abertura deste novo mundo chega através de leituras e conversas, mas principalmente no que é chamado de “circulo de mulheres”, um grupo de estudos no qual são levantados conceitos diferentes sobre si através da percepção do próprio corpo e do universo. Isso engloba ciclo menstrual, ciclo lunar, aspectos emocionais, semelhanças entre as mulheres e as deusas da mitologia, a psique e a influencia da natureza sobre o corpo, além de valorizar o que é unicamente da mulher, como o parto, a amamentação, a menstruação.

Nos encontros do sagradado são estudados, porexemplo, o tempo fora do relogio, sem essa contagem do calendarioo. “Damos uma nova definição para o tempo e buscamos viver cada dia em mais harmonia com nossas raizes, ensinado a se conhecer pelos ciclos da lua, de 28 dias”, fala Bruna. Isso porque, segundo ela, as pessoas levam a vida no automatico e não param pra se concentrar em coisas essenciais, como na sua respiraçao. “Se você para um momento de ser o que é nos seus diversos papeis exigidos no dia dia, muitas vezes vai perceber que esqueceu o que você é nasua essência. A essencia feminina traz a vida, energia que pensa , que sente antes de agir”.

É em busca esse sagrado que os círculos de mulheres têm atraído mulheres de todas as culturas, religiões e crenças que querem aprender a se desvincular de padrões de beleza e regras pré-estabelecidas pela sociedade. Através deles, elas descobrem como se amar exatamente como são.

São nesses encontros também que a tecnologia é deixada de lado, dando lugar a remédios naturais, receitas passadas de vó pra filha, livros, imagens e experiências. “Um encontro sagrado, de reconexão com o que há de bom, no simples ato de buscar algo novo que una a todas naquele momento, sem julgamentos, aceitando a realidade, buscando melhor cada dia mais”, avalia a estudiosa. “É sagrado  o encontro porque o tempo em que estamos ali, fazemos algo de crecimento do interior pro exterior, algo real, que se vê a mudança na conexão com o presente”.

Para que eles aconteçam, não existe uma regra. Podem ser na forma de palestras, reuniões entre amigas, amigas e sociedade. A forma que a ideia é pensada e passada não importa, desde que ela aconteça de forma a buscar o bem maior.

Experiência

Juliana conta que conheceu a filosofia do Sagrado Feminino quando chegou em um grupo de pessoas no qual mulheres davam risadas, ficavam falando de seus ciclos menstruais, cantavam. O mais incrível, conforme suas lembranças, é que elas tinham uma habilidade incrível em escutar sua intuição e eram fiéis aos seus momentos: horas de recolhimento e horas de se mostrar. “Elas me pareciam mais amorosas consigo, mais alegres. Sim, alegria! Elas ajudavam umas as outras”, define.

Um certo dia, a terapeuta recebeu o convite para ser guardiã de um círculo que trabalha o sagrado feminino, chamado Flor da Lua. “Aí então comecei a trazer um olhar para esta mulher que me habita. Para o feminino, um amor sagrado a todas as virtudes do feminino. E também a todas as coisas que achamos não tão bonitas. Aprendi mais sobre mim mesma. Soltar, acolher, amar, receber, virar uma fera, que energia é de uma TPM forte, que energia é de um amor incondicional. Assim fui descobrindo as ‘ondulações’ e me aceitando exatamente como sou, voltando a dar valor a pequenas coisas, como costurar, papear, bordar, prosear”, comenta.

Já Bruna lembra que su primeiro círculo foi há quatro anos, com algumas amigas. “Nos encontramos em lugares em meio a naruteza, cada uma levava algo pra comer ou tomar, e também algo que gostaria de compartilhar. Faziamos uma mandala com o que cada uma trazia enquanto cada uma ia falando sobre aquilo. Teve livros, mensagens, orações, exercícios de yoga,meditacao, troca de experiências pessoais, muitos choros e risadas. Nossas energias juntas faziam uma poesia”, relembra.

Em circulos do sagrado, permite-se tudo que se remete ao respeito pela mulher que está participando: filhos, animais de estimação ou mesmo alguém que precise ou queira conhecer esse movimento.

Em alta

Mesmo que exista a milênios, a filosofia está ganhando cada dia mais força. Isso porque, conforme a orientadora de Juliana, Sahwenya Passuelo, a cura começa no ventre de uma mulher. “Então, neste momento de muita confusão, de muitas pessoas de certo modo perdidas, estamos precisando resgatar nossas raízes. Voltar a nos unir, retornar ao amor, primeiro consigo, depois com os outros. As mulheres evoluíram muito. Isto é muito bom. Porém muitas de nós perdemos a essência da Vida em si. Estamos buscando alcançar algo que já está aqui. Estamos competindo, estamos correndo contra o tempo, estamos falando mal, estamos umas contra às outras ao invés de nos unirmos e descobrirmos mais sobre o que é tudo isso que está acontecendo e o que podemos fazer de bom para nós e o mundo”, defende.

E se a mulher do passado era sagrada, as mulheres contemporâneas também continuam sndo. “Todas são, todos são. Sagrado é um ato para consigo, para além de pessoas que somos. Mas somos feitos de energia, energia do universo. Masculina e Feminina”, fala Juliana.

A maneira de trabalhar esse  lado sagrado é conhecendo a si. “Quando feito em círculo, isso, esse autoconhecimento, se potencializa pela troca de experiências. Afinal, estamos aqui para partilhar, para passar adiante”.

Manto de cura

Entre as atividades de maior relevância — e uma das mais conhecidas — feitas dentro do círculo está o manto de cura, uma colcha de retalhos feita da costura de histórias. Isso porque cada mulher faz com seu pedaço de tecido o que quiser, enquanto vai conversando com quem está na roda. “É uma costura de si mesma, um momento de relembrar seus sonhos, suas origens, e bordar. Trazer isso num retalho, abençoar. E o ato de costurar é fechar, é unir, é passar ponto por ponto e ir passando linha e agulha. Depois imagina que vibração, que energia terá este manto! Ele realmente é uma cura para todas que costuram e para aqueles que depois podem usá-lo. Ele acolhe, aquece, costura também a nível não visível a olhos nus o que precisa ser costurado”, poetisa Juliana. (Para quem não assistiu  e quer saber mais sobre o assunto, a teraputa indica um filme chamado Colcha de Retalhos.)

Juliana trouxe essa ideia para Pato Branco, onde há um manto de cura sendo feito. ‘Sou gaúcha, moro em Florianópolis desde pequenina. Vinha para Pato Branco visitar meu irmão e vendia uns colares feitos à mão. Criei uma clientela aí. Meu irmão se mudou, não mora mais na cidade. E eu, de alguma forma, estou sempre retornando. Atualmente venho uma vez ao mês para atendimentos. Toda vez que estou partindo para Pato Branco todos já sabem, tenho um caso de amor com a cidade. Me sinto em casa, e sinto que tenho muito o que contribuir para com ela e ela comigo. A pessoas me recebem como da família, fico encantada. Agradeço tanto, tanto, que o que eu puder fazer para espalhar o amor nesta cidade farei. Um dia facilitei uma oficina de colares terapêuticos para umas mulheres e me pediram, já estavam pedindo sagrado feminino. Preciso contar agora que venho de um grupo que se chama Natural Medicina Alma da Terra e ali muitos mantos são costurados. Tenho amigas, colegas, que fizeram com seus grupos de mulheres, e para mim não tinha surgido ainda. Mas ao me deitar no sofá um dia fechei meus olhos, via camomilas. Sim, flores de camomilas, e veio a costura do manto em Pato Branco. Mandei mensagem convidando aquelas mulheres que estavam pedindo sagrado feminino e elas disseram sim. Assim estamos começando a fazer o manto”, detalha.

Para ele, haverá uma guardiã na cidade, com quem ele ficará sempre guardado. Esta será responsável pela organização de fila de espera para uso e pedidos. Ele poderá ser usado por qualquer pessoa que queira, sinta necessidade, precise de uma cura, esteja em uma situação difícil. Ele é para todos.

Em todo o mundo, não dá para dizer exatamente quantos mantos existem, pois começaram a multiplicar-se. Mulheres começaram a tecer entre suas famílias, alunas com seus grupos, como um resgate de família também, resgate de história, e o feminino unindo.

Nas palavras daquela que começou com o movimento dos mantos de cura, Sahwenya Passuelo, “começo pelo manto para a cura de meu nascimento com as mulheres de minha familia, costurado entre mamãe e eu. Seguiu para São João Batista. Para a Cura de um Luto. Foi para Tubarão, para uma viagem aos Estados Unidos, onde a manteira se viu abraçada pelo manto em meio a um furacão t5. Em local abaixo da Terra. Esse foi o terceiro manto: da coragem. O segundo manto do amor. O primeiro manto do nascimento. Depois foi para o Manto da Unidade, depois Honrando a Existencia, Quebrantu, Manto da Dança do Amor Integro. Aí tem o Manto do Renascimento, Manto da Sexualidade Sagrada, Manto dos Animais, de Poder, Manto do Valor Pessoal, Manto da Alegria…e assim outros surgiram e estão surgindo”.

Quem quiser participar da confecção do primeiro manto de Pato de Branco pode entrar em contato com Juliana para saber as medidas do retalho, como fazê-lo e como se reunir com outras mulheres para tecer. “Não é preciso ter nenhum conhecimento de costura ou bordado nós recebemos a todas”. O contato pode ser feito por whatsapp: (48) 999129731 e por facebook, no perfil Ananda Nam Kaur.

“Este é um convite para bordar um retalho, costurar, partilhar um pouco de você, passar adiante, contar sua história, da cidade. Seja bem-vinda, você é preciosa e única assim como cada retalho”, finaliza.

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