quarta-feira, maio 25, 2022

“Ser fiel ao que me comprometi é fundamental para mim”

Irmão Marista há quase 60 anos, Nilso Ronchi conta as histórias de suas andanças pelo Brasil e pelo mundo, como quando sobreviveu a uma queda de avião no Amazonas, e foi prisioneiro durante a ditadura militar chilena

Por Paloma Stedile e Nelson da Luz Junior

Desde que decidiu seguir a vocação de irmão Marista, no início dos anos 1960, Nilso Antonio Ronchi se dedica a exercer o ofício de seguir Jesus Cristo e de torná-lo conhecido e respeitado.

Uma missão que parece simples, mas que proporcionou ao senhor de 76 anos vivenciar experiencias únicas, algumas gratificantes, outras perigosas. Ele já participou da educação de gerações de jovens, mas também foi detido no Estádio Nacional do Chile, que nos anos 1970 foi convertido em prisão após o golpe militar naquele país.

Natural de Rio do Oeste, Santa Catarina, e graduado em Letras e Pedagogia, Ronchi já esteve em diversos estados por conta de seu trabalho, do Acre a São Paulo, e hoje atua no Centro Social Marista, em Itapejara D´Oeste. Em 2018, a presença dos irmãos Maristas no município completa 50 anos. Pela ocasião, Vanilla entrevistou Nilso Ronchi.

Vanilla – Há quanto tempo o senhor é Irmão Marista e como essa vocação foi despertada

Nilso Ronchi – Desde 1960 sou irmão Marista. Na infância tinha um tio Marista, Savério Ronchi, que vivia em Moçambique, África, como missionário. Quando ele escrevia para meus avós e meus pais, dizia para eu seguir a vocação. E isto aconteceu aos dez anos de idade quando meu pai me levou ao Juvenato (seminário Marista) Marcelino Champagnat de Curitiba. Ali me juntei a 150 adolescentes, alguns de Pato Branco. Aos dezoito anos professei na congregação Marista em Mendes, Rio de Janeiro. Formei-me professor de Letras e em Pedagogia, lecionando em colégios maristas e dos estados do Paraná, São Paulo, Amazonas e Acre por mais de 40 anos. Tive algumas funções na congregação, mas na forma de simples auxiliar, animador de casas de formação. Ajudei na CRB Nacional nos cursos do CETESP e CERNE. Percorri a missão marista por diversos lugares do Brasil, como Amazônia, Acre, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Ceará. Fiz dois cursos de especialização marista em Roma.

Como é o cotidiano do seu trabalho?

Minha maior missão, como a de todo cristão e também marista, é a de seguir Jesus Cristo e a de fazê-lo conhecido e amado, como irmão dos irmãos, em especial para crianças e jovens. No momento presente, o exemplo de ser fiel ao que me comprometi é o fundamental para mim. Todo marista se compromete a ser presente no mundo atual com humildade, simplicidade, espírito de família (Evangelho). Levamos o nome de irmão (Frei para os franciscanos) porque é um apelo específico a viver, para com todos, a fraternidade de Cristo. Assim devem seguir os discípulos de Champagnat, de Francisco, de Pallotti, de La Salle, de Luísa Marillac e tantos outros e outras, e como não dizer de todo cristão e toda cristã. O Instituto marista reunido na Colômbia em 2017 redefiniu sua missão: “Família global, farol de esperança neste mundo turbulento, ser o rosto e as mãos da terna misericórdia do Senhor, e inspirados em Maria ser construtor de pontes, para caminhar com as crianças e jovens marginalizados pela vida, para responder com audácia às necessidades emergentes”. Minhas atividades estão relacionadas no apoio das obras de educação que temos no Centro Social Marista, em Itapejara d’Oeste, e diversos movimentos maristas como PJM, Laicato, catequese de adultos, Movimento Champagnat da Família Marista.

Nesses anos de missão quais foram as experiências mais marcantes?

Estive em vários campos de atuação. Na de professor saliento os encontros, acampamentos, caminhadas, ciclismo, escaladas a montanhas, como o Pico Marumbi, com adolescentes e jovens. Na coordenação de cursos para religiosos na CRB. Vivência em comunidade inserida nos meios populares em Andirá, Tapauá e Rio Branco, inclusive fazendo o trabalho do povo, como bóia-fria, em Andirá, e alfabetização de adultos, em Rio Branco. Assinalo como experiências marcantes a de ter vivido 50 dias em um campo de concentração no Chile, em 1973, e a da sobrevivência a uma queda de avião, Amazonas.

O senhor sobreviveu a uma queda de avião no Amazonas. Como foi essa história?

Em maio de 1986 eu era diretor de uma escola estadual com 1500 alunos em Tapauá, interior do Amazonas. Estava implantando um curso de Ensino Médio, na escola, e a secretaria de educação deveria enviar inspetoras para a fiscalização final. O Prefeito Raimundo alugou um hidroavião. Ele deveria viajar junto; na última hora não pôde. Éramos quatro, além de mim, o piloto Afonso Sarkis, e as inspetoras, Antonia e Helena. Depois de uma hora de voo falhou o motor e amerissamos na floresta. Por causa dos flutuadores do aeroplano, saímos todos vivos. Sete dias de sobrevivência. Chovia demais. Era o fim do inverno amazônico. A salvação era fazer fogo para dar sinal aos que nos procurassem. Lembro-me que no dia das mães assamos um peixinho para celebrar o dia das duas mães. Nosso alimento era água, petiscos de comida que levávamos e brotos tenros de arbustos e bambus. Um helicóptero da força aérea nos retirou da mata pendurados em corda até a beira do rio Purus, e a seguir transportou-nos até a cidade de Manicoré, de onde um avião da força aérea nos levaria a Manaus.

O senhor esteve no Chile durante os primeiros movimentos do golpe militar no país. Quais são suas lembranças daquele tempo?

Em setembro de 1973, recebi uma bolsa para um curso de planejamento em Santiago do Chile. No primeiro dia do curso vimos e ouvimos estarrecidos o golpe de estado no Chile, como a revolução militar, no Brasil, em 31 de março de 1964. Dia 16 de setembro após missa na catedral, acompanhei Jaime Rojas Zambrana, boliviano, a procura de alimentos. Carabineiros nos prenderam e fomos levados à delegacia. Na madrugada do dia seguinte fomos alojados no estádio nacional de Chile onde já havia milhares de pessoas, estrangeiras e chilenas. Ali permaneci até o final de outubro. Em quatro de novembro recebi asilo político na Suíça, em Lausanne. Nessas dezenas de dias no estádio, algumas lições aprendi. A maior aventura da vida da gente é assumir o dia a dia. Não existe maior experiência do que devo e posso fazer no meu trabalho, na minha missão. Por exemplo, qual não é melhor lição do que nossa mãe que vivia o dia inteiro e todos os dias a nos educar, fazer a comida, lavar as roupas e louças, abençoar, orar recomeçando sempre. Na relação com os colegas prisioneiros a escuta das dores e sentimentos foi um grande impulso de força e de esperança. A maioria dos presos brasileiros, mais ou menos 60, tinha sido ativista em algum movimento revolucionário no Brasil e tinham sido expulsos. Eu nunca participara de algum movimento. Só mesmo os movimentos que deram origem às CEBs e CEBI incentivados pela CRB e Igreja em São Paulo, do Cardeal Arns. Com eles senti que todos somos políticos a favor do bem público, de todos e dos mais necessitados, sem ter que ser extremista. Houve torturas orientadas por policiais brasileiros no próprio estádio nacional. A comida era minguada, no máximo uma vez por dia ou a cada dois ou três dias. Estava presente a Cruz Vermelha para atendimento da saúde. Éramos chamados para constantes interrogatórios de muita tortura psicológica e física. O lenitivo era o conforto constante dos colegas prisioneiros.

Qual foi a sua maior realização enquanto irmão marista?

Não há melhor incentivo do que sentir-se irmão com todos os irmãos e irmãs que formam o povo de Deus. Apesar de tanto povo abandonado e carente e de tanta subversão, tenho esperança de que os jovens levarão avante a vitalidade da identidade e missão cristãs. “Pode ser que não veja o resultado final. Mas a diferença entre o mestre de obras e o operário é esta: nós somos operários, não mestres de obras; servidores do Reino, não Messias; somos profetas de um futuro que não é nosso, Senhor”, orava dom Oscar Romero. Gosto da atitude do profeta Elias (1Rs 18): o profeta Elias envia seu servo ao cume do Carmelo para ver se avista sinais de chuva, enquanto ele fica lá embaixo, de joelhos e inclinado, rezando ao Senhor. O servo sobe sete vezes e, ao final, vê uma nuvenzinha como a palma da mão. Elias manda avisar ao rei que vai começar a chuva. Assim vejo minha atitude no momento de minha história, preciso me prostrar pedindo sinais de vida, enquanto os mais jovens examinam com atenção e minúcia o horizonte para perceber os sinais dos tempos. É o Espírito de Pentecostes. O Espírito é sempre fonte de novidade, de surpresa e de alegria, disse o Papa Francisco. Quando prisioneiro, e com a queda de avião, e a vivência com o povo de lugares limítrofes, os colegas me ensinaram que um passo de encontro com Deus é estar em contato com a realidade, tão turbulenta muitas vezes, nunca pensada ou sonhada por nós; minha formação foi voltada para dentro de si mesma e não para o social; alguns vislumbres no tempo do concílio Vaticano II. Os prisioneiros me ajudaram a tirar “mantos” inúteis e arrumar água em bacias para lavar os pés de tanta gente e indicar caminhos de respostas e ser rosto de terna misericórdia. Hoje ainda muitos coirmãos meus me ajudam e me alertam a prosseguir nesse ideal da luta por um mundo mais justo, o de ser a partir dos outros e pelos outros.  Por isso, concluo que nunca poderei ser plenamente feliz enquanto a casa Comum em seus desafios políticos, sociais e econômicos não forem sendo amenizados e mudando seus hábitos.

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