quinta-feira, maio 26, 2022

Verdadeiro ou falso

Informação não é um jogo. Ou você não coloca sua mão no fogo pelas notícias que anda consumindo?

Mariana Salles

Recentemente, o Facebook perdeu quase 3 milhões de usuários por ajudar na disseminação das fake news, aquelas notícias falsas que se multiplicam diariamente a fim de confundir — ou mesmo brincar — com quem está apenas passando os olhos no seu feed. Entre eles, uma maioria esmagadora de jovens de até 26 anos, que antes utilizavam a rede social como principal meio de se informar, conforme apontou o Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo.

Por conta dessa baixa, grandes empresas resolveram deixar de anunciar na empresa de Mark Zuckerberg, e voltaram a investir na segurança dos meios tradicionais, como mídias impressas, grandes portais, rádio e televisão. Essas empresas da comunicação, por sua vez, reduziram sua atuação dentro da rede social, como medo de serem atreladas aos fatos inventados e dissipados com o vento.

Apesar de a propalação de notícias falsas na internet ser o assunto da vez, é importante relembrar que isso existe muito, muito tempo antes do Facebook. Há um dizer, popular entre os jornalistas, falando que a primeira vítima da guerra é a verdade. A mentira nasceu com a civilização e, politicamente, sempre foi usada para manipular a população.

Quando falamos em política, no entanto, não estamos tratando de partidos, candidatos, processos eleitorais, direita e esquerda. Tratamos aqui da ciência da organização; da arte de direcionar uma nação. E os fatos, reais ou inventados, são capazes de mudar o direcionamento dos povos.

Um exemplo disso foi uma fake news divulgada em 26 de fevereiro de 1998, em Londres, na forma de um estudo científico publicado na conceituada revista científica Lancet, dizendo que vacinas tinham relação com o aumento do diagnóstico do autismo.

Hoje, 20 anos depois, ainda é um desafio médico lidar com a histeria causada naquele momento. Por causa dessa falsa notícia, surgiu um movimento anti-vacina bastante forte nos Estados Unidos e Europa, que respinga por todo o mundo. A consequência da baixa na imunização é a volta de doenças graves que já haviam sido praticamente erradicadas, como a Poliomielite, que voltou a ser manchetes de jornais e preocupação para a saúde pública.

Manchetes, boatos e intolerância

A falta de hábito de leitura e checagem de informação também não é uma novidade. No Brasil, 44% das pessoas declaram que não se interessam por leitura. E mesmo as que leem não conseguem interpretar o que está escrito. Ao menos é o que indica uma pesquisa sobre alfabetização realizada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), divulgada no fim de 2017.

Segundo seus dados, apenas 8% das pessoas que completaram o Ensino Médio estão no melhor índice de alfabetização.

Soma-se a isso outro dado bastante desestimulante: um outro estudo mostra que 25% das músicas do Spotify são puladas menos de 5 segundos depois de iniciar sua reprodução, e metade são ouvidas somente até a metade. Assim também ocorre com os vídeos do YouTube. Se falta paciência para o entretenimento, quem dirá pela informação.

É lendo apenas manchetes que a maioria das informações são compartilhadas. Afinal, quem lê um texto até o fim?

Para medir o alcance das fake news, um empresário resolveu jogar na rede que o ator Selton Mello teria entrado para o elenco da série Game Of Thrones. Claro, a história era uma invenção. Resultado: mais de 500 tuítes, 3 mil compartilhamentos com 13 mil curtidas no Facebook, matérias em grandes portais, como UOL, Ego, Bandeirantes.

Com consequências muito piores, um boato iniciado na internet levou a óbito a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, que vivia em Guarujá – SP. Ela foi espancada até a morte depois que a  foto de uma mulher parecida com ela foi divulgada em uma página no Facebook, dizendo que ela sequestrava crianças para utilizar em rituais de magia negra.

Rapidez e aceitação

Ao analisarmos os números, é perfeitamente compreensível que a maioria das pessoas não se aprofunde nos conteúdos. Centenas de títulos são jogados na rede por minuto, entre verdadeiros e falsos, em uma timeline que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana.

O tempo médio geral do giro de um link em uma rede social é de três horas, desde o seu lançamento até a sua morte. No caso de notícias, esse tempo é de apenas 5 minutos.

Em busca de aceitação, ninguém quer perder nada. Todos querem estar por dentro do assunto do momento e, claro, emitir a sua opinião. Isso quer dizer que cada pessoa tem apenas 5 minutos para curtir, comentar e compartilhar, ou seja, não há tempo para checagem de informação. É preciso reagir aos conteúdos na velocidade em que eles chegam.

Além disso, as fake news da atualidade são feitas para gerar cliques, por isso tendem a chamar mais atenção que as notícias verdadeiras.

O maior estudo já realizado sobre a disseminação de notícias falsas na internet, realizado pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Masachussetts), mostrou que as informações falsas têm 70% mais chances de viralizar que as notícias verdadeiras. Enquanto cada postagem real atinge mil pessoas, as falsas atingem de mil a 100 mil pessoas. Se falar sobre política, esse alcance é ainda três vezes mais rápido.

O tema fake news não é tão novo para o pato-branquense Jonas Rafael Rossatto. Ainda em 2011 ele criou um site chamado SmokeBud, destinado a desmentir falácias envolvendo a maconha. Hoje o portal é o maior do Brasil sobre o tema e reúne advogados, médicos e também famílias que precisam do canabidiol como medicamento. “Há muitos boatos em torno de assuntos que ainda são tabus, com fake news utilizadas principalmente para embasar argumentos sobretudo mais conservadores”, acredita. “Já conseguimos desmentir muita informação falsa”, admite.

As redes sociais, no entanto, não têm como filtrar o que é verdadeiro e o que é falso, e por isso, como dissemos lá na abertura, vêm perdendo o impacto que tinham como fonte de informação, assim como vêm sendo cobradas por sua responsabilidade ética e vulnerabilidade sobre esse processo que perdeu o controle.

Após a cobrança de autoridades de diversos segmentos, os responsáveis pelas redes sociais têm pensado em alternativas e algoritmos que combatam o problema.

Recentemente, por exemplo, o Facebook resolveu priorizar a visualização de postagens de familiares e amigos na timeline de seus usuários, e removeu várias páginas e contas que propagavam notícias falsas.

Entre elas, várias ligadas ao MBL (Movimento Brasil Livre), grupo que possuía o maior engajamento na rede social e que nasceu com o mote “anticorrupção”.

No total, a empresa retirou 196 páginas, enquanto 87 contas foram removidas com base no código de autenticidade da rede, por “esconder das pessoas a natureza e origem de seu conteúdo” e ter o propósito de gerar “divisão e espalhar desinformação”.

Segregação

Em outras redes sociais, como o WhatsApp, que tendem a aproximar pessoas com opiniões convergentes, esse controle é impossível de ser feito. E são eles que vêm absorvendo os remanescentes.

Sobre isso, o fotógrafo Marcos Piva acredita que as pessoas tendem a acreditar nas notícias que elas querem que sejam verdadeiras. “Tudo nos afastará da checagem dos fatos quando estamos dentro da bolha ideológica que ajudamos a ‘internet’ construir pra gente. De qualquer forma, essa coisa de procurar a verdade é uma estrada que dói, às vezes temos que furar a bolha”, analisa. “E, contra o estouro da bolha, toda checagem de fato pode ser vista como ideologia da qual não podemos nem escutar”.

A professora universitária Rosangela Marquezi diz que, quando a fonte não é de um jornal já estabelecido, acaba sempre dando um “Google” antes para confirmar. “Muito embora, mesmo assim, corre-se o risco de que a ideologia que predomina o estilo do jornal nos engane. O fato existe, mas a interpretação que se dá a ele, muitas vezes, inverte o sentido. Sem entrar na discussão política, há um exemplo bem clássico que é a das notícias referentes ao MST [Movimento Sem Terra]. Em um jornal de linha editorial contrária ao movimento, leríamos um título assim: ‘MST invade a Fazenda X’; em um com linha editorial favorável: ‘MST ocupa Fazenda X’. Ou seja, o fato aconteceu, mas aquela notícia que você compartilharia (invasão ou ocupação) define a sua ideologia, pois o discurso nunca é neutro”, analisa.

E você, será que você nunca compartilhou uma notícia falsa?

Outra pesquisa, desta vez sobre fake news na visão dos brasileiros, realizado pelo Digitalks, mostrou que 47% dos entrevistados disseram nunca compartilharam algo e depois descobriram ser fake, mas 16% não puderam afirmar com certeza se nunca se equivocaram ao disseminar uma informação.

Do outro lado, 37% afirmaram que, sim, já dividiram com os amigos alguma fake news.  Desse total, 57% apagaram o post ou mensagem assim que descobriram e outros 29% desmentiram a informação.

Em contrapartida, 79% já identificaram algum amigo ou parente compartilhando notícias falsas, sendo que 46% avisaram a pessoa em particular, 38% comentou na própria publicação e apenas 15% não fez nada.

E de quem seria a responsabilidade de verificar se a informação compartilhada nas redes sociais é verídica? Sobre essa questão, 30% afirma que é de quem compartilhou, 28% acredita que é do veículo, 25% da rede social e apenas 17% afirma ser do leitor.

O geólogo Guilherme Tavares diz que letras garrafais sensacionalistas já contam três pontos de desconfiança antecipada, mas bom senso não é o suficiente. “Fake news sempre existiu e vai continuar existindo. Não existe um ensino educacional que estimule a crítica reflexiva e a pesquisa, logo, quanto mais ela for contada, acessada e tiver likes, mais se torna uma ‘verdade’”, diz.

Outra opinião de Piva sobre fake news é que as pessoas que se importam geralmente são as que perdem com a desinformação. Já as que ganham, comemoram ou silenciam. “Mentira dá muito dinheiro, e existe um mercado de fake news que busca acesso em páginas que imprime publicidade. Ou seja, nada de novo. De forma prática, acho que bom é sempre duvidar da mídia que se leu o fato, mesmo as mais conhecidas, que muitas vezes dão a informação de maneira enviesada, além procurar em outros lugares, como na concorrência daquela mídia, páginas de checagem de boatos, etc. E investimento pesado em educação por muitas décadas ajuda bastante também”, finaliza.  

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