quinta-feira, maio 26, 2022

Mato de comer

Matéria publicada originalmente na revista Vanilla de junho/julho de 2017 (Fotos: Helmuth Kühl)

Em terrenos baldios, quintais e passeios de Pato Branco não é difícil encontrar a capuchinha, uma planta com flores de um laranja intenso. Aos olhos é muito agradável, mas nem todo mundo sabe que a flor também pode ser apreciada pelo paladar.

Ao ser ingerida in natura, direto do pé, a flor da capuchinha tem um sabor que lembra o do agrião, picante, do tipo que satisfaz os fãs de pimenta, e pode ser uma opção alternativa de salada.

Assim como a capuchinha, várias outras plantas também podem fazer parte da alimentação humana, por serem saborosas e nutritivas.  Algumas delas estão por aí, nos quintais e matas nativas, sendo consideradas apenas como enfeite ou até mesmo tidas como ervas daninhas.

Por fatores que vão desde os hábitos culinários de uma região até o predomínio da monocultura, o potencial alimentar e até econômico das chamadas plantas alimentícias não convencionais – as panc – acaba sendo ignorado.

Nos últimos meses, estudantes e professores do curso de Agronomia da UTFPR de Pato Branco tem investigado o assunto na região, iniciativa que surgiu por meio de um grupo de estudos em agroecologia. Nós já ouvíamos falar delas, que já estavam dentro das nossas casas. Meu pai é mineiro, e consumia muitas espécies que o pessoal do Paraná, ou de outros estados, não consumia. O mesmo com a minha mãe, que viveu em sítio e consumia o que tinha a disposição, explica a bióloga, professora e coordenadora do curso, Giovana Faneco Pereira.

A atenção do grupo se voltou especificamente às Pancs a partir da escolha das espécies que seriam cultivadas em um horto didático, pensado para atender à necessidade de pesquisa dos alunos e também promover a aproximação entre o campus e a comunidade.

Além dos regionalismos e fatores culturais, o interesse também foi despertado por conta da segurança alimentar, problema que pode ser atacado por meio do estudo de fontes alternativas de alimento. Estimativas da agência das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura dão conta de que a população do planeta deve chegar aos 9 bilhões até 2050. Para alimentar tanta gente seria necessário praticamente dobrar a produção agrícola.

Como fazer isso sem desmatar mais, abrir mais terras para cultivo e sem essa agressividade com o ambiente? Essa pode ser uma ideia, pois são plantas que já são consumidas por algumas comunidades específicas, por alguns de nossos antepassados, mas que com o tempo o hábito de consumir foi se perdendo, questiona e analisa Giovana.

Completa a tese o fato de que várias panc são muito nutritivas. Um exemplo é a ora-pro-nóbis, muita popular em Minas Gerais, que é chamada de carne dos pobres por conta da grande quantidade de proteína em suas folhas, que pode chegar a 30%.

Thiago de Oliveira Vargas, engenheiro agrônomo, professor e participante do grupo, conta que um bom manejo da planta rende muitas folhas, que podem ser processadas e vendidas para acréscimo em barras de cereal, macarrão, farinhas, entre outros. Iniciativas do tipo já estão sendo realizadas em Santa Catarina, por exemplo.

Cultura
O fato de serem tratadas por não convencionais não significa que as panc não sejam consumidas. De acordo com Thiago, tais espécies fazem parte da alimentação de grupos, comunidades e populações distintas em diferentes regiões do Brasil. Não é que elas não existem. Mas são consumidas, por exemplo, ou em uma comunidade em Minas Gerais, em comunidades quilombolas, indígenas, ou difundidas amplamente no norte do país, detalha Thiago.

Por isso, termos como hortaliças tradicionais, ou negligenciadas, também são usados para classificar as panc. Parte do obscurantismo dessas espécies vem de razões econômicas, já que seu menor apelo comercial não desperta o interesse de determinados segmentos do setor agroindustrial.

Outra parte vem do comodismo. Mesmo sendo o Brasil o país com a maior diversidade natural do mundo, o consumidor costuma ficar restrito ao que está disponível nos supermercados.

E as panc nem estão tão distantes assim. Uma das abordagens da pesquisa envolve a investigação em propriedades rurais e entrevistas com moradores, trabalho chamado de resgate. Os diagnósticos mostram que algumas espécies já fazem parte do folclore local, como aquela planta que os pais cultivavam no quintal, ou que os avós utilizavam como remédio.

Andando pela cidade os professores já toparam com um exemplar de major-gomes, crescendo entre as fendas da calçada. No sudeste brasileiro, é uma salada comum. Segundo Giovana, a ora-pro-nóbis, por exemplo, é encontrada nas propriedades rurais do Sudoeste, e inclusive consumida por alguns agricultores.

Outra abordagem do estudo envolve o cultivo de espécies de outras regiões nas hortas e área experimental da UTFPR, com o intuito de averiguar o seu potencial produtivo, adaptação a região, entre outros fatores. O grupo também pretende ampliar o trabalho de divulgação com oficinas e degustações. Além disso, os pesquisadores mantém articulações com os cursos de Gastronomia e Nutrição da Faculdade de Pato Branco (Fadep).

O intercâmbio entre as instituições permite explorar os possíveis usos de cada planta na cozinha, como em saladas, molhos, caldos e pães. Durante a semana acadêmica dos cursos da Fadep, estudantes criaram um risoto com folhas de urtiga e picão, aquele mesmo, que gruda na roupa.

Thiago acrescenta que os principais focos do grupo são abordar o valor nutricional e terapêutico das plantas, e também suas possibilidades econômicas, algo cuja investigação também envolve outras áreas.

Muitas dessas plantas, apesar de já consumidas por algumas comunidades, ainda tem seus valores nutricionais pouco conhecidos, investigação que conta, ou deve contar, com a participação de pesquisadores de Química, cujo curso superior também é ofertado pela UTFPR.

Projetos relacionados as panc em várias partes do Brasil já estão sendo compartilhados com outros países, como Moçambique, por exemplo. Pela UTFPR, o intercâmbio com outras regiões deverá acontecer por meio do Projeto Rondon. Em julho, uma comitiva da universidade deve participar da Operação Serra do Cachimbo, no Pará e Mato Grosso, onde deve realizar oficinas relacionadas ao tema.

Atenção

Essa matéria tem caráter apenas informativo. Não é recomendado o consumo de plantas sem o conhecimento de suas características ou modo de preparo.

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