quinta-feira, maio 26, 2022

Carta a um pato-branquense de oito anos

Pequeno Flávio,

Enxergo sua imagem claramente na minha cabeça enquanto escrevo essa carta: o cabelo arrepiado, óculos pendurado no nariz com as lentes cheias de gordura, os pés descalços como você insiste em ficar, apesar dos gritos da sua mãe para que bote um chinelo, um dente da frente recém caído.

Se essa carta chegar no tempo certo, no alto dos seus oito anos de idade, você provavelmente está preocupado com alguma coisa. Se agora, aos vinte e oito, eu ainda fico uma noite ou outra sem dormir por conta de alguma preocupação, é por culpa sua.

Como você pode ser tão, tão, tão preocupado com o futuro, menino? Eu entendo que você sofre de um caso severo de fome de vida, mas lhe peço para prestar um pouco mais de atenção. Você vai perceber o quanto de vida está ao seu redor agora.

Por isso lhe escrevo: para pedir que use da sua preocupação, que é tanta, para se preocupar apenas do momento em que vive agora.

A cidade em que você mora, pequeno eu, ela vai durar muito pouco tempo. Vai durar pouco tempo a rua do jeito que está. Vai durar pouco tempo a vendinha do lado da sua casa que vende picolé a quarenta centavos. Aliás, vai durar pouco tempo a possibilidade de comprar coisas com quarenta centavos.

Quer dizer, a cidade vai ficar no mesmo lugar, e vai melhorar muito! Muitas ruas vão se abrir, comércios vão prosperar e uma quantidade enorme de gente vai fazer uma vida linda aí. Acontece que, nessa fome tão grande de vida, você vai embora – e um lugar nunca mais é o mesmo depois que se vai embora dele.

Então ocupe-se do momento.

Aproveite as manhãs que você passa na casa da sua avó, olhando a grama queimada da geada enquanto ouve o chiado do rádio sintonizado no Carrapicho. Aproveite a comida que sua avó faz. Você vai revisitar cada uma dessas refeições um milhão de vezes na sua cabeça.

Aproveite o Diário do Povo que chega todas as manhãs na loja do seu pai. O jornal vai mudar de nome, seu pai vai vender a loja e, mesmo que você compre uma edição na banca, não vai mais encontrar o Boleslau Chispa que tanto te faz rir.

Peça para o seu irmão te ensinar a andar de bicicleta, não fique só olhando. Sempre que puder, vá brincar no terreno baldio da frente da sua casa. Suba na árvore que você gosta, role na lama, faça guerrinha de mamonas com seus vizinhos. São poucas as oportunidades que a gente tem para fazer guerras que terminam em risada.

Além disso, o terreno baldio vai virar um prédio gigante, e nenhum dos moradores de lá vai entender que você, por direito, sempre vai se sentir dono daquele pedaço.

Eu sei que parece difícil, querido, mas aproveite a escola – nem que seja apenas pelo pensamento de que ela um dia acaba.

Se possível, anote o nome dos seus colegas de escola num caderninho, e cuide do caderninho com toda a atenção que puder. Eu sei que hoje eles parecem figuras centrais na sua vida, mas em algum tempo os nomes vão começar a se embaralhar e mesmo alguns dos seus amiguinhos mais próximos vão virar memórias embaçadas. Ainda assim, você vai sentir falta deles. É importante ter aliados para preservar nossas memórias.

O tempo é duro mas vai te ajudar a entender muitas histórias que hoje parecem confusas. Por exemplo, você vai entender porque riem tanto da sua colega de escola que vai pra aula todos os dias com o mesmo sapato social: os anos vão passar e vai lhe cair a ficha de que os pais dela não tinham dinheiro pra comprar outro.

Você vai entender porque é importante quando seus pais vão visitar a vizinha velhinha e te levam junto. É tão curta essa fase da vida em que a gente ilumina uma pessoa simplesmente por estar ali! Receba cada apertão de bochecha que ela lhe dá como um presente.

E não tenha medo de perguntar para ela porque é que ela está ficando careca. As pessoas gostam muito de falar sobre as coisas que elas também sofrem para entender.

Por último, preste atenção nos seus pais. Eu sei que você é uma criança e quer porque quer um que a atenção venha deles, mas com um pouquinho de esforço você vai perceber que eles também estão precisando muito do seu carinho. Não é fácil estar no pedaço da vida em que eles estão, você vai ver quando chegar aqui.

Menino, se escrevo essa carta é porque sinto que você aproveitaria muito bem esse conselho de vinte anos depois. Infelizmente não há correio que a entregue para o passado.

Não importa. As crianças que continuam vivas não vão para o céu, mas com sorte vão para o fundo de um peito cheio de lembranças carinhosas. Haja espaço nesse peito: nele estão seus avós, as casas em que você morou, cada pessoa que passou por seu caminho e muitas, muitas saudades. É para lá que eu endereço essa carta.

Com um abraço apertado e um cafuné no cocoruto,

Você, vinte anos depois.

PS: Se não me falha a memória, uma das suas maiores preocupações é a de crescer e não ganhar mais cafuné, essas coisas tão maravilhosas que parecem reservadas exclusivamente às criancinhas. Não se preocupe: não vão faltar cafunés pelo caminho. A melhor lição dos próximos anos é que não existe vergonha nenhuma em pedir cafuné quando se precisa de um. Todo mundo precisa de colo de tempos em tempos. Além do mais, a vida nunca nega carinho a quem tem carinho por ela.



Flávio Voight

É psicólogo da Oriente Psicólogos Associados, de Curitiba, cuja página no Facebook, que aposta no bom humor para falar de comportamento, possui mais de 350 mil seguidores.

Crédito Fotos: Fotos: Rita De Cassia Colla De Almeida Rocha/Acervo Histórico do Departamento Municipal de Cultura de Pato Branco.

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