quinta-feira, maio 26, 2022

O cristal púrpura

Um mineral formado há milhões de anos deve se transformar em uma importante fonte renda para agricultores de Chopinzinho, com a regulamentação da extração de ametista no município (vou melhorar)    

Por Nelson da Luz Junior – Fotos: Helmuth Kühl


Depois de atravessarmos uma lavoura de soja, o agricultor Edival Azevedo Leite, mais conhecido como Divo, nos leva até a entrada de três minas de ametista que estão em sua propriedade rural, na comunidade de Passa Quatro, interior de Chopinzinho. Incrustadas em um morro, as minas parecem bocas ameaçadoras, de onde saem fios de água formados por um gotejamento constante, proveniente do teto da caverna.

É como ver a demonstração de uma aula de ciências. Essa é a água que penetrou na terra após a chuva, e que vai escorrer lentamente até chegar a um lençol freático. Dentro da mina a lição é de geologia, da história da formação do chão onde pisamos.

Divo adentra a escuridão da mina, que se estende por cerca de 40 metros dentro do morro. Ligeiramente arqueados caminhamos pela galeria cinzenta de basalto. Ainda perto da entrada, o agricultor aponta para um ponto esbranquiçado na parede, que ao ser iluminado pela lanterna mostra sua forma cristalizada, oscilando entre o transparente e o lilás.  

Edival Azevedo Leite

 

É um geodo, preenchido por ametistas. Ao longo da mina várias dessas formações são encontradas, e mesmo fora das galerias é possível encontrar indícios de sua presença no solo. Nas estradas rurais e no meio das lavouras, cristais de vários tamanhos literalmente brotam do chão em pontos onde a terra foi remexida. São resquícios da abundância de um ativo que poderá se tornar muito significativo para a economia de Chopinzinho.

A extração e o comércio de ametistas no município remontam a metade do século XX. Porém, foi apenas em novembro de 2017 que a Cooperativa de Pedras Ametistas do Sudoeste do Paraná (Copasp) recebeu a permissão de Lavra Garimpeira, expedida pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), e que regulamenta a exploração do mineral no município. A autorização foi a primeira expedida para uma localidade no Paraná, e a segunda da região Sul do Brasil.

Divo é um dos cerca de 25 membros ativos da cooperativa, fundada em meados de 2005 com o intuito de legitimar e formalizar a produtividade local. A lavra garimpeira vem sendo pleiteada desde as primeiras movimentações da cooperativa, e foi viabilizada com o suporte do governo municipal.

Assim como a grande maioria dos cooperados, Divo e seus irmãos esperam encontrar na ametista uma fonte de renda complementar ao cultivo de grãos e a produção de leite. Ele e seus irmãos são mineradores recentes, começaram a extrair por volta de 2003. Alguns anos depois, a atividade foi interrompida no município por falta de regulamentação.  

O agricultor lembra, porém, dos tempos em que extração não era feita com marteletes, talhadeiras, marretas e pólvora caseira; mas com pás.

Pedras brilhantes

A propriedade que hoje pertence a Divo já pertenceu a família de Donival Pedroso de Lara, 52 anos, membro da quarta geração de garimpeiros de sua linhagem. Nas terras ainda existem algumas valas e depressões, cicatrizes de minas exploradas nas décadas de 1970 e 1980. Seus antepassados foram alguns dos primeiros comerciantes de ametista que se tem notícia em Chopizinho.

O bisavô de Donival encontrou minérios ao escavar a terra para abrir uma estrada. Ele conta que naquela época o material era vendido no Rio Grande do Sul. De Chopinzinho, as pedras iam para Iraí, depois para Soledade e em seguida para a exportação.

Eram tempos de pouco conhecimento, pouca tecnologia e menos parâmetros de qualidade e preços. A extração era feita no braço, com ferramentas rudimentares, cavando de cima para baixo, diferente de hoje onde as minas são escavadas no morro, na “horizontal”, por assim dizer.

Há uma outra história que circula pelas comunidades, sobre como os nativos se deram conta de que as pedras poderiam ter valor. A queimada era um dos métodos utilizados para transformar áreas de mato em espaços pasto ou lavoura. Depois do fogo extinto, as abundantes pedras transparentes na superfície ficavam amarelas, brilhantes. São os citrinos, o nome que se dá ao quartzo amarelo, seja natural ou como resultado de um processo de aquecimento.

Hoje, Donival vive na comunidade de Quilômetro Oito, e já planeja outros meios de capitalizar com seu garimpo. Um deles é ingressar no mercado do ecoturismo, estruturando sua propriedade para receber interessados em conhecer as minas e a extração do mineral.

Mobilizados pelo recente aval para a exploração, a cooperativa alinhada com o poder público municipal atua agora em projetos e articulações para legalizar, estruturar, capacitar, contratar técnicos especializados, planejar meios de agregar valor a produtividade local e atrair a atenção do mercado para Chopinzinho.  

Donival Pedroso de Lara

Mercado
É provável que inicialmente a maior parte da produção seja vendida bruta, assim como fazem Donival e Divo. Ou seja, o geodo é vendido inteiro para beneficiamento. Até porque, é assim que a China, a Itália e a Alemanha, os principais compradores de ametista, preferem adquirir a matéria prima.

Quem explica é Karin Gnoatto, diretora do departamento municipal de turismo de Chopinzinho. Segundo ela, o mercado interno de pedras semipreciosas não absorve nem 2% da produção.

Apesar disso, ela explica que não está descartada a possibilidade de beneficiar o mineral no município, e capacitar mão de obra para lapidação. “Apesar de internamente não haver tanto consumo, há uma fatia do mercado que pode ser explorada, tanto para joias, semi – joias, ou outras formas”, explica.

De modo geral, a ametista é utilizada para decoração e fabricação de joias. Porém, até os rejeitos da extração também tem valor comercial. Por exemplo, o basalto retirado das minas pode ser usado para pavimentação; a ágata, outra variedade do quartzo encontrada no geodo também é utilizada para decoração e artesanato.

O preço da ametista no mercado depende de vários fatores, como tamanho, cor e pureza. As mais puras e de coloração mais intensa costumam virar joias. Donival calcula que o quilo de uma peça bruta pode chegar a R$ 7,00 dólares. Beneficiado, o preço é outro, e quando lapidado o cálculo passa a ser por quilates.

Vasculhar lojas de decoração na internet dá uma noção de quanto pode render a atividade. Uma drusa de 300 gramas pode custar mais de R$ 50,00 reais. Já as chamadas grutas, ou capelas, que são basicamente geodos abertos, podem custam, R$ 200, R$ 800 ou até milhares de reais.

Judite Fornari possui uma loja no centro de Chopinzinho onde vende artesanato criado a partir da ametista, do quartzo e de outros derivados da mineração no município. No mostruário há pequenos exemplares do mineral, árvores, figuras religiosas, chaveiros e outras peças decorativas de modo geral.

Apesar do número relativamente grande de produtos, o que ela tem hoje são sobras. Aberta em 2006, o acervo parou de ser reposto por conta da falta de regulamentação que parou as minas. Com a recente liberação da lavra garimpeira, ela já vislumbra maiores faturamentos.

A própria repercussão na mídia da regulamentação já lhe rendeu frutos. “Eu havia parado de divulgar, e com a crise econômica, as vendas diminuíram muito. Mas depois da reportagem da RPC (afiliada da Rede Globo no Paraná), toda semana vem gente comprar, inclusive de fora”, comentou.

Potencial

Judite Fornari

A lavra garimpeira regulamentada pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) legaliza a exploração de uma área de 2.000 hectares, distribuídos principalmente nas comunidades de Quilômetro Oito, São Miguel, Ponte Alta, Passa Quatro e Alto Bugrinho.

Mas o potencial de exploração pode ser ainda maior. Abaixo dos vários morros na área rural de Chopinzinho deve haver muitas ametistas, analisa Karin.

E a expectativa é de que os geodos possam ser cada vez maiores. Divo conta que o peso médio dos geodos encontrados no seu garimpo vai de 60 a 100 Kg. Porém, ele acredita que vai encontrar peças maiores a medida que a profundidade da mina for aumentando. Em sua propriedade, a ocorrência de ametistas se estende por uma área de cerca de 15 hectares.

Donival já viu seu pai retirar um geodo de aproximadamente 600 Kg de uma mina na comunidade de Passa Quatro. Na sua propriedade, no Quilômetro Oito, o maior tinha cerca de 400 Kg.

Muito do que se sabe hoje sobre a extração de ametista em Chopinzinho vem de um intercâmbio com a cidade gaúcha de Ametista do Sul. A diretora de turismo lembra que os primeiríssimos garimpeiros no município eram migrantes do Rio Grande do Sul.

Durante os últimos cinquenta anos, muitos chopinzinhenses visitaram o estado, seja como os avós de Donival, vislumbrando mercado, seja em comitivas em busca de conhecimento.

Ametista do Sul se autointitula a “Capital Mundial da Pedra Ametista”, e a exploração por lá é feita a mais de 50 anos. Karin diz que da experiência gaúcha foram pinçados exemplos das consequências da mineração ao longo prazo, desde econômicas, ambientais e até de saúde pública. A diretora conta que os dados devem ser levados em conta para o planejamento da atividade em Chopinzinho.

E o turismo deve ser um setor fomentado, adianta Karin. Ela conta que o município está planejando criar um roteiro turístico, aproveitando as diversas potencialidades locais, sobretudo no turismo rural.

Recentemente, as minas de ametista inoperantes no Rio Grande do Sul vêm sendo usadas para descanso de vinhos e queijos, para demonstrações do processo de mineração e até sendo transformadas em hotéis.


No princípio era o ar

A ametista é a variedade de cor roxa de um mineral abundante, o quartzo, que é transparente em sua forma mais tradicional. Os exemplares encontrados em Chopinzinho têm cerca de 120 milhões de anos de idade, como explica a técnica em agrimensura pela UTFPR de Pato Branco, e geóloga pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Mariany Brasil.


Ela conta que, para entender a formação do mineral, é necessário falar sobre o contexto geológico da região. O Sudoeste está localizado no chamado Terceiro Planalto Paranaense, formado por uma sucessão gradativa de derrames vulcânicos, ou seja, de lava vulcânica.

Mariany explica que conforme os derrames foram acontecendo, a rocha vai esfriando, e durante esse resfriamento há o escape de vapores. “Desse escape surgem bolsões de ar no meio dessa rocha resfriando. São nesses bolsões que a ametista vai cristalizar”, diz a especialista. Ou seja, os geodos são resultado dessas bolsas de ar.

O processo de cristalização acontece de forma bastante lenta, e apesar de 120 milhões de anos serem muito tempo para um ser humano, do ponto de vista geológico a formação é recente.

A geóloga explica ainda que a cor roxa é consequência da presença de óxido de ferro na composição do mineral. Quanto mais óxido de ferro, mais intensa é a cor. Na natureza o quartzo também pode ser encontrado em outras cores, como o amarelo. Nesse caso, o mineral se chama citrino.


Por ser mais utilizado na decoração e na fabricação de joias, o mineral costuma passar por beneficiamentos para ganhar maior valor de mercado, como por exemplo, a lapidação ou a exposição a altas temperaturas, que deixam a coloração amarela.

Mariany analisa que na região de Chopinzinho se formaram muitos bolsões de ar durante o processo de derramamento vulcânico, o que justifica a abundância de jazidas. Por também estarem no Terceiro Planalto do Paraná, outros municípios do Sudoeste também devem possuir ametistas.


Ela cita a tese de doutorado pela Universidade de São Paulo (USP), assinada por Pedro Luiz Juchem, que classifica as ametistas do Paraná em três tipos, de acordo com fatores como variações de cor. As de Chopinzinho fazem parte do Grupo Passa Quatro, também encontradas em municípios como Quedas do Iguaçu e Laranjeiras do Sul; As do Grupo Marquinho, encontradas em municípios como Clevelândia e Coronel Vivida; e as do Grupo Honório Serpa, encontradas no município homônimo e também com ocorrências em Mangueirinha, Clevelândia e Palmas.

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