quarta-feira, maio 25, 2022

Amigo de crochê

Cerca de 10% dos bebês que nascem no Brasil são prematuros. O fato pode até preocupar, mas não é determinante. São grandes as chances de que eles tenham uma ótima recuperação, principalmente com a implantação de projetos de humanização nas UTIs Neonatais, como é o caso dos polvinhos de crochê

Por Cristina Vargas – Fotos: Helmuth Kühl

É impossível não se emocionar diante de um bebê recém-nascido, exibindo toda a sua doçura e o seu encantamento. Porém a emoção é ainda maior quando esse bebê é prematuro. Observá-lo tão pequeno, frágil, lutando para viver apesar das dificuldades que se apresentam, faz o coração transbordar de amor.

Nas unidades de terapia intensiva (UTIs) neonatais dos hospitais, também chamadas de centros de terapia intensiva (CTIs), as incubadoras abrigam os prematuros, que na maioria das vezes precisam de aparelhos, fios e tubos para serem monitorados. Apesar do baixo peso, da pele fina que deixa as veias aparentes e de toda a fragilidade do corpinho, os prematuros têm muita vontade de viver.

Dados do Ministério da Saúde (MS) apontam que no Brasil cerca de 10% dos bebês nascem antes do tempo. O fato de terem vindo ao mundo de forma prematura pode até preocupar, mas não é determinante. São grandes as chances de uma ótima recuperação. O avanço da medicina tem possibilitado que a grande maioria consiga se desenvolver e crescer com saúde.

O que também tem colaborado para essa estatística positiva é a Política Nacional de Humanização (PNH) incentivada pelo MS, chamada de HumanizaSUS, que tem feito os hospitais mudarem o tratamento com os pacientes, principalmente com as crianças.

Essa política nacional existe desde 2003 e foi criada para efetivar os princípios do SUS no cotidiano das práticas de atenção e gestão, qualificando a saúde pública no Brasil e incentivando trocas solidárias entre gestores, trabalhadores e usuários.

Como precisa estar presente e inserida em todas as políticas e programas do SUS, essa forma de humanizar o atendimento também é encontrada nas UTIs Neonatais. São projetos de humanização que não só acolhem melhor os bebês e seus pais, como também contribuem para que os prematuros reestabeleçam a saúde mais rapidamente.

Cuidado especial

Em Pato Branco, tanto o Hospital São Lucas quanto a Policlínica Pato Branco já implantaram projetos de humanização em seus centros de internações para prematuros e bebês que necessitam de cuidados especiais.

Lá eles ficam sob os cuidados e supervisão direta da equipe de enfermagem, 24 horas por dia, além de receberem também atendimento da equipe médica e de outros profissionais de saúde.

Para ser considerado um bebê prematuro, segundo o Ministério da Saúde, são observadas algumas características, como baixo peso e ter nascido antes da 37ª semana de gestação.

De acordo com a enfermeira Mayara Lazzarini Tocchetto, chefe da Divisão de Vigilância Epidemiológica, da Secretaria Municipal de Saúde de Pato Branco, nos últimos três anos nasceram 348 prematuros no município, de um total de 3.838 nascimentos. Em 2015 nasceram 1.330 bebês, sendo 120 prematuros; em 2016 foram 1.300, 140 prematuros; e em 2017 ocorreram 1.208 nascimentos, com 88 prematuros.

Humanização

Silvana Turatto Longhi, gerente técnica do Hospital São Lucas, e Thaís Zanella, coordenadora de enfermagem da CTI Neonatal e Pediátrica, explicaram que desde o ano passado, conforme o protocolo do Hospital Amigo da Criança – título concedido pela Unicef e pelo Ministério da Saúde, que neste ano completa 15 anos –, é permitida a entrada das mães e dos pais na CTI Neonatal, com acesso livre 24 horas por dia.

Nas quartas-feiras, das 16h às 16h30, é permitida a entrada dos avós paternos e maternos, e aos sábados à tarde é liberada a entrada dos irmãos, sem restrição de idade. “Mas sempre orientamos os pais que se o irmão não está bem de saúde, que não o leve à CTI para ver o bebê, porque é uma área hospitalar e pode haver risco”, frisaram.

Polvinhos, com carinho

Um dos projetos de humanização adotados pelo hospital é a implantação de polvos de crochê dentro das incubadoras, que acabam dando segurança e conforto aos recém-nascidos. Os tentáculos dos polvos fazem o papel do cordão umbilical. Isso baixa a frequência cardíaca e deixa os bebês mais calmos, com a sensação de que ainda estão no ventre. A iniciativa é inspirada na criação de um hospital da Dinamarca, que passou a utilizar o chamado Projeto Octo em 2013.

A Policlínica de Pato Branco também já adotou essa técnica e utiliza os polvinhos no tratamento de prematuros. De acordo com a enfermeira Vanessa de Lima, coordenadora da UTI Neonatal e Pediátrica, o projeto foi implantado no fim de 2016, em período de teste, mas começou a ser realizado de forma permanente em maio de 2017.

Vanessa explicou que os polvos são confeccionados em crochê, por um grupo de voluntárias. Elas utilizam linhas de algodão 100% para fazer os bichinhos, que possuem de seis a oito tentáculos, com 22 cm de comprimento.

“O polvo remete o bebê ao útero materno e isso o deixa mais relaxado, melhora a resposta ao tratamento e fortalece o vínculo com a mãe”, destacou Vanessa. Devido aos tentáculos, que ficam próximos as mãos dos bebês, o bichinho de crochê ainda evita que ele acabe puxando sondas e fios de equipamentos que o ajudam a sobreviver.

Na Policlínica o projeto chama-se Meu Querido Polvo e quem faz os polvinhos são as voluntárias do projeto Espera Feliz, que trabalha com mães que têm bebês internados na UTI Neonatal e é coordenado por uma assistente social.

No Hospital São Lucas o nome do projeto é Polvo Solidário e eles são confeccionados também por voluntárias de Pato Branco. “Há também um grupo de voluntárias de Dois Vizinhos que faz os polvinhos e mandam para nós, aqui no hospital”, explicou Thaís Zanella.

Outros projetos

Dentre os projetos de humanização existentes no Hospital São Lucas há também a Hora do Soninho, implantado há cerca de 7 anos. “Às 10h, quando acabam todos os procedimentos de rotina, a gente liga o som, fecha as cortinas e apaga todas as luzes e ninguém mais mexe nos bebês da CTI. Assim eles têm a hora do soninho, que os tranquiliza bastante e acabam passando o dia mais serenos. Porque para crianças e bebês, estar na CTI causa bastante medo, principalmente pela manhã, quando são coletados exames, também tem o banho e a rotina dos médicos”, explicou Thaís.

O método Canguru também é utilizado no São Lucas. Segundo o Ministério da Saúde, a iniciativa – que integra a Atenção Humanizada ao Recém-Nascido de Baixo Peso – busca melhorar a qualidade da atenção prestada à gestante, ao recém-nascido e sua família.

O método promove, a partir de uma abordagem humanizada e segura, o contato pele a pele (posição canguru) precoce entre a mãe ou o pai e o bebê, de forma gradual e progressiva, favorecendo vínculo afetivo, estabilidade térmica, estímulo à amamentação e o desenvolvimento do bebê.

Na Policlínica Pato Branco ainda há outros projetos voluntários que envolvem a questão espiritual. “A humanização é uma tendência. Temos grupos de diversas religiões que fazem orações, respeitando a cultura de cada mãezinha. Também há o projeto de Reiki, que estabelece a cura através da imposição das mãos. Conforme a autorização das mães, os voluntários aplicam as terapias alternativas, e isso tem auxiliado bastante na recuperação dos bebês”, contou Vanessa.

Mesmo que as pesquisas sobre os benefícios que a humanização na Saúde pode trazer ao paciente ainda estejam em andamento, já é possível observá-los nos hospitais. Os profissionais destacam que tem sido grande o número de pacientes que se recuperaram devido aos projetos, principalmente os bebês prematuros.

Tanto Thaís Zanella, coordenadora de enfermagem da CTI Neonatal e Pediátrica do Hospital São Lucas, quanto Vanessa de Lima, coordenadora da UTI Neonatal e Pediátrica da Policlínica Pato Branco, afirmaram que cerca de 90% dos bebês submetidos aos projetos de humanização apresentam melhora significativa.

Rafael foi um milagre

Pequeno Rafael e a enfermeira

Assim como em anos anteriores, em 2018 nasceram prematuros em Pato Branco, em decorrência de inúmeras situações. Um exemplo é o Rafael, internado na CTI Neonatal do Hospital São Lucas. Ele nasceu no dia 14 de janeiro, com 28 semanas de gestação, pesando 1.420 kg.

De acordo com Thaís Zanella, coordenadora de enfermagem da CTI Neonatal do hospital, Rafael é um bebê muito valente, que tem lutado muito para ficar bem. “De um modo geral a recuperação é demorada, pode levar um, dois, até três meses. A mãe dele vem todos os dias visita-lo, a gente vê o amor que ela tem por ele. Acompanhamos todo o processo junto com os pais”, contou.

A principal dificuldade do Rafael é pulmonar. Para ele receber alta precisa atingir no mínimo 1.700kg e começar a mamar no peito. Seus pais são Jaqueline Charneski Turra e Ricardo Tavares Butrinoswki, de Chopinzinho.

Jaqueline contou que vai todos os dias ao hospital ver seu bebê, umas três, quatro vezes ao dia. Como mora em outra cidade, tem ficado na casa de uma irmã que mora em Pato Branco.

“É triste deixar ele aqui (hospital), mas sei que está em boas mãos”, disse ela, destacando a política de humanização nas UTIs como fator importante no processo de recuperação dos bebês.

Jaqueline ressaltou que Rafael é um milagre em sua vida. Ela não podia engravidar porque tem uma doença chamada hipotireoidismo. Em decorrência disso, teve vários problemas de saúde, como descolamento da placenta no começo da gestação, e precisou ficar de repouso absoluto.

Precocemente ela começou a sentir as dores do parto, os médicos tentaram inibir o nascimento prematuro, mas Rafael quis nascer assim mesmo, e veio ao mundo de parto natural.

Antes de ter o bebê, Jaqueline trabalhava em uma creche, mas precisou abandonar o serviço para poder ficar de repouso durante a gravidez. Ela pertence a uma família grande, tem três irmãos e duas irmãs. Todos estão ansiosos para conhecer Rafael, pois além dela e do marido, apenas os avós – sua mãe e seus sogros – puderam ver o bebê. “Vai ser uma festa”, destacou, referindo-se ao dia em que Rafael receber alta do hospital.

“Os projetos têm ajudado muito”

Foi por causa de uma infecção urinária durante a gravidez que Luiz Miguel nasceu antes do tempo. Sua mãe Raquel Rovaris e seu pai Elizandro Bottega contam que a gravidez transcorria normalmente até que por volta da 25ª semana de gestação Raquel teve sangramento, foi para o hospital, ficou 15 dias internada, tentando inibir o parto prematuro, até quanto era possível.

Durante o processo o médico descobriu que ela teve infecção urinária, o que ocasionou a antecipação do parto. A bolsa acabou se rompendo e Luiz Miguel nasceu no dia 28 de dezembro, através de uma cesariana de emergência, na 27ª semana de gestação, pesando menos de 1kg, ou seja, 929 gramas.

“O Luiz Miguel é um bebezinho que nunca precisou de muito oxigênio. Logo que nasceu ficou na ventilação, mas agora já suspendemos. É super tranquilo, aceitou bem a dieta que está recebendo. Ainda não foi para o seio da mãe, mas já aplicamos nele o método canguru, que permite o contato direto do corpo da mãe com o bebê. Para isso ele precisou sair um pouco da incubadora. Foi no colo da mãe e teve o contato pele a pele”, explicou Thaís Zanella, coordenadora de enfermagem da CTI Neonatal do Hospital São Lucas, onde Luiz Miguel está internado.

Ele é o primeiro filho do casal, que mora em São Lourenço do Oeste (SC). A mãe explicou que vai ao hospital todos os dias, em Pato Branco, e retorna para a sua cidade. “Vou sempre à tarde. Enquanto não estou amamentando não posso ficar na Casa de Apoio do hospital”, destacou.

A Casa de Apoio é um espaço disponível para mães que estejam amamentando. É um quarto, situado na CTI Neonatal, onde elas recebem alimentação e roupas de cama, podendo permanecer o tempo que for necessário, sem nenhum custo.

Para o uso do espaço, além de precisar que haja oferta de vaga, a mãe deve levar roupas, toalha de banho e material de higiene pessoal. Como não está internada – apenas o bebê – ela pode sair do hospital quando quiser desde que respeite e siga os horários de amamentação e informe aos funcionários sobre sua saída e retorno.

Raquel contou que é professora da Rede Estadual, mas com a chegada de Luiz Miguel está em período de licença maternidade. Para ela, a humanização nos hospitais tem ajudado bastante o desenvolvimento dos bebês, principalmente os prematuros. “Eles saíram da barriga, nem tinham se formado direito. Os projetos têm ajudado muito”, comentou.

Para Raquel, que ainda não teve muitas oportunidades de pegar seu bebê no colo, a experiência de realizar o método canguru foi maravilhosa. “Foi muito bom. Só que não dá para fazer sempre. Todas as vezes que eu pego o Luiz Miguel, meu Deus, parece que ele sente que é a mãe dele que está com ele, porque é mesmo colo de mãe. Isso ajuda muito na sua recuperação”, ressaltou.

Ela contou que toda a família está na expectativa de conhecer o Luiz. “A minha cunhada e o meu irmão, não veem a hora. Só sabem o que a gente conta sobre ele. Já a minha mãe, o meu pai, a mãe do Elizandro e a bisa já foram conhecê-lo”.

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