quinta-feira, maio 26, 2022

Da Ucrânia para Pato Branco

Pêssankas, perohê e borsch. Estas são apenas algumas das várias heranças que os ucranianos trouxeram ao Brasil, no final do século 19. A vinda deles ocorreu na mesma época de outras grandes imigrações europeias, logo após a abolição da escravatura

Matéria publicada originalmente na edição de junho de 2017 da revista Vanilla – Por Paloma Stedile – Fotos: Helmuth Kühl

“Os ucranianos vieram para o Brasil, porque a nossa terra foi dominada pelo Império Austro-Húngaro e pela Polônia. E esse império não se preocupava com o povo dessa região, fazendo com que os ucranianos não tivessem perspectiva de melhora”, afirma a descendente, Ivana Ostapiv Rigailo, que reside em Pato Branco.

Ela conta que ― como a época coincidiu com o fim da escravatura, em 1888, e o início da República, em 1889, no Brasil ― agentes se espalharam pela Europa, os quais distribuíam artigos e livretos com falsas promessas de uma vida melhor no Brasil.

“Aproveitando-se da fragilidade dos camponeses, uma vez que estavam sendo iludidos e maltratados em seu próprio país, o Governo Brasileiro iniciou na Ucrânia muitas propagandas para trazer os imigrantes europeus para cá, uma vez que se perdeu a força do escravo africano. Então foram contratadas empresas transoceânicas, que faziam o transporte dos imigrantes europeus ao Brasil”.

A princípio, chegaram às terras brasileiras oito famílias de imigrantes, da cidade de Zolotiv, região de Lviv, situada no oeste da Ucrânia. O primeiro local que se instalaram foi em Mallet/PR, no ano de 1891. Posteriormente, os imigrantes se instalaram em municípios próximos à Mallet, como Antônio Olinto/PR e Prudentópolis/PR.

Poucos anos depois, duas grandes levas vieram de Galícia e de Bukovina, situados na parte ocidental da Ucrânia. Uma delas, com cerca de 5.000 famílias de agricultores, nos anos de 1895 e 1896. No ano seguinte, a imigração se intensificou ainda mais, totalizando em aproximadamente 20 mil ucranianos, vindos de Galícia.

A segunda onda de imigrantes ao Brasil, por sua vez, ocorreu entre os anos de 1908 e 1914, com também população oriunda de Galícia. Ao todo, 18,5 mil ucranianos vieram motivados por emprego, que havia para a construção da estrada de ferro, entre os estados de São Paulo e Rio Grande do Sul.

Posteriormente, outras levas de imigrantes chegaram ao Brasil, entre 1917 e 1945, constituídas por operários e profissionais de várias outras áreas, como militares, ex-prisioneiros de guerra e refugiados políticos.

Uma das famílias ucranianas, que resolveu arriscar novos horizontes no Brasil, foi a Koslinski. Conforme a descente, Nádia Koslinski Lerner, foram seus bisavôs, Anísito Koslinski e Maria, que trouxeram o seu sobrenome para o país.

“Eles vieram em 1895, procurando também um futuro melhor para seus descendentes. Como minha bisavó era filha de um dono de fábrica de armas, na Ucrânia, e meu bisavô era um técnico dessa fábrica; para poderem ingressar no grupo de imigrantes, deram origem desconhecida. Caso contrário, seriam mandados de volta para trabalhar na fábrica”.

Ucranianos no Sudoeste

Segundo pesquisadores, a estimativa é de que hoje no Brasil existem mais de 500 mil descendentes de ucranianos; destes, 80% estejam somente no Paraná.

No Sudoeste do estado, a chegada dos ucranianos ocorreu após alguns anos, a partir da década de 1930. Dezenas de famílias resolveram se mudar de Antônio Olinto e de Mallet para a Colônia Baixeiro, hoje denominada Colônia Alto Paraíso.

Como Pato Branco e Bom Sucesso do Sul não existiam ainda nesta época, a então Colônia Baixeiro era distrito de Clevelândia. Com o passar dos anos, houve os desmembramentos dos municípios, sendo que a Colônia Alto Paraíso atualmente pertence a Bom Sucesso do Sul.

Uma das famílias que se mudou de Antônio Olinto para a Colônia Baixeiro foi a Koslinski. Conforme Nádia, a princípio veio seu tio avô ao Sudoeste, João Koslinski. Buscando melhores condições para seus familiares, ele motivou para que seus sobrinhos também se mudassem para a região, inclusive o pai de Nádia, Daniel Koslinski.

“Assim como quando os imigrantes chegaram ao Brasil, tiveram que enfrentar uma situação difícil no Sudoeste do Paraná. Não por causa do clima, que já estavam acostumados e tinham ciência de como plantar. Mas porque tinham que desmatar e também não tinham assistência médica. Com o tempo, eles foram se superando, transformando dificuldades em oportunidades, e hoje são centenas de famílias na região”, descreveu Nádia, completando que além de Pato Branco e Bom Sucesso do Sul, no Sudoeste há descendentes de ucranianos em vários outros municípios, como Itapejara D’Oeste, Francisco Beltrão, Salto do Lontra, Capanema e Realeza.

Cultura

Quando chegaram ao Brasil, os ucranianos trouxeram pouca bagagem, pouca ferramenta e quase nada de roupa. Assim, somente após o período de colonização, eles sentiram a necessidade e puderam resgatar sua cultura e religião milenar, a fim de passar para seus filhos.

Chamaram primeiramente os missionários e, depois de construída a primeira igreja de madeira, foi dado início à vida cultural e às tradições ucranianas em território brasileiro. Com isso, eles preservam até hoje elementos antigos da cultura ucraniana, como a música, as danças, os bordados, a gastronomia e a língua.

“Eles [imigrantes] trouxeram consigo poucos equipamentos e sementes ― trigo e centeio ―, para trabalhar com a terra. Porque era o que a maioria sabia fazer. Como vieram e viviam em comunidade, de certa forma, foram eles que criaram o sistema de cooperativas”, disse Ivana.

Outra característica dos ucranianos, conforme a descendente, é que eles são unidos. “Por isso, até hoje se mantém a tradição do povo ucraniano, pela fé, pela cultura e pela língua. Tanto que, de todos os imigrantes que vieram ao Brasil, diria que é um dos povos que luta para manter a língua, a cultura, o rito da igreja, por conta da fé. Seja fé Católica, seja fé Ortodoxa”.

Igreja

Na Galícia, os ucranianos tinham uma relação muito íntima com a crença religiosa. Quando eles chegaram ao Brasil, a princípio, o movimento foi orquestrado por leigos, sendo que em Antônio Olinto, por exemplo, só contou com a presença de um pároco fixo a partir de 1911.

Já no Sudoeste do Paraná, por sua vez, nos primórdios da chegada dos ucranianos, os padres iam de União da Vitória/PR à Colônia Baixeiro, “para as festas principais ou a cada três meses, quando celebravam missas nas casas das famílias”, conta o padre Sérgio Chmil, pároco da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, de Pato Branco.

“O padre vinha, celebrava a santa missa, confessava, fazia batismos e casamentos, por um período, e retornava à União da Vitória. Algum tempo depois, as coisas começaram a facilitar e foi adquirido um veículo, que fez com que o padre viesse com mais frequência”.

Com isso, segundo Chmil, passaram a ser fundadas igrejas em outras comunidades nas redondezas, como a Colônia Trinta Voltas, próxima a Bom Sucesso do Sul; Colônia São Pedro, em Itapejara D’Oeste; além de Francisco Beltrão e Salto do Lontra, com ucranianos que também imigraram para lá.

Nesta época, também imigrantes se mudaram para Pato Branco, iniciando uma nova comunidade. Com isso, a matriz que era na Colônia Baixeiro, passou a ser no bairro Santa Terezinha, local que continua até os dias atuais.

A matriz atual também atende à antiga matriz, na hoje denominada Colônia Alto Paraíso, bem como as comunidades de Trinta Voltas; São Pedro; Francisco Beltrão; Salto do Lontra; no Rio Gavião, em Pato Branco; e em Nossa Senhora Aparecida, em Bom Sucesso do Sul. Nelas, padre Sérgio celebra missas, bem como realiza outras atividades.

“Há registros nos livros da igreja que, em 1967, houve o primeiro batismo feito na paróquia de Pato Branco [Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro]. A partir daí, dois ou três padres passaram a residir na Colônia Alto Paraíso, onde foi construída uma igreja de madeira, e começaram a atender a região, além de Candói/PR e Cantagalo/PR. Somente em 1989 foi fundada a paróquia em Cantagalo”, descreveu o pároco.

Já a estrutura da igreja de Pato Branco, segundo informações de membros da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, começou a ser construída em madeira, no início dos anos 1970. Antes disso, a comunidade ucraniana se reunia na residência de Pedro Gayotis, avô dos advogados Dévon Defaci e Ludmila Defaci, no bairro Santa Terezinha, em Pato Branco; mesmo endereço em que está instalada a igreja atualmente.

Alguns anos depois, por sua vez, começou a ser construída a estrutura que existe hoje, a qual foi inaugurada no dia 13 de maio em 1984. Somente 11 anos depois, em 1994, um padre passou a residir nesta estrutura, que se tornou a matriz. “Como houve um grande êxodo rural, de descentes que vieram a Pato Branco, acabou-se por estabelecer a matriz em Pato Branco”, afirmou padre Sérgio.

Conforme padre Sérgio e Nádia, a construção da atual estrutura da matriz, ocorreu em trabalho conjunto de toda a comunidade. “O doutor Iaroslau Koslinski, meu irmão, juntamente com o padre Clemente, pedia ajuda aos colonos, que davam terneiros de prenda. Meu irmão então levava os terneiros à sua fazenda e os acaba de criar. Assim, em muitas festas os bois eram todos doados. Com isso, gerava mais lucro para ajudar a construção. Sem falar verbas que vinham da Europa e rifas realizadas para angariar fundos”, recorda Nádia.

Hoje em dia, conforme padre Sérgio, não se pode precisar quantas pessoas são ucranianas em Pato Branco e região, ou que frequentam a paróquia. “É algo muito relativo, porque assim como em outras comunidades hoje são poucas as pessoas que participam assiduamente na igreja. Grande parte é esporádica, àquelas que vêm quando de fato precisam da igreja. Nas questões de batismo, principalmente. Também porque nem todos que frequentam a igreja são descentes de ucranianos. Assim, acredito que uns 30% sejam de outras etnias, mas que simpatizaram com o rito e estão aqui. Da mesma forma que há muitos ucranianos que não são ligados à comunidade”, observou.

Quanto à construção padronizada da igreja, com cúpulas, Chmil explica que vem dos primórdios. “Nos ritos orientais, as igrejas são feitas em formato de cone. Essa simbologia, conforme os antigos, dá a ideia que Deus está no Céu e as orações sobem ao Céu, por meio desse cone. Assim, é uma forma de reunir as orações do povo e direcioná-las para Deus”.

Outra questão que inclusive difere a igreja ucraniana, da igreja católica apostólica romana é o rito. “Ao entrar na igreja e participar da celebração litúrgica, você verá que a estrutura da missa, o nosso rito oriental, é bem semelhante ao rito latino. Porém, uma das diferenças é que o padre celebra a maioria da missa ‘de costas para o povo’, o que não é bem correto dizer. Na verdade, o padre está de frente para o altar. Isso ocorre porque o padre é visto como pastor que conduz o povo para Deus. Como o sacrário está em cima do altar, ou seja, significa que Jesus está presente na Eucaristia, o padre só se vira para o povo para instruir e alimentar. Com a palavra e a Eucaristia. No restante, ele está voltado para Deus, que é o centro de tudo”.

Assim, segundo o pároco, quem é católico romano pode frequentar as missas da igreja ucraniana, assim como os ucranianos podem frequentar a igreja católica romana. “Eu posso, por exemplo, ministrar sacramentos para os fieis dos ritos latinos, exceto o casamento. Se eu ministrar os outros sacramentos, como o Batismo, a Crisma para alguém que não seja do Rito ucraniano, é ilícito, mas é válido”.

Cultura

Além da religião, a cultura ucraniana é muito rica em vários outros aspectos. Um deles é a dança. Conforme Ivana, o povo ucraniano sempre foi muito alegre. “Como a Ucrânia é um país europeu, sofria e sofre muito com o frio. Devido às baixas temperaturas, as pessoas se recolhiam em suas moradias. Entretanto, quando a primavera chegava, eram feitas antigamente festas em comemoração ao Sol, à fartura na terra, surgindo com isso as danças”, explica.

A partir daí, segundo ela, surgiram com o tempo as danças folclóricas, que se expandiram pelo Brasil. Tanto que atualmente existem no país vários grupos de dança folclórica ucraniana, como o Grupo Vesselka, de Prudentópolis; o Grupo Poltava, de Curitiba; e o Grupo Barvinok, também de Curitiba.

Em Pato Branco e região, até o momento não há grupo de dança. Entretanto, a comunidade se mobiliza constantemente para trazer atrações para apreciação no Sudoeste. “Nós buscamos preservar a dança ucraniana, a qual conta nada mais do que o dia-a-dia dos colonos, dos agricultores”, justifica Ivana.

Pêssankas e bordados

Outro destaque da cultura ucraniana é a Pêssanka (ou Pysanka), ovos coloridos inteiramente à mão pelos ucranianos, os quais são entregues na Páscoa, sob os cumprimentos “Hréstos Voskrés” — Cristo ressuscitou —; e “Voístenu Voskrés” — Em verdade ressuscitou.

A palavra “Pêssanka” tem origem eslava e é derivada do verbo “pysaty” (escrever), que simboliza a vida, a saúde e a prosperidade. Conforme Ivana, o colorido da sobreposição das cores e a riqueza dos detalhes pintados à mão, fazem das pêssankas muito mais do que simples presentes. “É um símbolo de respeito, que expressa sentimentos e desejos conforme os desenhos que cada ovo recebe. Eles são mantidos em casa, de ano para ano, como decoração e como proteção contra o mal”, acrescenta.

Essa arte é tão valorizada pelos ucranianos, que em Pato Branco são realizados anualmente cursos, a fim de difundir essa técnica. Eles ocorrem sempre alguns dias que antecedem à Páscoa, para que os participantes possam presentear seus amigos e familiares.

Além disso, a cultura ucraniana tem algo particular em sua vestimenta: o bordado ucraniano, que é bem trabalhado em ponto cruz, sendo usado também em lenços, toalhas, centros de mesa e almofadas.

Inclusive, segundo Ivana, há o Dia Internacional do Bordado Ucraniano, comemorado em 18 de maio, em que os ucranianos do mundo inteiro vestem suas camisas bordadas, também conhecidas como Vyshyvanka.

Pratos típicos

Várias são as comidas típicas ucranianas, que os imigrantes trouxeram para o Brasil. Contudo, as principais são o Perohê ou Varéneke, massa cozida em forma de pastel, recheada com requeijão, batata cozida e temperos, e é servida com nata ou molho vermelho; o Borsch, sopa de beterraba, com lombo ou costela suína defumada, e é servida com nata; o Holubtsí, rolinhos de repolho recheados com arroz e trigo sarraceno, temperado com cebola, alho, carne, bacon ou linguiça; o Kutiá, prato doce feito com trigo descascado e cozido, servido com mel, sementes de papoulas e uvas passas ou amendoim e nozes picadas; a Paska, pão especial produzido para a bênção dos alimentos na Páscoa, todo enfeitado com tranças, pássaros e flores; a Babka, pão doce produzido para bênção dos alimentos na Páscoa, que incorpora frutas secas; e o Holodec, carne fria de gado ou porco, em gelatina, servida com krin, raiz forte misturada com beterraba.

Para divulgar a cultura e, ao mesmo tempo, angariar fundos para a manutenção da igreja, a Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro realiza três jantares típicos ao ano, em Pato Branco: em abril, em junho e em agosto.

Neles, são servidos três pratos principais: o Perohê, o Holubtsí e o Borsch, além de saladas, molhos e outros acompanhamentos. A cada jantar, cerca de 600 pessoas saboreiam essas delícias, tanto de Pato Branco, como da região.

Quer aprender como se faz o Perohê? Confira a receita que Ivana revelou à Revista Vanilla.

Receita de Perohê

Massa:

– 1 kg de farinha de trigo

– 1 colher de sopa de manteiga

– 1/2 colher de sopa de sal

– 1 copo de água fervida levemente morna

– 2 gemas

– 1 ovo inteiro

Recheio:

– 500g de batata cozida

– 500g de requeijão

– sal e pimenta a gosto

– salsa e cebolinha bem picados

Primeiro, faça o recheio:

Cozinhe a batata com sal, escorra e passe pelo espremedor. Depois misture bem com o requeijão granulado, com o cheiro verde. Tempere com sal e pimenta.

Segundo, faça a massa:

Misture as gemas, a manteiga, o sal e a água. Bata bem. Vá acrescentando a farinha, até o ponto para amassar. Amasse bastante com as mãos, até que a massa fique bem lisa e firme. Não precisa deixar a massa descansar.

Abra a massa com um rolo ou no cilindro, corte em rodelas com um copo.

Coloque no meio de cada rodela um pouco de recheio, dobre e aperte as bordas (em forma de pastel) e vá colocando os pastéis sobre um pano.

Coloque para ferver meia panela de água com sal. Assim que estiver fervendo, vá jogando os pastéis.

Quando a água ferver novamente e os pastéis subirem à tona, retire-os com o auxílio de uma escumadeira; regue com manteiga derretida e sirva com nata, ou com pedacinhos de bacon frito, ou com cebola branca picada frita no azeite ou com molho de carne.

Sirva com nata.

* Rende 40 unidades

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