quarta-feira, maio 25, 2022

Não fico mais pilhado com as coisas. O que vai acontecer, vai acontecer”

Conversamos com Rafael Henzel, um dos seis sobreviventes do acidente aéreo com a delegação da Chapecoense

Por Nelson da Luz Junior

Na madrugada do dia 29 de novembro de 2016, uma tragédia fez com que o Brasil amanhecesse perplexo. Um avião da companhia aérea LaMia caiu a poucos quilômetros de seu destino, a cidade de Medellín, na Colômbia.


A bordo estava a delegação da Associação Chapecoense de Futebol, que dois dias depois disputaria a primeira partida da final da Copa Sul-Americana, contra o Atlético Nacional. Dos 77 passageiros, entre membros da equipe, jornalistas que acompanhavam a comitiva e a tripulação, seis pessoas foram resgatadas com vida.

Era um desastre envolvendo um time que estava no auge, que havia chegado a elite do futebol nacional, a partir de uma cidade no oeste de Santa Catarina, muito por conta de um projeto de gestão e transparência considerado modelo. Àquela altura, a Chapecoense era uma instituição respeitada, tendo conquistado a admiração de torcedores de outras equipes país afora. A comoção tomou conta do país, e rendeu homenagens pelo mundo todo.

Rafael Henzel foi o único jornalista que sobreviveu a queda. Quase dois anos após o acidente ele diz se sentir recuperado, apesar do sentimento pelos amigos que partiram. Hoje ele segue narrando jogos na rádio Oeste Capital, em Chapecó, e viaja o Brasil contando sua história de sobrevivência. Em setembro, o jornalista esteve em Pato Branco, onde palestrou no TecSul 2018, e concedeu uma entrevista à revista Vanilla.


Há quanto tempo você trabalha com jornalismo esportivo?

Na comunicação eu comecei em julho de 1989, tinha 15 anos. Comecei trabalhando na mesma rádio que estou hoje, coincidentemente. Fiquei até 1993, comecei a trabalhar em televisão, passei por praticamente todas as redes de Santa Catarina, até chegar ao Rio de Janeiro em 1999, onde fiquei oito meses. Voltei para o sul, para Chapecó, fiquei quatro anos, e retornei ao Rio de Janeiro, onde fiquei por mais cinco anos. Trabalhava em uma emissora afiliada da Globo, mas também fazia trabalhos para a Sportv. Fazia Campeonato Brasileiro, fiz jogos Panamericanos, Olimpíada de Pequim, em 2008, ano em que voltei para Santa Catarina para gerenciar o jornalismo da Record.

E em 2012 eu assumi o futebol dessa rádio (Oeste Capital). A Chapecoense estava na série C do Campeonato Brasileiro, e o time foi crescendo. Série C, dois anos, Série B, um ano, Série A, desde 2014, e a Copa Sul-Americana.

A Chapecoense era o típico brasileiro que estava dando certo. Com pouco dinheiro, com ética, pagando em dia, que é uma coisa muito incomum no futebol brasileiro hoje em dia. Não tinha estrutura, mas começou a se organizar e chegar na série A do Campeonato Brasileiro.


O que significava aquele time para a cidade de Chapecó?

A Chapecoense era a representatividade da cidade. Mas era sempre muito instável, ela fazia uma boa campanha em um ano, depois pagava a conta no outro, e automaticamente fazia uma campanha pífia no campeonato catarinense.

Seja qual for a cidade que tiver um time de futebol, vôlei, basquete, futsal, que a represente, vira um ponto de referência. E a Chapecoense de 2016 era o auge daquele momento iniciado lá em 2009, quando não tinha nem série para disputar, era só o Campeonato Catarinense.


Vocês estavam viajando para a final de uma competição internacional. Qual era o clima naquela comitiva?

O grande momento começou no dia 23 (de novembro), no empate em zero a zero com o San Lorenzo, na Arena Condá, com a defesa do Danilo aos 49 minutos com o pé, algo inimaginável. Ali já era o grande objetivo alcançado.

Mas ainda tinha a possibilidade, de jogar lá em Medellín, no dia 30, e jogar no dia 07 de dezembro, em Curitiba, por que Arena Condá não comportava. Havia a arena do Atlético, os estádios em Porto Alegre, mas eles decidiram que seria no Couto Pereira, por ser verde e branco, porque o Coritiba havia sido eliminado da competição pelo Atlético Nacional. Então havia todo esse envolvimento.

E quando viajamos para Medellín, não precisa nem dizer. Para os jogadores era aquela história de você recomeçar ou dar um start na sua carreira com um título sul-americano, de se mostrar para o futebol. Eu creio que sete ou oito jogadores deixariam a Chapecoense na final da temporada. Mas aquele momento era muito importante para Chapecó, uma cidade de 200 mil habitantes, disputando a final de uma Copa Sul-Americana.

Naquele voo era só alegria, só expectativa de fazer um grande jogo contra o melhor time da América do Sul, que era o Atlético Nacional.

Os passageiros e a tripulação chegaram a perceber que havia alguma coisa errada?

Não, não, eu vou resumir. Você está voando, de repente acaba o combustível, e você anda no ponto morto, até estacionar, se for um carro, e no caso do avião, cair. Ninguém avisou que podia cair a qualquer momento, tanto que os próprios comissários não sabiam. Três deles estavam atrás de mim, técnicos de voo, estavam alegres.

O voo já estava indo para quatro horas de duração e nada de pousar, até que apagou a luz por falta de energia. Aí começou a ficar um pouco tenso, foram dois minutos entre esse momento e o momento da queda.

Não havia nenhuma informação, não caiu máscara de oxigênio, estavam todos sentados, alguns achavam que era procedimento de pouso, outros ficaram preocupados, enfim. Até que você colide a 280 Km/h. Ninguém sentiu a batida, porque você bate a essa velocidade e apaga na hora.

Qual foi a sua última memória antes de apagar?

Foi o que eu falei para o meu colega. Já fazia um minuto e pouco que estávamos sem energia, só com as luzes de emergência, e eu falei “acho que o pior já passou”. Porque você imagina que acaba o combustível e o avião cai, se bem que nós não sabíamos disso. Havia apenas uma pane nos motores, e você pensa que o cara vai abrir a porta e dizer que houve um probleminha, mas que vai dar tudo certo.

Mas nenhuma informação foi passada. Eu observava a Ximena (Suárez. Comissária de voo, também sobrevivente) da minha esquerda, eu estava na penúltima fileira, e ela atrás, entre o banheiro e cabine de passageiros, ela colocando o cinto dela, nervosa. Só que você nem imagina o que está acontecendo, nem imagina onde você está, sobrevoando o quê. Sabíamos que estávamos próximos de Medellín por causa do tempo do voo.

E qual é a sua primeira memória após o acidente?

Acordei no meio do mato, e achei que era um sonho. Achei que em algum momento alguém ia me acordar e dizer que chegamos. Qual é a chance de você cair de avião? Zero. Cair de avião e você sobreviver? Não tem explicação. E aí foram quatro horas e meia, entre desmaios e acordar…


Isso antes de chegar o resgate?

…antes de chegar o resgate, fiquei lá esperando. Foi mais ou menos isso, achei que era um sonho. Não tinha mais avião ali, ele desceu 200 metros do ponto onde fiquei, eu e os dois colegas que estávamos no mesmo banco triplo, afivelados ao cinto, meus colegas, infelizmente sem vida. E eu ali, esperando, você não sabe onde caiu, se vai chegar resgate, se não vai…


Estava totalmente escuro. Tinha alguma iluminação?

Não, não, chovia muito forte. Tanto que, quando eu ouvi uma voz e despertei, era o socorrista gritando para saber se tinha alguém ali, eu só vi a lanterna dele, não conseguia ver mais absolutamente nada. Foi quando eu fui indicando a ele onde que eu estava, e aí começou o socorro. Os socorristas tirando meu cinto, me colocando na maca, e foi aí que eu senti as dores mesmo, das sete costelas quebradas.

E assim seguiu, nós fomos colocados em cima de camionetes, todos os seis, não tinha como chegar ambulância próximo, era muito barro. Foram mais 25 minutos até chegar perto da ambulância. Da ambulância foram mais 30 minutos para chegar no hospital.

Caímos nas mãos certas. Os socorristas, todos jovens, sofreram para me carregar morro acima, eu com 106 Kg. Porque não tinha estrada, era mato sendo cortado para você sair em algum lugar, na escuridão total. Cansados, pois já tinham levado quatro sobreviventes.


Quando e como você se deu conta da proporção do acidente?

Quando eu fui para o segundo hospital, eu tinha uma televisão de 42 polegadas na minha frente, na UTI, e só se falava do acidente. Então eu soube que nós tínhamos caído, eu e o Follmann saímos conscientes de lá, então a gente sabia que havia acontecido algo muito grave.

Porém, sem saber a dimensão. E sempre que eu perguntava para um primo meu, que chegou junto com a minha esposa na quarta-feira à noite, ele me dizia que estávamos eu, o Neto, o Follmann e o Alan ali. Não falava dos mortos, só dos sobreviventes que estavam ali.

Mas aí chegou no domingo, acho, o acidente foi de segunda para a terça, e eu pedi a lista mesmo. E aí que vem a relação, 71 pessoas, 99% conhecidos, eu só não conhecia mesmo os tripulantes, alguns eu já havia visto em outro voo. De resto, era o pessoal de Chapecó, jornalistas do Brasil, nós éramos em 21 jornalistas, e morreram 20.


E qual foi a sensação de saber que havia tantos conhecidos mortos?

Na verdade, você já vai se preparando para isso. Nós viajámos de van para Florianópolis, Curitiba, Porto Alegre, com 10 pessoas da imprensa de Chapecó para narrar os jogos. Íamos todos juntos, para reduzir custos, enfim. E hoje eu vou e às vezes não tem ninguém, pois eles acabaram nos deixando no acidente.

Você sabe da dor, da perda. Mas eu nunca lembro dessas pessoas que se foram, e eu conhecia muito, com tristeza. Sempre que posso eu lembro de histórias engraçadas, elas eram felizes, e você tem que fazer com que as pessoas entendam isso. Nos deixaram, mas eram pessoas boas, que irradiaram felicidade por onde passaram. Mas infelizmente 71 pessoas morreram.

Como foi a sua recuperação?

Eu fiquei apenas 15 dias na Colômbia, e mais uma semana no hospital em Chapecó. O que podia me matar mesmo era uma pneumonia, pois fiquei muito tempo exposto, a uma temperatura de menos dois graus. Mas eu tive muita ajuda dos médicos. De Chapecó foram três médicos, que sofreram muito, pois eram ligados a Chapecoense e tiveram que reconhecer corpos.

Eu tive sete costelas quebradas, perfurei os dois pulmões, tive uma lesão muito forte no pé. Eu não fumo, não bebo, minha vida não é sedentária, e isso me ajudou muito naquele momento. Tenho certeza que se eu tivesse o pulmão afetado por alguma substância, eu não resistira quatro horas e meia com os dois pulmões perfurados.

Veio o doutor Janot, do (hospital Albert) Einstein, um pneumologista muito conhecido, me ajudou muito na recuperação do pulmão. Nós tivemos a dor física, e a dor de perder os colegas. Mas as pessoas que não sabiam o que estava acontecendo, os familiares, esses sofreram mais.

Não sei se os outros sobreviventes podem afirmar a mesma coisa, mas eu acho que sim; o que nós passamos não é nem 1% do que passaram aqueles que perderam seus entes queridos.

Quase dois anos depois, você se considera recuperado física e mentalmente?

Sim. Sempre brinco que o que mais me trava hoje são duas hérnias de disco que eu tenho da vida passada. Tive a lesão no pé, e além das sete costelas eu não quebrei osso nenhum. A medicina é extremamente evoluída, é uma pena que ela não chega ao povo, no hospital da cidadezinha. Muitas pessoas morrem por falta de estrutura.

Nós tivemos toda a estrutura lá na Colômbia. Nos dois hospitais, mais o hospital em Chapecó, onde já estávamos com nossa família, com o público da cidade.

Hoje posso dizer que corro, faço academia, jogo futebol, trabalho, tenho meus sentimentos, mas vivo minha vida normal. Sempre faço questão de frisar que fui vítima lá em novembro de 2016. Hoje sou como qualquer outro trabalhador, sigo minha vida normalmente.

Você viajou de avião depois do acidente?

Sim, nos primeiros dias após o acidente eu já fiz nove horas de viagem, da Colômbia para o Brasil. Já fiz mais de 100 voos, eu acho, nesse período de dois anos, porque faz parte da profissão. Vou pra Recife, vou para São Paulo, fazer jogos, faço palestras, e tem que ir de avião. O avião é o segundo meio de transporte mais seguro do mundo, só perde para o elevador.

Com que frequência você lembra daquele momento, e que tipo de sentimento essa lembrança te traz?

Eu nunca sonhei, nunca acordei de sobressalto por conta do acidente, nunca. Acho que eu internalizei tanto, de tanto falar. Só não falei do acidente nos três, quatro dias que eu fiquei entubado. O resto do ano, nove meses e 27 dias, que nós estamos gravando, eu falei quase todos os dias do acidente, para pessoas conhecidas, para pessoas desconhecidas.

Não faço tratamento psicológico, psiquiátrico. Tive psicólogos nos 15 dias que estive no hospital na Colômbia, e mais uma semana em Chapecó. Mas não precisei, graças a Deus, porque foquei na minha recuperação. Eu tinha um objetivo, que era ser o mesmo Rafael do dia 27 de novembro de 2016.

E saber que você tem um saldo positivo perante a tragédia. Não tem que ficar se amargurando, se lamentando. Entre 77, você é um dos seis que sobreviveram. E tudo que eu falei no Fantástico, no dia 10 de dezembro de 2016, tudo o que eu falei a caixa preta revelou a mesma coisa.   


Que tipo de comportamento você tinha, que hoje não tem mais por conta do acidente?

Uma das coisas que eu me orgulho é ter planejado viver a mesma vida que eu tinha antes, e eu consegui. Trabalho normalmente, transmito os jogos normalmente.

A única coisa que eu não faço é planos para daqui seis, sete meses. Eu tento viver o hoje, não penso na indenização, não perco sono por isso, a minha vida é daqui a três meses. Só quero seguir minha profissão.

Claro que eu era muito ansioso, e hoje é bem tranquilo. Sei que o que é meu tá guardado, o que é de todo mundo tá guardado, a gente, claro, só precisa ter a responsabilidade de ser um pai de família, de ser um trabalhador, cada um tem que assumir suas responsabilidades. Mas não fico mais pilhado com as coisas. O que vai acontecer, vai acontecer.

Eu planejei isso na UTI ainda, que eu ia voltar a fazer as mesmas coisas. Em 40 dias eu já estava voltando para o estúdio. Voltar a ser mesma pessoa que eu era foi uma grande vitória para mim.

E como a cidade de Chapecó lidou com esse trauma?

Se o mundo parou, então você imagina Chapecó né? Porque não foram só os jogadores. Eles passam, vão embora, voltam, alguns viajam, enfim. Mas tinha aquela comoção pela Chapecoense. Você tinha ali a diretoria, o Sandro Palaoro, daqui de Pato Branco, que montou uma diretoria de pessoas que foram crescendo com o time. Então foi muito difícil para a cidade se recuperar. Tem muita gente que não vai para a arena ainda. 

E o futebol é muito injusto às vezes. Se cair um avião novamente, e morrer todo um time, três meses depois a torcida quer um título, e se não tiver a torcida começa a xingar. Futebol e política estão muito enraivecidos. Às vezes, em cidade pequena, as pessoas atacam a tua moral.

Então, por tudo que Chapecó passou, ela reage bem já. Porque não é fácil, qualquer time do Brasil, você troca três, quatro peças, e o time não encaixa. Você imagina trocar todo mundo.

A Chapecoense contratou trinta jogadores, e nem sempre aqueles que ela queria. Outros times emprestaram, o São Paulo emprestou o Reinaldo, o Flamengo emprestou o Luiz Antônio, o Grêmio emprestou jogador, O Atlético Paranaense prometeu todo o staff necessário para recomeçar, fisiologista, preparador, foi muito interessante, e aos poucos a Chapecoense foi recomeçando.

Não é fácil, por você reconstruir o time de futebol, você ter que atender as famílias. Muitas vezes a família não quer dinheiro naquele momento, ela quer um abraço, ela quer informações, e teve gente da Chapecoense que não respeitou isso.

Tanto que foram criadas associações, até em momentos litigiosos com a Chapecoense. Enfim, agora se acertaram, estão andando juntos para tentar uma solução.

Não tem descrição o que passou a cidade de Chapecó, e o que a gente ainda espera é que todos tenham os seus direitos respeitados, tanto a Chapecoense como seus familiares, que a justiça possa intermediar isso, e possa fazer um acordo justo entre todos.  

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