quinta-feira, maio 26, 2022

Em busca da forma ideal

Treinos, dietas rigorosas e disciplina. Conheça a rotina vivida por atletas do fisiculturismo    

Por Nelson da Luz Junior – Fotos: Helmuth Kühl

No início de novembro de 2017, Angélica Menger, 25 anos, conquistou um grande feito para sua carreira como fisiculturista, e de quebra ainda ganhou um ingresso para a realização de um sonho pessoal. O feito foi ter conquistado o primeiro lugar no campeonato Mr. Minas na categoria Wellness, altura até 1,63. O torneio aconteceu em Belo Horizonte, e reuniu atletas de todo o país, que competiram em várias categorias.

O sonho foi ter garantido uma vaga para o Arnold Classic Brasil, a maior competição de fisiculturismo do país, que deve ser realizado em abril de 2018, em São Paulo.

Este foi o segundo título conquistado pela pato-branquense, desde que decidiu treinar para se tornar uma atleta, há cerca de dois anos. Graduada em Administração, Angélica alia a vida de competidora com a função de gestora da academia que mantém em Pato Branco com seu marido, Mateus, que também é seu treinador e nutricionista.

Conquistar dois troféus significou uma série de transformações em sua rotina e no seu estilo de vida. Angélica pratica musculação há cerca de oito anos, e com o passar do tempo seu interesse no desempenho e no universo do fisiculturismo foi aumentando, até que decidiu investir na modalidade.

Desde então, ela já participou de três torneios. Além do título no Mr. Minas, a atleta foi vencedora no Campeonato Sul Brasileiro de 2016, também na categoria Wellness, e ficou com o quarto lugar no torneio Estreantes, realizado em São Paulo no início de 2017.

Angélica brinca que, por trabalhar em uma academia de ginástica, é comum acreditarem que ela passa o dia todo treinando. Não é bem assim, mas sua preparação também não é para os fracos, digamos.

Ela explica que o tipo de treinamento depende da etapa de preparação para um torneio, e da condição física do atleta. Quando está na chamada fase off, ganhando peso, Angélica conta fazer 45 minutos de exercício cardiorrespiratório. No pré-torneio, pode fazer três exercícios do gênero de 30 minutos cada.

Além da musculação. Quanto a isso, Angélica conta que o tipo de treino também depende da fase de preparação. “Tem treinos mais leves, com mais repetição, e treinamento com mais carga e menos repetição”, explica. E além, ainda, há outro fator fundamental para o desempenho do atleta: a dieta, que também varia, de acordo com a fase de preparação.

Angélica Menger

Quando conversou com Vanilla, Angélica havia retornado de Minas Gerais há poucos dias, e já pensava em sua próxima competição, que aconteceria em dezembro. Na ocasião, ela estava consumindo pouco carboidrato, para não ganhar gordura.

Ela conta que nessa fase chega a ficar até quatro meses consumindo muito pouco carboidrato por dia, leia-se, muito pouco arroz, por exemplo. “Eu estava consumindo 80 gramas de arroz em uma refeição. As refeições são divididas, são de seis a sete refeições no dia, entre 150 gramas de carne, mais salada”, detalha.

Uma escapada na dieta pode atrasar o rendimento, e por isso a força de vontade precisa agir. “Tem os aniversários, que eu vou, mas passo vontade, não como. Todo dia você passa vontade de comer alguma coisa. Mas não tem jeito, é objetivo, ou você não vai alcançar aquilo que você quer.”, diz Angélica, que também cita o cansaço como algo frequente no seu dia a dia.

Há, porém, um momento de desforra. Angélica conta que um ou dois dias depois do torneio ela está livre para comer o que tem vontade e o que conseguir, é o “reload”. Um cardápio livre depois de meses de alimentação restrita tem seus efeitos. “Sabe quando você bebe, e no outro dia tem uma ressaca? A sensação é a mesma”, conta.

Estes são apenas exemplos para ilustrar como a rotina alimentar de um atleta é rígida. Ao logo de um período, quantidades, alimentos e outros fatores podem sofrer alterações.

Wellness

Não é só com a forma física que as competidoras da categoria Wellness precisam se preocupar durante as competições. Segundo Angélica, itens como o cabelo, a pele e o biquíni também são considerados.

Para melhor compreensão, é possível dizer que a categoria analisa a beleza do corpo de um modo geral, levando em conta critérios como volume muscular, definição e simetria. De modo geral, isso significa que uma parte do corpo não pode se sobrepor as outras, o conjunto precisa ser harmônico.  

A médica veterinária Barbara Cauton D´ávila, 28 anos, também competiu na categoria Wellness em sua carreira enquanto fisiculturista. Por cerca de um ano ela se dedicou aos treinos, a dieta, enfim, a preparação necessária, e também competiu. Participou de três torneios.

Barbara já frequenta academias há pelo menos 10 anos, e na maioria desse tempo seu objetivo foi o ganho de peso. Foi um amigo, profissional de educação física e proprietário de um estúdio em Guarapuava, que identificou o potencial de Barbara para as competições.

De início, ela relutou ao incentivo, ciente de algumas das mudanças drásticas a que teria que se submeter, como nos hábitos alimentares. Ela refletiu sobre a possibilidade, e por fim decidiu tentar. Entre a decisão e o primeiro campeonato se passaram três meses, e sua preparação se deu com suporte da equipe do estúdio do amigo, de Guarapuava.

Depois de passar por avaliações, Bárbara recebeu a dieta. No cardápio havia principalmente ovos, frango e batata doce. Ela conta que na primeira refeição da manhã consumia seis ovos cozidos. “No meio da manhã geralmente comia frango com batata doce. O que se repetia ao meio dia e à tarde; fim da tarde carne; após o treino tomava whey, e antes de dormir também era ovo”, lista sua rotina alimentar no início da preparação.

A dieta era pensada semanalmente, de acordo com os resultados obtidos, e levando em conta o tempo de treinamento até a competição. Ela conta que naquele tempo o carboidrato foi saindo da sua alimentação gradativamente, até que na última semana nem sal havia mais. Não foi um período fácil, ela relata.

Dias antes da competição outro elemento foi adicionado a receita: a água, cerca de 8 a 10 litros diários; quantidade que foi caindo gradativamente para cinco litros, três dias antes da competição; para um litro, no dia anterior; e para zero no dia da disputa, ocasião em que também não comeu nada. “É bem puxado”, confessa.

Havia também o treinamento: manhãs e tardes, treinamento aeróbico, noite, aeróbico e musculação. Ao todo, eram cerca de três horas diárias malhando.

Os três meses de dedicação retornaram em um segundo lugar na categoria Biquíni, no campeonato brasileiro promovido em 2014 pela Nabba, uma das entidades que organiza competições de fisiculturismo no Brasil.

Em seguida Bárbara foi para Florianópolis, onde passou a ser treinada por Rafael Bracca para dois campeonatos que seriam realizados no Paraná pela IFBB Brasil. Novos treinos, novas dietas. Bárbara ficou em quarto lugar na Copa Oeste, realizada em Cascavel, e em sexto na Copa Norte, em Maringá.

Barbara Cauton D’Avila

Vários fatores levaram Bárbara a jogar a desistir da carreira. Um deles foram indícios de que a decisão de alguns dos torneios que participou foram mais políticos do que técnicos.

Outro foi o custo benefício. Ela avalia que competir como fisiculturista exige um grande investimento financeiro e de tempo. Por conta da disciplina exigida, é preciso dedicar tempo aos treinos e ao descanso – o tempo de sono também é importante – e abrir mão de algumas coisas, como uma dieta mais flexível. Ela lembra de ir a confraternizações com uma marmita contendo frango e batata doce.

Não bastasse o autocontrole que precisava exercer, ela conta que nem sempre encontrava compreensão nos eventos que frequentava. “O pessoal passa com chocolate de propósito na tua frente. E isso é chato”.  

Também seria impossível conciliar a carreira de atleta com a de médica veterinária. Entre as competições e a profissão, Barbara preferiu se dedicar à sua clínica.

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