quinta-feira, maio 26, 2022

Histórias do skate em Pato Branco

Desde os anos 70, várias gerações de jovens usam as ruas da cidade para praticar um dos esportes radicais mais populares do mundo. Vanilla lembra parte dessa trajetória, pelas palavras de dois importantes personagens

Por Nelson da Luz Junior – Colaborou: Milena Chaise

Por volta de 1976,Pato Branco tinha pouquíssimas ruas asfaltadas.Segundo a memória do técnico em eletrônica Marcos Macagnan, eram duas, um trecho de três ou quatro quadras da Caramuru, a via que passa em frente a prefeitura, e a Itabira, carinhosamente chamada de tobogã pela turma de Marcos, que na época era um adolescente de 16 anos. Eram tempos em que a diversão da juventude era basicamente o futebol. “Havia muito jogo de bola. Não tinha quase nada pra fazer, era interiorzão mesmo, a cidade era muito pequena”, lembra o técnico.

Ainda em meados daquele ano, desembarcou em Pato Branco uma novidade que mudaria a rotina daquela piazada, e se tornaria o marco zero de um esporte e de uma cultura que só sobrevive até hoje na cidade.

Um amigo de Marcos, filho de um compadre do seu pai, trouxe de Porto Alegre um skate, e aquilo o fascinou. Sem internet, e por estar longe demais das capitais, as informações demoravam a chegar ao Sudoeste, e era mais complicado do que hoje pesquisar sobre aquela novidade.

Mas embaixo daquela tábua com rodinhas havia uma marca, “Torlay”, e um número de telefone. Marcos, que já trabalhava e tinha seus trocos, fez a ligação e comprou o seu skate, que não custava um absurdo, o equivalente hoje a cerca de R$ 100 reais, ele estima, ponderando que a conversão para a moeda corrente pode não ser muito precisa.

Alguns amigos de Marcos também compraram skates, pelo mesmo caminho, o telefone, e foi então que as ruas asfaltadas da cidade viraram pistas. No grupo estavam, por exemplo, Paulinho Sartor e Edson Daligna.  

Mais tarde, o Paraguai também se tornou um fornecedor de skates, de outro modelo, o Hang Tem, que vinha dos Estados Unidos. “É a marca que tinha rodinha de poliuretano, transparente, era uma coisa assim fora do comum”, lembra Marcos.

A inclinação das ruas já dava um impulso por si só. Marcos explica que naqueles tempos não haviam manobras como vemos hoje. Era basicamente ladeira abaixo, mas a vontade de desafios maiores fazia a turma se virar nas inovações.

Com rolos de linha encontrados em alfaiates, os guris simulavam cones para serem driblados na descida e dificultar a brincadeira. Também se improvisavam rampas, com tábuas de compensado. Foi aí que o skatistas começaram a ter plateia. “A rampa dava uns três metros de altura e aí chegava em cima e dava uma batidinha pra tirar uma rodinha fora, tipo surfista quando chega na onda. A gente fazia isso e enchia de gente assistindo”.

A prática cresceu a ponto de aos domingos, o trecho asfaltado da rua Caramuru ser fechado para a prática do esporte, que era acompanhada com interesse pela população. Mas também tinha quem torcesse o nariz.

Andar de skate também era sinônimo de ouvir música, às vezes, de ouvir música alta. No aparelho de som, as fitas K7 tocavam Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple, Creedence Clearwater Revival, em resumo, “tudo o que existe de bom no Rock n Roll”, nas palavras de Marcos.

As rampas, porém, saturaram, e foi preciso repensar a brincadeira. Foi então que os skatistas do fim dos anos 70 em Pato Branco adotaram o skate a vela. Com um mastro e uma vela adicionados ao skate, os jovens usavam a longa pista asfaltada do Aeroporto Juvenal Cardoso para andar de skate movido a vento.

Marcos calcula que o auge da primeira geração de skatistas de Pato Branco durou cerca de um ano e meio. O tempo foi passando, os praticantes foram atingindo a maioridade, namoradas surgem, o trabalho começa a ocupar cada vez mais tempo, e aos poucos a prática foi perdendo espaço na lista de prioridades.

Mas não foi abandonada. Marcos tem alguns de seus skates até hoje, e diz ainda andar de vez em quando. Ele também guarda lembranças e fotos dos tempos de pioneirismo, quando praticar skate também rendia dores, por conta da falta de equipamentos de segurança. “Na verdade, eu nunca parei, mas com aquela intensidade, puts… Chegava final de semana e chovia, cara, eu chorava, não podia andar de skate né? Trabalhava todo dia e estudava onde hoje é o Agostinho Pereira. Ia para a aula de noite e levava o skate junto”.

Os esportes radicais continuaram fazendo parte da vida de Marcos. Depois do skate, veio o caiaque, com o qual ele explorou os principais rios da região. Marcos também é bastante conhecido por seu envolvimento com o paraquedista, modalidade do qual é atleta e instrutor.

“Diferente de tudo”

Até seus 12 anos de idade, mais ou menos, Xico Basabe pouco tinha ouvido falar de skate. Mas em um dia qualquer, enquanto papeava com amigos na região da baixada industrial, um grupo de skatistas passou pela rua. Um deles fez uma manobra no meio fio – se não lhe falha a memória, foi André Macarini – e Xico decidiu que precisava daquilo. “Foi paixão mesmo, parecia que era algo diferente de tudo o que eu tinha visto”. Isso aconteceu quase 20 anos depois que a turma de Marcos Macagnan andava pelas ruas de Pato Branco.

Ele ganhou seu primeiro skate da irmã, em um amigo secreto da família, depois de meses pressionando para ter um. Ele tinha 14 anos. Eram tempos em que o skate não era tão popular enquanto esporte como é hoje. A modalidade era até marginalizada, rendendo olhos tortos por parte da comunidade e até mesmo por policiais. Xico acredita que isso tudo, aliado com o receio de que fosse uma prática perigosa fez com que o presente demorasse tanto.

A expectativa era tanta que o guri foi as lágrimas, mesmo o produto sendo de uma marca vagabunda. Sua primeira pista foi o estacionamento do Supermercado Patão. “Já me lancei, cai e me esfolei, do queixo até o umbigo. Mas foi aquela alegria”, lembra.

Com o skate “de plástico”, Xico percebeu que não chegaria tão longe, apesar da dedicação. Quando pôs as mãos em um shape de qualidade, comprado em uma viagem a praia, com moedas contadas, ele sentiu a diferença. Com poucas lojas especializadas no segmento, muitos equipamentos eram conseguidos com os skatistas de gerações anteriores, batendo de porta em porta.

Xico considera que sua turma faz parte da terceira geração de skatistas de Pato Branco. Entre a dele e a de Marcos Macagnan, houve pelo menos mais uma, nos anos 80.

Nessa altura, a modalidade já estava mais madura, e havia mais coisas a se aprender. Trocando informações com outros praticantes e assistindo a vídeos, os atletas locais passaram a tentar reproduzir manobras, básicas, como o Ollie e o Flip. “No começo inventava, sei lá, pula de costas (risos). E aí foram aparecendo os vídeos e as revistas.  A gente falava tudo errado, mas fomos aprendendo. Vídeo de skate foi uma evolução muito grande, foi aí que a gente viu o que era possível fazer”, lembra.

Depois de alguns anos de prática, o skate era quase uma obsessão para o skatista. Ele conta que andava o dia todo, e não raro, madrugadas adentro. A consequência foi uma notável evolução. O período, início dos anos 2000, coincidiu com alguns dos primeiros campeonatos de skate realizados no Sudoeste.

Xico não lembra se o primeiro campeonato que participou foi em Dois Vizinhos ou Chopinzinho. Mas tem certeza que foi esse que também lhe rendeu seu primeiro patrocínio, do Reis, conhecido tatuador local.

A competições em cidades maiores, porém, é que foram uma revelação para os atletas sudoestinos. Eles reuniam os melhores atletas, que realizavam demonstrações de alta habilidade. Depois de participar de um torneio em Cascavel, Xico ganhou seu segundo patrocinador, e passou a ter subsídios para ir ainda mais longe.

Um de seus triunfos foi conquistar o Circuito Paranaense, “na bobeira”, como o próprio descreve. Não que vencer não fosse um objetivo, mas a diversão era uma das prioridades. “Reuniu a galera para o campeonato lá em Paranaguá nos divertimos pra caramba e pá, ganhei. Teve outro campeonato, acho que em Guarapuava. Ganhei. Aí foi indo”, conta.

A última etapa era em Curitiba, e Xico competiu mesmo com o pé machucado. Ficou em terceiro, mas pontuação geral garantiu o título estadual. Justo naquele ano, porém, o principal prêmio, uma viagem para competições nos Estados Unidos, foi cancelada, e Xico voltou para Pato Branco apenas com um troféu. Aquilo ficou engasgado. Não era possível ter chegado tão longe e no fim das contas não conseguir competir no exterior. Ele daria um jeito.

Espanha

As ruas de Barcelona são como um parque de skate. Muitos dos vídeos que Xico havia visto foram feitos por lá, e a cidade espanhola parecia um destino natural. A mudança uniria o útil ao agradável, pois além de buscar oportunidades como atleta, o skatista também conheceria o país onde seu pai nasceu.

Em fevereiro de 2007, Xico desembarcou em Barcelona com duas malas, o skate e 700 euros no bolso. Sem contatos, sem falar o idioma local e sem conhecer a cidade. “Não sabia nem pedir um quarto, pensei que ia ser mais simples, na verdade eu nem pensei só fui”, lembra. A primeira noite passou na rua, abraçado as malas para se proteger do frio.

Pela manhã já ouviu o barulho dos skates. Na Espanha, Xico começou a se estruturar com a ajuda de conhecidos com os quais havia cruzado em campeonatos no Brasil. Pelo caminho, ele dividiu o teto com uma família de peruanos e conseguiu trabalho no aeroporto.

Até que surgiu a chance de competir em um torneio regional. Venceu, e com o prêmio comprou um notebook, para facilitar seu contato com o Brasil.

Por intermédio de um amigo, Xico foi apresentado a uma austríaca, que estava criando uma marca de produtos para snowboard e skate, a Log. O contato rendeu um patrocínio, e ele passou a competir com muita frequência, em torneios locais, menores, mas que pagavam prêmios em dinheiro. Entre 2007 e 2008, venceu vários.

Na Áustria Xico conheceu a vida de atleta profissional e suas exigências. “O skate sempre foi paixão. Eu gostava de sentir o ar na cara, aprender manobras, sobretudo estar com os meus amigos e fazer por prazer, no profissionalismo isso muda”, resume.

Agora ele também precisava render, pois a marca tem seus critérios e objetivos, e não era isso que ele queria. A pressão e a falta de sintonia com seus princípios o fizeram voltar para Barcelona. 

Por lá ele continuou andando, mas também começaram as crises, econômicas, que fizeram rarear os campeonatos, por exemplo, as pessoais e as físicas, depois de alguns machucados. Após uma lesão feia ele chegou a receber a sentença de que não poderia mais andar de skate, revogada depois de consultar outras opiniões médicas. Uma razão familiar o fez voltar ao Brasil.

Da Espanha, Xico Basabe trouxe alguns legados. Além do patrocínio da Log, ele também ganhou suporte de outra marca, a HeyHo, que lhe homenageou com dois shapes signature.

Outro feito foram as competições. Ele participou de competições europeias e mundiais sediadas na Europa, onde esteve lado a lado com algum dos principais nomes da modalidade. Chegou a disputar as finais em pelo menos duas ocasiões, nestes que foram quase certamente os maiores feitos realizados por um atleta pato-branquense da modalidade.

Ele presta tributo a seu primo, Maco, que também viveu em Barcelona, e que na avaliação de Xico só não chegou tão longe por ter aberto mão de competir. “Ele teria nível e capacidade de inclusive ir melhor que eu”, avalia. Maco seria membro de uma quarta geração de skatistas de Pato Branco.

De lá pra cá existiram pelo menos mais duas. Ele avalia que a persistência dos praticantes, somado ao aumento da popularidade e da seriedade no meio do esporte fizeram com o skate se tornasse mais aceito localmente. “Acompanhei toda essa mudança. Não vou julgar, porquê é normal você recriminar o que não entende ou não reconhece. Agora já é não é mais um bando descendo pra cima e pra baixo. Já é um esporte”.

Nota da redação

Por uma série de circunstâncias, a reportagem não conseguiu entrevistar alguns nomes importantes para a história do skate de Pato Branco, bem como considerar entrevistas feitas durante a apuração. Agradecemos a colaboração de Carlos Augusto Vieira, Déborah Zeni Antoniazzi, Iliana Fernanda e Amanda Murieli Weber.

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