quinta-feira, maio 26, 2022

Rápidos no raciocínio

Ele parece não ter solução. Mas acredite, há crianças que conseguem resolver o Cubo Mágico em segundos. O que poderia ser apenas um brinquedo virou um esporte, onde os jogadores desafiam suas mentes em busca de soluções cada vez mais rápidas

Por Nelson da Luz Junior – Fotos: Helmuth Kühl


Para muita gente o cubo mágico é apenas um emaranhado de quadradinhos giratórios coloridos, impossível de resolver. Não para Matias Machado, um estudante de nove anos que manuseia o cubo como uma facilidade considerável.

O garoto tinha só seis anos de idade quando pegou um desses brinquedos pela primeira vez, quando apenas girava as peças sem a intenção de alinhá-las, de modo que cada face do cubo ficasse com apenas uma cor, o objetivo da brincadeira.

A mais ou menos um ano, Matias decidiu resolver o quebra cabeça, recorrendo aos tutoriais disponíveis na internet. Foram dias tentando, errando, embaralhando, tentando novamente até conseguir solucionar o cubo 3x3x3, o modelo mais comum.

Existem técnicas, portanto, para desembaralhar o cubo. Matias aprendeu o método das camadas, um dos mais básicos para completar o cubo três por três. Com ele dá para resolver a charada em cerca de dois minutos. Praticando muito, o tempo pode cair para segundos.

O estudante diz ter conseguido montar em 30 segundos, e os bons desempenhos o motivaram a aprender os métodos mais avançadas. Seu recorde é 23 segundos, o que já é impressionante para qualquer pessoa pouco familiarizada com o esporte.

Sim, o cubo mágico é um esporte, e o recorde nacional de resolução do cubo 3x3x3 é 8,05 segundos, tempo médio entre três tentativas, alcançado por Pedro Roque. Já o recorde mundial é do australiano Feliks Zemdegs, que conseguiu 5,80 segundos de média, e 4.59 segundos na tentativa mais rápida.

O Cubismo, ou Speedcubing, já possui até uma entidade representativa no Brasil, a Associação Brasileira de Cubo Mágico (ABCM), fundada em 2010, com os objetivos principais de promover a prática e organizar competições. Atualmente a associação conta com 37 associados, a grande maioria do estado de São Paulo.

Apesar de relativamente recentes no Brasil, as competições de speedcubing já acontecem desde os anos 80. O primeiro torneio internacional foi realizado em 1982, em Budapeste, Hungria, e foi vencido por Minh Thai, um estudante vietnamita-americano de 16 anos de idade na época. Ele completou o cubo em 22.95 segundos, tempo que lhe garantiu o troféu, mas que já está bastante ultrapassado.

A ABCM está por trás de todas as competições oficiais organizadas no Brasil.  “Algumas competições são promovidas diretamente pela ABCM e outras tem um suporte, geralmente com a logística do delegado e com informações de como organizar um campeonato”, explica Antonio Marcos Cecchini, diretor da associação para o período de 2018.

Os dois principais torneios nacionais são o Campeonato Brasileiro, realizado anualmente de forma itinerante, e o Sesc Santos, promovido no estado de São Paulo. Mas existem várias outras competições. Entre o fim de abril e a metade de maio, quatro delas estavam na agenda do site da ABCM, duas em Minas Gerais, uma na Bahia e uma no Rio Grande do Sul.

Em uma competição você vai ver os atletas a mesa, de frente para um timer que é acionado pelas duas mãos. O árbitro coloca o cubo na mesa, embaralhado pelos cálculos de um software. Depois de um tempo observando as posições das peças, o atleta aciona o timer e começa a resolução. Quando terminar, solta o cubo na mesa e para o cronômetro.

Segundo Antonio Marcos Cecchini, os competidores têm cinco tentativas para o solucionar o quebra cabeça no menor tempo possível. “O melhor e o pior tempo são desconsiderados, e é calculada a média dos três tempos restantes. A menor média vence”, explica o diretor da ABCM.

O esporte possui 18 modalidades diferentes, que costumam estar representadas na totalidade sobretudo nos torneios internacionais. Além do 3x3x3 há as categorias 2x2x2, 4x4x4, 5x5x5, 6x6x6, 7x7x7, Skewb, Square-1, Pyraminx, Megaminx, Clock, estas relacionadas ao modelo e formato do cubo.

Também existem as modalidades que testam outras habilidades, como a resolução com uma mão só, com os pés, com os olhos vendados, e com múltiplos cubos. Pela internet circulam vários vídeos de jogadores realizando façanhas impressionantes.

Em um deles, um garoto resolve três cubos 3x3x3 e faz malabares com eles ao mesmo tempo. Ele seria Que Jianyu, que possui registro na página da World Cube Association na internet. No site, porém, não há confirmação deste feito específico.

Outra demonstração de perícia é dada por Vicenzo Guerino Cecchini, em um dos vídeos do seu canal sobre Speedcubing no Youtube. Ele resolve um cubo 2x2x2 em 1 segundo. Vicenzo é filho de Antonio Marcos Cecchini, e o ídolo de Matias Machado.

Para Matias, a diversão do jogo é superar os diferentes níveis de dificuldade. “Quanto mais difícil mais coisas você precisa aprender”, diz ele.

Porém, há os cubos que variam também na forma, como o Square-1, que solucionado tem forma de cubo, e embaralhado possui forma irregular, o que o torna a resolução mais difícil. O Brasil é dono dos recordes sul-americanos de Square-1 no tempo único: 7,15 segundos, alcançado por Vicenzo Cecchini; e no tempo médio: 8,05 segundos, conquistado por Anuar Onofre.

Matias ainda pretende participar de competições, assim como o estudante Murilo Freitas de Campos Silva, de 12 anos de idade. Ele pratica speedcubing a cerca de quatro anos, e seu tempo de resolução do cubo três por três já está na casa dos 30 segundos. Seu recorde pessoal é 26 segundos.

Ele também aprendeu as técnicas mais comuns em tutoriais na internet, e seu interesse foi despertado por um vídeo do canal Manual do Mundo, no Youtube. “Então eu comprei um cubo daqueles de “1.99” e comecei a aprender. No começo aprendi com vídeos, mas depois fui tentando aprender novas fórmulas por sites e algumas sozinho”, lembra.

Murilo diz que o esporte é viciante, e que seu entusiasmo vem da possibilidade de aprender novas fórmulas e de tentar bater os seus recordes.

Além da diversão, o professor de Matemática Braian Almeida encontrou no cubo mágico uma ferramenta para ensinar geometria, no Colégio Integral. Ele leciona em turmas do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio. “O fim didático dele é mais para falar da sua forma, mas no ensino superior, ensino médio é possível trabalhar o conteúdo de combinações e arranjos”, comenta.

Em sala, os alunos costumam se surpreender com a resolução do cubo pelo professor, o que acaba estimulando a atenção. Braian resolve o quebra-cabeças pelo método das camadas, que possui sete passos. Os últimos dois movimentos, o professor consegue resolver com as mãos voltadas para as costas, mais um recurso para conquistar os estudantes.

Seu tempo de resolução é de cerca de dois minutos, e melhorá-lo não é necessariamente um objetivo. O que mais interessa Braian é a complexidade e a Matemática por trás do jogo.

Ele conheceu um pouco mais sobre o jogo, o brinquedo e sua história em um minicurso, ministrado por uma colega durante uma semana acadêmica do curso de Licenciatura em Matemática da UTFPR. Na ocasião ele soube sobre o cálculo para descobrir o menor número de combinações para resolver o cubo, e também aprendeu a técnica básica para a solução do modelo três por três.

Braian explica que o método – também chamado de algoritmo – que utiliza é o mesmo para qualquer situação. Ele explica que o primeiro passo é escolher uma cor, geralmente o branco, fazer uma cruz, e depois completar as camadas. O aprimoramento do aprendizado é o que permite pular etapas. Nos campeonatos o raciocínio é mais avançado, pois cada cubo embaralhado vai exigir uma movimentação diferente.

O cubo de Rubik

Aquilo que conhecemos como cubo mágico formlamente se chama Rubik´s Cube, ou Cubo de Rubik. O nome faz referência ao seu criador, o professor húngaro Ernõ Rubik, que desenvolveu a peça em 1974 para ajudar seus alunos a entender problemas tridimensionais. A forma mais próxima do brinquedo original é o cubo 3x3x3.

O cubo se tornou muito popular na Hungria dos anos 1970, mas a rigidez do regime comunista da época tardou a sua popularização mundo afora, o que passou a acontecer nos anos 1980, por meio de feiras de brinquedos. Em uma delas, o cubo foi visto por Tom Kremer, que convenceu a empresa Ideal Toy Company a distribuí-lo.

Entre 1980 e 1982, cerca de 100 milhões de cubos foram vendidos. Se acredita que a marca já tenha passado dos 400 milhões, o que torna o Rubik um dos brinquedos mais famosos do mundo.

22 segundos…e caindo

Desde o primeiro campeonato mundial de cubo mágico, em 1982, o recorde de tempo de resolução vem diminuindo. Veja as menores marcas registradas, de acordo com o site Rubiks.com.

1982 – Minh Thai desembaralha o cubo em 22.95 segundos.

2003 – Dan Knight vence o mundial com o tempo de 20 segundos

2005 – Jean Pons diminui o recorde para 15.10 segundos

2007 – Yu Nakajima alcança o tempo de 12.46 segundos.

2007 – No Aberto da Espanha, Thibaut Jacquinot resolve em menos de 10 segundos.

2009 – Breandan Vallance vence o mundial com 10.74 segundos.

2011 – Michal Pleskowicz, em 8.65 segundos.

2013 – Feliks Zemdegs resolve em 8.18 segundos

2015 – Zemdegs novamente, em 7.56 segundos.

2015 – Collin Burns (5.21 segundos) e Keaton Ellis (5.09 segundos)

2015 – Lucas Etter (4.90 segundos)

2016 – Mats Valk (4.74 segundos)

2016 – Feliks Zemdegs (4.73 segundos)

2017 – Patrick Ponce (4.69 segundos)

2017 – Seung Beom Cho (4.59 segundos)

2017 – Feliks Zemdegs (4.59 segundos)

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