quinta-feira, maio 26, 2022

Viajar, aprender e trabalhar

Mais do que apenas conhecer pontos turísticos, o intercâmbio é uma alternativa para quem quer conhecer o mundo, estudar e adquirir experiências no exterior

Por Nelson da Luz Junior

Johannes Scherer Dagostini é médico veterinário, mas trabalhava como operador de empilhadeira quando foi entrevistado pela revista Vanilla, em meados de janeiro, via Whats App. Ele está em Melbourne, Austrália, onde mora, estuda e trabalha desde fevereiro de 2017.

Sua carga de trabalho depende do número de contêineres e do conteúdo da carga, mas de modo geral ele trabalha cerca de 40 horas semanais. Por lá, Johannes conta que percebeu uma valorização das profissões. “Não importa a área de atuação, o pagamento é condizente e todo o trabalho é respeitado”, explica.

A maioria dos salários são pagos semanalmente, e no seu caso, um determinado valor já é descontado para os impostos. Também há a possibilidade de o funcionário pagar o valor total de tributos, ao fim de cada ano fiscal.  Além de trabalhar, o brasileiro também frequenta um curso de inglês, já que está no país com um visto de estudante, que lhe permite ocupar funções remuneradas.


Em cerca de um ano de estadia em Melbourne, Johannes já conseguiu conhecer muitas coisas sobre a Austrália e os australianos. Diz ele que por lá se come carne de Canguru, um dos tipos mais baratos do supermercado, apesar de não ser um dos mais apreciados; as praias são lindas, e como o centro do país e um grande deserto, a maioria da população vive relativamente próxima do litoral.

Os australianos adoram jogos de cassino, que são regulamentados; e cuidam da sua própria vida, digamos assim. “Ninguém se preocupa com o que o outro está pensando de você. Cada um vive como quer, se veste como quer, e todo mundo se respeita. Isso foi uma das coisas que mais me surpreendeu positivamente aqui”, resume.

Johannes Dagostini

Johannes dificilmente viveria tantas experiências se visitasse a Austrália como turista. Ele é um dos milhares de brasileiros que buscam o intercâmbio como forma de viajar e conhecer o mundo.  “O intercâmbio é uma experiência única, acho que só vivendo por um tempo no lugar para você aprender os costumes, a cultura, os hábitos. Já morei em vários lugares da cidade, já dividi apartamento com diversas pessoas diferentes, conheci pessoas de todo o canto do mundo, trabalhei em vários lugares, exercendo variadas profissões, fui para lugares maravilhosos, fiz amizades, passei por experiências impagáveis”, resume.

Ele reconhece, porém, que nem tudo é só alegria. “Também sofri, chorei, senti e sinto muita saudade. E só quando se está tão longe, do outro lado do mundo, que você percebe o quanto a família e os amigos fazem falta. Mas vale a pena, a experiência de vida que estou passando, não tem valor”.

De modo geral, o intercâmbio é diferente do turismo tradicional por basicamente dois fatores. A moradia costuma ser maior em uma mesma cidade, e o intercambista precisa cumprir com alguns compromissos. Johannes, por exemplo, precisa estar matriculado em algum curso, seja de línguas, técnico, graduação, mestrado, enfim.

Quem explica é Izabelle Amadori, proprietária de uma agência de turismo e intercâmbio em Pato Branco. Ela conta que há intercâmbios que duram desde uma semana de duração a até meses, e de diferentes modalidades dependendo do objetivo, como estudar, trabalhar ou ambos, e o orçamento do interessado.

Izabelle Amadori

Izabelle conta que o turismo vem aliado aos estudos e ao trabalho. “Você tem uma rotina de estudos, em um período, e no outro aproveita para conhecer os lugares”, cita um exemplo.

A maior parte dos interessados em intercambio que procuram sua agência pretendem cursar inglês, e os destinos mais desejados são os Estados Unidos, o Canadá e a Inglaterra. Irlanda e Malta, são destinos financeiramente mais em conta. Austrália e Nova Zelândia oferecem cursos mais baratos, porém, exigem investimentos maiores em passagens aéreas.

A própria Izabelle já foi intercambista. Ela passou alguns meses em Paris, França, trabalhando como babá, em uma modalidade de intercâmbio chamada Au Pair, que direciona para vagas na área de cuidados familiares. Segundo ela, os custos são menores, pois o intercambista recebe moradia e alimentação, além de uma ajuda de custo.

Imergir na cultura local é a grande vantagem do intercâmbio, diz Izabelle. “Você aprende os costumes, qual a relação entre pais e filhos, avós. É você realmente conhecer melhor o destino na parte cultural, e como você tem mais tempo ali é possível conhecer lugares alternativos, além dos pontos turísticos tradicionais”, comenta.

Os franceses valorizam muito as relações familiares, e são muito unidos, conta Izabelle. Gostam de aproveitar o tempo ao ar livre, e são sinceros. Não possuem dedos para falar de assuntos desconfortáveis, e não costumam guardar para si algo que os incomode. Também são patriotas e politizados. Izabelle conta ter visto protestos e passeatas com bastante frequência.

Rotary

Além das empresas especializadas que oferecem serviços de intercâmbio, também há entidades que promovem a atividade. O Rotary International possui um tradicional programa de intercâmbios voltado para jovens.

Izabelle é presidente do Rotary Club de Pato Branco Amizade, mas atuou por muitos anos na área de intercâmbio do clube. Ela explica que o objetivo do programa é promover a paz mundial, por meio da integração entre os diferentes povos e culturas.

Para participar do programa não é necessário ser filho de rotarianos, e os interessados precisam procurar um dos vários clubes de Rotary da cidade. A seleção acontece por meio de uma prova, com questões a respeito da instituição, além de história, geografia, aspectos políticos e uma prova básica de inglês. Ela explica que há cerca de 25 países que recebem brasileiros, e a prioridade da escolha do destino se dá de acordo com a melhor colocação na prova.

A permanência é de cerca de 10 meses, e o intercambiário arca com os custos de passagens aéreas, seguros de viagem, documentação, além de uma quantia de R$ 1.000 dólares, para possíveis eventualidades. Se não utilizado, o valor é devolvido

No exterior, o visitante fica na casa de rotarianos, são praticamente integrados às famílias, e precisam respeitar quatro regras: não consumir bebidas alcoólicas, não fumar, não dirigir e não namorar.  Izabelle calcula que em 2017 cerca de oito jovens foram encaminhados ao exterior via Rotary, a partir de Pato Branco.

Júlia Silvestre Penteado Cardoso, 19 anos de idade, morou em Frankfurt, na Alemanha, de agosto de 2016 a julho de 2017, por intermédio do Rotary.

Nesse período morou na casa de duas famílias e frequentou a escola, em turma equivalente ao Ensino Médio no Brasil. Além da vivência e da imersão cultural, Júlia também voltou falante de alemão, conhecimento que não tinha antes da viagem.

“A oportunidade de aprender (o idioma) com o método de imersão, sem dúvidas é o melhor de todos. Saí de lá com o diploma do nível B2 nas mãos, pelo instituto Goethe de língua alemã”, comenta. Ela se refere à classificação no Sistema Europeu de Línguas, no qual B2 qualifica o falante como Usuário Independente, apenas dois níveis abaixo do nível C2, o Domínio Pleno.

Júlia Penteado Cardoso

Com a qualificação, vitalícia, Júlia está apta a cursar a universidade na Alemanha, mediante a um nivelamento estudantil, além de ter conseguido trabalho como professora de alemão em uma escola de idiomas de Pato Branco

Frankfurt é uma cidade bastante desenvolvida, e apesar de ter morado em uma casa afastada do centro, Júlia conta não ter tido problemas de locomoção por conta da qualidade do transporte público.

Foram seus primeiros meses de estadia, quando dividiu o teto com um casal – “seus pais” – que trabalha na área do entretenimento, ele na produção de radionovelas, um mercado ainda aquecido na Alemanha; e ela como redatora no principal canal de TV do país, o ZDF. Na residência também morava um “irmão” mais velho, que estuda história. Nos últimos meses de estadia, Júlia morou com um casal que atuava na área de engenharia e arquitetura.

Ela conta que os alemães são mais reservados do que os brasileiros, demoram mais para estabelecer intimidade, mas quando fazem amigos os cultivam como ouro. São respeitosos com a privacidade alheia e não tem muita cerimônia para dizer o que incomoda e o que agrada.

Também não gostam de improviso, e valorizam o respeito as regras e normas. Júlia resume a índole dos alemães: “Sabe aquela história de ´o que não é proibido, é permitido?´ Na Alemanha, seria ´o que não é permitido, é proibido´”.

Por passarem muitos meses no frio, os dias de sol são muito valorizados com atividades ao ar livre. Outras curiosidades são: água é sempre com gás, se quiser sem tem que pedir, ao contrário do Brasil; a cerveja é consumida na temperatura, muitas vezes é mais barata que a água, e há cerveja para crianças, sem álcool, mas com rótulo e embalagem voltada para o público infantil.       

Júlia também conheceu o sistema de ensino alemão. Segundo ela, o Ensino Médio dura quatro anos, e os estudantes podem escolher quais disciplinas deseja cursar. Artes, biologia, ética, política e economia, matemática e história, foram algumas das disciplinas que a brasileira cursou.

Dois idiomas estrangeiros são obrigatórios no currículo escolar, e o ensino acontece desde cedo. No Ensino Médio, portanto, os estudantes realizam conversações no idioma da disciplina. “Frequentei a aula de inglês e até italiano por um tempo. Nessas, os professores e alunos só falam inglês/italiano e discutiam temas como por exemplo, o sonho americano”, lembra.

Ultimas Notícias