quinta-feira, maio 26, 2022

Que venham os 100 anos

Por Cristiane Sabadin Tomasi

A velhice não é mais considerada um “bicho de sete cabeças”. Hoje, os 50 são os novos 40, os 40 os novos 30 e a contagem segue. Nessa onda de viver mais e melhor, poucas pessoas que já passaram dos 60 se quer admitem ser chamadas de “idosos”. E se perguntarmos para um grupo de pessoas se alguém aí quer chegar aos 100 anos, certamente a maioria dirá que sim. Mas há uma ressalva importante: a chegada centenária deve ser acompanhada de uma vida saudável.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), idoso é todo indivíduo com 60 anos ou mais. E melhor do que comemorar aniversários é festejar o bem-estar.

Segundo a médica geriatra Giana Daclê Telles, a expectativa de vida nos últimos tempos é uma dádiva. “Viver mais sim, porém envelhecer com dignidade, vivendo esta conquista e usufruir com saúde e qualidade de vida. O geriatra busca orientar pacientes e familiares a um envelhecimento saudável, valorizando sua independência física e mental”, explicou.

De fato, o processo de envelhecimento, como evento biológico, inicia logo após o nascimento. No ponto de visto geriátrico, a velhice é um processo que culmina com a perda progressiva da capacidade de adaptação e do metabolismo, deixando as pessoas mais vulneráveis. Conforme a geriatra é ao fim da terceira década de vida que já se percebem alterações funcionais e estruturais, e, a partir da quarta década há perda aproximadamente de 1% das funções a cada ano nos diferentes sistemas orgânicos.

Desafio pela frente

Em 2050, o Brasil deverá ter a 6ª maior população de idosos no mundo, e este rápido envelhecimento populacional representa grandes investimentos e desafios. O caminho para países “amigos da terceira idade” é desenvolver uma infraestrutura para atender as necessidades assistenciais em todos os níveis. Vale reforçar que os idosos de 2050, são hoje a força de trabalho. A grande questão é: como essa parcela da população chegará lá na frente com qualidade de vida. Por isso, o foco deve ser a gestão da saúde.

Com a idade, a presença de algumas doenças crônicas é comum, entre elas, a hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus, depressão, osteoartrose e neoplasias; e não há muita saída: na caminhada do envelhecimento saudável está a prevenção.

“A prevenção tem como pilar: a imunização e alguns tipos de vacinas para idosos como para gripe, pneumonias por pneumococos e herpes zoster. A manutenção e promoção de saúde com cuidados básicos contra a obesidade, tabagismo, alcoolismo, sedentarismo, prevenção contra quedas e doenças sexualmente transmissíveis. Além disso, é papel da Medicina orientar para o controle da pressão arterial, glicemia, colesterol, AVC, doenças circulatórias, cardíacas e demências”, diz Giana

Comida boa

Dieta não faz milagre, mas uma reeducação alimentar, com mudanças de hábitos, pode ser um santo remédio para a longevidade. Segundo a geriatra, um exemplo disto é a dieta do mediterrâneo, tida como referência alimentar.

O que prevê a dieta: consumo de pouca carne e muitos vegetais, menos grãos e derivados refinados, e mais alimentos com baixo índice glicêmico (cereais integrais); uso de gorduras boas (azeite de oliva, peixes, frutas secas oleaginosas, tais como nozes, amêndoas, avelãs); uso de especiarias e ervas, ao invés do sal; dar preferência a pequenas e simples refeições ao longo do dia; variedade de alimentos durante a semana; pelo menos um litro e meio de água todos os dias. Beber frequentemente, e em pequenas quantidades. Evitar refrigerantes e bebidas doces. Consumo de doces com moderação (duas vezes por semana).

Mexer o corpo

Aliado à alimentação saudável, a atividade física é um dos pilares para envelhecer com saúde. Entre os benefícios de deixar o sedentarismo de lado está o fortalecimento da massa muscular e óssea, a melhora do equilíbrio, evitar quedas e ainda garantir boa memória e bom humor.

Mas na terceira idade, a escolha do exercício é fundamental. Segundo a geriatra, se deve associar uma atividade aeróbica como caminhar, dança, hidroginástica, natação, com musculação ou pilates. “O mínimo necessário são 150 minutos de atividades semanais. Mas tudo isso deve respeitar a aptidão e afinidade do paciente, sempre acompanhado de uma avaliação médica prévia.”

Mais amor, por favor

Conviver em harmonia é fonte de saúde. A diversidade de atividades que o ser humano faz durante a vida, como ler, estudar, dançar, trabalhar manuais, e até mesmo os encontros familiares e entre amigos, são fundamentais para prevenir doenças, principalmente a depressão. “Por isso, abrace, beije, manifeste suas emoções. Se desafie constantemente, sempre esteja disposto a aprender a escutar”, enfatizou a médica Giana.

“Com saúde a vida é melhor”

 Se antes, lá pelas 40 e poucos anos, seu Arcedino de Fraga nem cogitava fazer exercícios físicos, hoje, no auge dos 74, não abre mão de uma rotina de atividades e alimentação saudável. Aposentando há pouco tempo, trabalhou a vida toda na roça e por mais de quatro décadas foi funcionário da empresa Atlas Eletrodomésticos, em Pato Branco.

“Eu trabalhei a vida inteira, comecei aos 10 anos. Tinha que trabalhar para criar os filhos e achava que só isso já era cuidar da saúde. Nunca fiz exercício”, contou à reportagem da Vanilla. Só que a falta de cuidados fez seu Arcedino sentir o peso da idade na fase adulta. “Com 40 anos me sentia acabado, achava que não chegava aos 60. Me sentia cansado e sem disposição.”

Foi a partir dos 60 que ele resolveu dar uma guinada na vida. Na terceira idade decidiu que era hora de pensar na saúde e se mexer. “Comecei a caminhar quase que diariamente e a me cuidar na comida. Hoje, eu me alimento melhor. Não encho mais a barriga até passar mal (risos). O segredo é sempre ficar com um pouco de vontade de comer mais, e tomar muita água.”

O exercício também entrou na vida de seu Arcedino – e veio para ficar. “Faço caminhadas e alongamentos”. E há outra companhia que ele não fica sem: a música. “Toco gaita e isso me ajuda muito. Participo do grupo de idosos e lá animo as festas e encontros com as cantorias.”

Para quem optou em mudar de vida depois dos 60, a máxima de que nunca é tarde para começar é mais do que verdadeira. “Eu fiz isso, pensei na saúde aos 60 e vale a pena. Se você tiver 70 anos, comece a pensar hoje. A nossa saúde depende de nós, da nossa cabeça e corpo. Agora não quero mais morrer. Antes eu tinha medo de chegar na terceira idade. Agora quero passar dos 100. Com saúde a vida é melhor.”

Nas academias, ruas e praças

O aumento da população idosa arrastou os alunos com mais de 60 anos para as academias. Nunca se viu tanta gente mais velha fazendo exercício. Seja dentro dos ambientes especializados, com orientação de profissionais, ou mesmo pelas ruas, praças e parques, lá estão os senhores e senhoras que dão inveja a muito marmanjo por aí.

Em Pato Branco, o personal trainer, formado em Educação Física, Maycon Diego da Rosa, disse que o motivo para tamanha procura é simples: atividade física está diretamente ligada à longevidade e saúde. E pensando nisso, o investimento neste público está cada vez maior. Hoje, a maioria delas tem nos idosos o carro-chefe do trabalho.

“Este público já vem com uma consciência sobre seu corpo e saúde. Os idosos servem muito como exemplo dentro e fora das academias. Quem treina ao lado de um senhor ou senhora vê a disposição e a vontade de fazer o movimento e se inspira. Sem falar que eles esbanjam bom humor; todos os dias é uma alegria e isso contagia o ambiente.”

E o treino?

O treino é algo bastante individual, e independente da idade, deve ser definido junto com o profissional. Na prática, quem tem mais de 60 anos não tem nenhuma contraindicação e pode fazer a atividade que quiser – principalmente se não tiver lesão ou problemas de saúde. Caso existam patologias ou limitações, os alunos da terceira idade precisam seguir as orientações e claro, fazer avaliação médica antes de se mexer.

RETRANCA

Arquitetura inclusiva

Diversos hábitos e atitudes podem contribuir diretamente para um envelhecimento saudável. No mesmo patamar de importância da saúde e exercício físico está o papel da Arquitetura.

Na opinião da arquiteta e urbanista Camila Picolo, de Pato Branco, neste sentido, as construções devem focar em projetos que buscam qualidade de vida e garantam a autonomia dos idosos, evitando, inclusive, a dependência de terceiros. O velho “conseguir se virar sozinho, com qualidade de vida”. Este é o caminho da arquitetura voltado à terceira idade. Confira a entrevista com a profissional:

Quais os caminhos arquitetônicos que podem ajudar a amenizar a chegada da idade?

Como recomendações genéricas para adaptação da residência ao usuário idoso, podemos citar: 

Revestimento do chão: os idosos costumam sofrer quedas quando a residência não possui as devidas adaptações. Isso pode agravar um quadro de doença ou até mesmo danificar alguma parte do corpo, já que os ossos se encontram mais frágeis. A melhor forma de prevenir acidentes é instalando pisos antiderrapantes, construindo superfícies mais firmes para o deslocamento dos idosos. Dependendo da forma como são usadas, as peças conseguem aliar beleza e segurança.

Acesso aos cômodos da casa: é recomendado evitar escadas, substituindo, se possível, degraus por rampas, tornando o lar mais seguro. Caso seja necessário instalar escadas para ligar dois pavimentos, devem-se evitar principalmente as longas ou cheias de curvas e sempre adotar o uso de corrimãos.

Cuidados com o banheiro: Um momento que costuma trazer apreensão aos demais moradores da casa é quando o idoso vai ao banheiro, trazendo o medo de um desmaio, escorregão ou algum outro problema. Algumas medidas minimizam tal quadro, como: a preferência por pisos resistentes ao escorregamento, ou adaptação de adesivos antiderrapantes ao lado do vaso sanitário, além da instalação de barras de apoio. A pia deve ser resistente e firme, já que ela também é comumente utilizada como apoio.

Dentro do box: a porta do box deve ser de correr, para facilitar a abertura em caso de queda. Além disso, é importante instalar barras para apoio e, se necessário, colocar ali dentro um assento, sempre fixo. Deve-se ainda estar sempre atento ao escoamento no ralo, já que o acúmulo de água pode ocasionar deslizamentos. É importante sempre ter uma cópia da chave do banheiro ao alcance de todos. Outra dica interessante é ter luz noturna tênue e permanente no corredor que une banheiro ao dormitório, uma vez que esse trajeto é usual e um dos campeões de acidentes.

Mobiliário para idosos: para evitar quedas ou outros perigos envolvendo os ambientes residenciais, é necessário adotar móveis sem quina e que sejam fixos no chão ou parede. A medida ajuda a evitar ferimentos caso o idoso resolva buscar equilíbrio no item mobiliário. Deve-se também armazenar os objetos de uso em lugares sob medida, ou seja, nem muito alto e nem muito baixo. Caso o prédio ou a casa conte com uma área externa, o ideal é um local onde se possa caminhar e, se houver grama, ela não deve ser separada por muretinhas.

Vanilla – Em residências, por exemplo, ou mesmo instituições públicas, como tornar o ambiente mais acessível aos idosos?

Camila – Numa conceituação mais técnica, o termo acessibilidade é definido pela NBR 9050 como “a possibilidade e condição de alcance, percepção e entendimento para a utilização com segurança e autonomia de edificações, espaço, mobiliário, equipamento urbano e elementos”. Habitações unifamiliares, moradias coletivas, edificações comerciais, edificações de uso público e seus respectivos arredores urbanos devem ser planejados de modo que o maior número possível de pessoas possa se deslocar com segurança e participar efetivamente das atividades. 

Na prática, essas ideias seriam aplicadas à acessibilidade dos idosos com:

• Superfícies suaves nas entradas, sem escadas

• Portas e corredores internos mais largos

• Alavancas para abertura de porta; nada de botões redondos

• Botões nos painéis de controle que podem ser distinguidos pelo tato

• Placas de instruções com tamanho de letra adequado a quem não enxerga bem

• Uso de símbolos (ícones) ao lado das etiquetas com texto

• Linhas de visão e texturas bem demarcadas ao longo dos caminhos

• Rampa de acesso dentro das piscinas, para crianças, animais ou pessoas em dificuldade

Vanilla – Seguindo este pensamento, como os profissionais da área podem ajudar a planejar cidades mais “amigas dos idosos”?

Camila – Estar ao ar livre, por exemplo, favorece o bem-estar físico e mental, refletindo positivamente na saúde e na qualidade de vida, notadamente dos idosos.A lista de providências a serem tomadas para que uma cidade seja mais amigável aos idosos inclui desde o silêncio na madrugada, a acessibilidade nas calçadas e a prédios públicos, criação de áreas verdes de descanso, além de itens que envolvem questões de comportamento respeitoso e inclusão social.

No aspecto que cabe à Arquitetura e Urbanismo, uma “cidade amiga do idoso” é acessível, caminhável e convidativa para andar e permanecer no espaço público, o que é positivo para todas as faixas etárias.Embora a legislação preveja regras para as calçadas, na prática elas costumam ter obstáculos: buracos, degraus e desníveis, dificultando a locomoção e causando acidentes. Ainda relacionado à mobilidade, os semáforos teriam que prever mais tempo para travessia dos pedestres, bem como a utilização de tecnologias de acessibilidade, como pisos táteis, faixas de pedestres na mesma altura das calçadas e rampas, dentro de uma lógica de design universal.

Há necessidade, também, de boa iluminação e segurança para garantir a presença dos idosos nas ruas, banheiros públicos acessíveis, fornecimento de água limpa e ar puro.Outro fator fundamental é a instalação, em local adequado, de mobiliário urbano nas praças: bancos, mesas de jogos, academias da terceira idade, também são itens que trazem o idoso para fora de casa com segurança e qualidade de vida.

Projeto Cidade Amiga do Idoso

O município de Pato Branco assinou termo de compromisso em outubro de 2017 com a OMS (Organização Mundial da Saúde), em busca da certificação como “Cidade Amiga do Idoso”. O projeto é articulado pelos clubes de Rotary, por intermédio da deputada Leandre Dal Ponte, com apoio da prefeitura.

Entre as ações que despertaram o interesse da OMS em Pato Branco se destacam as oficinas realizadas no Largo da Liberdade, Centro Aquático, CEU das Artes e do Esporte, Centro Dia, Cras, além de outras iniciativas desenvolvidas voltadas a pessoa da terceira idade. Em 2017, Pato Branco foi reconhecido como o 11º melhor município para envelhecer no país, segundo estudo publicado pelo site da Exame.com – considerando cidades com população entre 50 e 100 mil habitantes.

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