quinta-feira, maio 26, 2022

Profissão: Poker

Há quem jogue cartas para se divertir e para confraternizar com os amigos. E também há quem tenha transformado o poker em um trabalho, e o Sudoeste do Paraná já possui os seus profissionais no esporte

Por Nelson da Luz Junior

Há alguns anos, Jhonatan Camicia Damaceno, 28 anos de idade, não sabe o que é ter um domingo livre. Ao invés de curtir um mate no Largo da Liberdade, ou passear pelo centro da cidade, ele, que é natural de Pato Branco, passa horas em frente ao computador jogando poker, e não são poucas. Às vezes, a jornada começa as 11h, e não raro acaba a noite.

Jhonatan não faz isso necessariamente por diversão, apesar de ser um apaixonado pelo esporte. Ele está trabalhando, pois é um atleta profissional de poker. Há seis anos sua renda vem exclusivamente dos torneios que disputa, principalmente pela internet.

Neste sentido, Jhonatan é provavelmente o único profissional do gênero a viver em Pato Branco, apesar de existirem muitos entusiastas e bons jogadores na cidade e na região.

Mas ao contrário do que podemos ter visto em filmes e seriados sobre cassinos e jogos de carta, Jhonatan não é um milionário bom vivant. O jogador conta que é possível sair de uma mesa com R$ 1 milhão no bolso, mas é mais difícil do que parece, e ele ainda não teve esse privilégio.  

Seu cotidiano é muito mais parecido com o de um profissional liberal, como um advogado ou um engenheiro. Ele respeita horários de trabalho, estuda, se aperfeiçoa e reserva espaços na agenda para exercícios físicos e burocracias da via cotidiana, como ir ao banco.

Jhonatan conhece o poker a pelo menos oito anos, quando aprendeu as regras com colegas da faculdade de engenharia civil. No início, jogava com as possíveis combinações de cartas anotadas em um papel. Mas até aí, era só diversão.

Da mesa ele partiu para as disputas on-line e passou a estudar, ler e se aprofundar no assunto. “A partir do momento que entendi que era um jogo que poderia virar profissão eu comecei a me dedicar”, lembra o atleta, que percebeu no poker um modo de obter a sua subsistência em algo que gosta muito.

Para se dedicar integralmente ao esporte, Jhonatan deixou de lado a faculdade, e precisou lidar com uma certa resistência da família. Apesar do jogo ser um trabalho como qualquer outro, o dia a dia de um profissional do poker tem suas particularidades.

O atleta passa horas em frente ao computador, muitas vezes entrando pela madrugada, o que naturalmente o faz dormir até um pouco mais tarde, algo não muito bem compreendido por uma sociedade que “desperta cedo para trabalhar”.

Com o passar do tempo e o melhor entendimento da profissão, a resistência virou incentivo, e o pai de Jhonatan até já o acompanhou em viagens para torneios presenciais.

O primeiro torneio do currículo do atleta foi uma competição estadual, realizada em Maringá, quando ele ainda estudava engenharia. Depois vieram outros, alguns com bons resultados. Em 2011, Jhonatan conquistou o oitavo lugar individual na final do Brazilian Series of Poker, o BSOP, principal torneio nacional da modalidade. No ano passado, ele foi vice-campeão por equipes na mesma competição.

Hoje, sua participação em torneios presenciais é mais calculada, por conta do seu foco nas competições on-line. Jhonatan é como um profissional autônomo que presta serviço para uma equipe, a Samba Team, um dos principais coletivos de Poker do Brasil.

A equipe é formada por cerca de 200 jogadores, calcula. De modo geral, tudo funciona como uma empresa, explica Jhonatan. O time entra com o dinheiro para as partidas, e o atleta ganha um valor percentual, de acordo com seu desempenho no jogo.

Além do dinheiro, o time também fornece monitorias semanais, e também exige que o atleta mantenha uma alimentação balanceada e faça exercícios físicos regularmente.

Jhonatan costuma jogar as segundas, quartas, quintas-feiras e principalmente aos domingos, dia do qual dificilmente abre mão, pois é quando os torneios costumam pagar melhor. Terça é dia de estudo, quando junto com monitores do Samba Team, ele analisa seus jogos anteriores, estuda, discute possibilidades e assim se aperfeiçoa. Sexta é o dia de resolver assuntos pessoais e sábado é dia de folga.

Quando começou a jogar profissionalmente, o atleta ainda vivia com os pais e hoje avalia que poderia ter feito um pé de meia melhor com os resultados que obteve na época. Ele conta, porém, que hoje consegue manter uma vida estável, pagar o aluguel e os boletos com a renda do poker.

Ele avalia que existe um fator muito importante para quem deseja viver do esporte: cabeça no lugar. Ao mesmo tempo em que pode ganhar muito dinheiro de uma vez só, o jogador pode ficar meses sem levar praticamente nada. Em seis anos de profissão, seu melhor resultado em um torneio on-line foi um segundo lugar no Winter Series, conquistado em janeiro. A colocação rendeu um prêmio de 38 mil dólares.

Ao mesmo tempo em que trás vantagens, como a flexibilidade de horários, por exemplo, Jhonatan analisa que a pressão psicológica por conta da possível instabilidade de resultados – e consequentemente de renda – é um dos pontos negativos. Apesar disso, ele diz que não se vê fazendo outra coisa.

O poker possui várias modalidades, mas em resumo vence o jogador que tiver a melhor combinação de cartas, ou aquele que consiga convencer os adversários que tenha um bom jogo em mãos.

Jhonatan afirma que é preciso sim ter um pouco de sorte, mas a habilidade é muito mais importante. Segundo ele, o jogador habilidoso precisa saber analisar a temperatura da mesa, avaliar como vai usar a mão que recebeu de acordo com sua posição na mesa, conseguir extrair o máximo possível de fichas do adversário, blefar e até desistir na hora certa.

Também é importante saber avaliar as ações do adversário. Nas partidas on-line existem até softwares que ajudam nessa tarefa. E segundo Jhonatan, na internet as disputas costumam exigir ainda mais habilidade. Elas costumam reunir os jogadores mais experientes, além dos profissionais. Nos torneios presenciais, muitos participantes jogam apenas por diversão, o que garante uma certa vantagem aos mais experientes.

O Poker é um esporte bastante democrático. Quem avalia é Marcos Antonio Alves Junior, 30 anos de idade, também profissional do esporte, mas que trabalha do outro lado da mesa.


Marcos atua profissionalmente como dealer há seis anos, e há cerca de três anos vive exclusivamente disso. O dealer é o responsável pela distribuição das cartas, pela mediação entre os jogadores e pelo bom andamento da mesa. Seria uma espécie de árbitro, se fizermos uma analogia com outros esportes.

Além desta, Marcos também trabalha em funções como floor e diretor em torneios e competições. De modo geral, ele explica que o floor é responsável pela organização, distribuição dos jogadores nas mesas, dos materiais. É a ele que o dealer recorre caso não consigo resolver alguma situação na mesa. Já o diretor é a principal autoridade do evento, e também o responsável pelas questões de administração, documentação e legalidade.

Quando diz que o esporte é democrático, Marcos se refere ao fato de que qualquer pessoa pode se inscrever em torneios, seja um jogador profissional ou não, e ter a possibilidade de participar de disputas com nomes reconhecidos do esporte. “Porém, é a habilidade que vai definir quem será o campeão. Mas não há uma classificatória para que você jogue. Basta fazer a inscrição”, pondera. Isso vale, por exemplo, para as várias etapas do Brazilian Series, o campeonato brasileiro.

Recentemente o Poker brasileiro também testemunhou dois exemplos de inclusão. Realizada em abril passado, a edição de Brasília do Brazilian Series of Poker (BSOP) contou com a participação de João Paulo Trindade, que é portador de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). Jogador online, ele participou de seu primeiro torneio ao vivo, mesmo acamado. Ele definia suas ações na mesa apontando com os olhos para uma placa segurada pela esposa.

A etapa foi vencida por Vinicius Silva, um conhecido jogador no meio do circuito, que nasceu com paralisia cerebral. As informações são do blogueiro Sérgio Prado, do site do canal ESPN.

Marcos também é um profissional autônomo, que trabalha atualmente para empresas organizadoras de torneios, como a BSOP, que promove o campeonato brasileiro, e a LL eventos, uma empresa argentina. Ele já trabalhou no Brasil, na Argentina e no Paraguai.

Marcos conheceu o Poker por meio do sogro, que gostava de jogos online. Do computador, ele passou a jogar com colegas de faculdade e amigos. A paixão pelo esporte começou assim, mas apesar disso, profissionalmente ele nunca se aventurou como jogador.

A diversão se tornou trabalho por conta da necessidade de complementar a renda, com algo que não conflitasse com o expediente de funcionário público municipal. Por meio do Poker, Marcos poderia trabalhar nos fins de semana, período em que os torneios são geralmente realizados.

Quando a atividade nos torneios se tornou mais rentável, ele passou a se dedicar exclusivamente ao esporte. Sua carreira começou em Pato Branco, no clube Classe A. Seu desempenho acabou a chamando a atenção de outras empresas, e novas oportunidades apareceram. Marcos também fez um curso para aprender outras modalidades do esporte e se qualificar. Em média, Marcos trabalha em três torneios por mês, que podem ter de três a até sete dias de duração.

Ele avalia que para ser um bom dealer é necessário ser prestativo, e ter uma atitudes e posturas coerentes dentro e fora da mesa. Pontualidade, bom relacionamento com os colaboradores, e estar sempre apresentável são detalhes que ele julga muito importantes. E claro, é necessário ser um grande conhecedor das regras do jogo. 

Competições

Os torneios de Poker podem ser relevantes por dois fatores: premiação e prestígio. Uma etapa de um torneio, por exemplo, pode render uma premiação única maior do que o conquistado pelo campeão geral, que além do prêmio conquista o reconhecimento do circuito.

No Brasil, o principal torneio é Brazilian Series of Poker (BSOP), cujas várias etapas acontecem ao longo do ano em diferentes cidades do Brasil. O atual campeão brasileiro é Affif Prado, que vive em Florianópolis, mas é natural de Palmas, no Sudoeste do Paraná.

De acordo com site Super Poker, Affif batalhou durante toda a temporada de 2017, e assumiu a liderança do torneio apenas nos últimos dias. “Se eu for descrever é, sei lá, alegria, felicidade, emoção”, disse o campeão ao site.

Parte do prêmio para o campeão brasileiro é um pacote para participar do PokerStars Caribbean Adventure (PCA), em 2018. O valor total dos prêmios, que incluía uma camionete Amarok, foi de cerca de R$ 300 mil.

O PCA acontece anualmente nas Bahamas, e é um dos principais torneios internacionais de Poker, ao lado do World Series of Poker (WSP), cujo principal evento acontece em Las Vegas.

Tanto Marcos como Jhonatan explicam que há torneios menores, desde os realizados com periodicidade até mesmo diária em clubes de Poker que existem em muitas cidades, inclusive em Pato Branco. Para os entusiastas do esporte, o jogo é visto como um momento de confraternização e descontração, como um happy hour.   

Há também competições estaduais, que costumam ter vários circuitos, e municipais. No sul do país, cidades como Chapecó, Santa Catarina, e Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, costumam ter campeonatos frequentes.

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