quinta-feira, maio 26, 2022

Longe de casa

Quando chega a hora do Ensino Superior, optar por estudar em uma cidade diferente proporciona a milhões de jovens oportunidades e experiências incríveis, que talvez nunca fossem vivenciadas caso não passassem pela universidade

Por Jéssica Procópio/ Nelson da Luz Junior e Mariana Salles – Fotos: Helmuth Kühl

Graduar-se na profissão dos sonhos faz com que muitos jovens abram mão do conforto e da comodidade da casa dos seus pais para vivenciar novas experiências em um local desconhecido.

Longe dos cuidados da família, essas pessoas precisam lidar com situações que antes não faziam parte de seu cotidiano, como administrar o dinheiro, cuidar de uma casa e dividir moradia com outros estudantes.

Pato Branco recebe todos os anos centenas de novos estudantes vindos de todas as partes do Brasil. A presença dos universitários movimenta a economia local e traz histórias como a da menina do Amazonas, que viajou quase quatro mil quilômetros em busca de um diploma; a do jovem que ao participar de um projeto universitário embarca para os Estados Unidos em competição renomada; a dos irmãos que, em busca de um sonho, vieram do interior de São Paulo para Pato Branco e encontraram aqui qualidade de vida; ou ainda a de Leonardo, o músico que trocou a engenharia pelos palcos.

A estudante Edivânia, natural do Amazonas, com a tia, Marcia

Do Apuí para o Sudoeste

Ainda no primeiro ano do Ensino Médio, Edivânia Machado Simonetti, moradora de Apuí, cidade do Amazonas de aproximadamente 21 mil habitantes, que fica a 408 km da capital, Manaus, sempre teve o sonho de ingressar em uma universidade. Sua cidade não tinha um curso pré-vestibular, por isso ela fez a prova do Enem somente com o conteúdo que aprendeu durante a escola– e ainda enfrentou problemas para se inscrever devido à má qualidade de internet naquela região.

Quando soube do resultado, muitas coisas começaram a mudar em sua vida. Seu bom desempenho possibilitou que ela pudesse decidir para onde queria ir. A instituição de ensino superior mais próxima de sua família ficava em Porto Velho, capital de Rondônia, a 604 km de distância de Apuí — em logística, se converte em um dia inteiro de viagem. O percurso ainda é mais perto do que de Manaus, onde são necessários três dias de viagem, pelo rio, de barco.

Ao escolher suas opções de cursos, Edivânia entrou no mesmo dilema de muitos estudantes ao optar por onde estudar: o custo financeiro. E mesmo com notas suficientes para ser aprovada nas instituições escolhidas, a jovem precisou mudar seus planos para conseguir bancar seu sonho. Foi aí que Pato Branco passou a ser uma opção viável. Com parentes na cidade, recaiu seu olhar sobre o município que nunca havia visitado.

Incentivada pela mãe, a estudante se inscreveu no Programa Universidade para Todos (Prouni) para concorrer a uma bolsa de 100% no curso de Direito na Faculdade Mater Dei. “Eu acreditava que não iria conseguir, pois era ofertada apenas uma vaga”, relembra.

No dia 7 de fevereiro deste ano, ao consultar o resultado da seleção, viu seu nome na lista de aprovados. A partir daí, teve menos de uma semana para decidir se deixaria sua cidade. Em conversa com seus familiares, chegou a conclusão que teria menos gastos ao optar por Pato Branco.

Vinda de uma família humilde, Edivânia contou à reportagem que os pais, funcionários públicos, sempre receberam o suficiente para sobreviver, mas nunca puderam fazer viagens e nem teriam condições de oferecer à filha estadia para estudar em uma universidade em uma cidade maior. Essa história, na verdade, se repete em muitas famílias brasileiras.

Foi assim que no dia 14 de fevereiro de 2019 desembarcava na rodoviária de Pato Branco mais uma universitária, vinda do Amazonas. “Fiz tudo sozinha, não tinha ninguém para vir comigo. Nunca tinha saído da minha cidade e nem andado de avião.”

A jovem agora mora com a tia e está encantada com o município, não quer mais voltar para Apuí. “Eu abri mão de muitas coisas para poder vir. Já chorei de saudades, mas estou muito feliz com meus estudos, tudo está fluindo”.

A coragem de se mudar para tão longe vem de família. A tia com quem hoje mora, Marcia Simonetti, contou que aos quatro anos de idade foi embora de Pato Branco, com os pais, para morar em Apuí. “Havia promessa de progresso e de terras, então fomos em busca de uma melhor condição de vida”, explicou.

Aos 12 anos, em uma visita aos familiares que haviam ficado no município, Marcia não voltou para o interior do Amazonas, ficou em Pato Branco para estudar.

“Não sei como vai ser daqui para frente, tudo é muito novo. Mas uma coisa eu sei. Vou ficar e me estabilizar para ter uma condição financeira que me permita ir ver de novo minha família e até mesmo trazê-los para morar comigo”, Edivânia Machado Simonetti  [3] [r4] [r5] 

República de irmãos

Dois dos irmãos Bazarin Veríssimo de Guararema, São Paulo

A família Bazarin Veríssimo apostou que Pato Branco seria o melhor local para que seus filhos alcançassem o objetivo de se formarem engenheiros. Foi assim que três irmãos, vindos de Guararema, interior de São Paulo, chegaram aqui há 4 anos.

Tudo começou quando Wellington, o mais velho, foi aprovado pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), em 2015, para o curso de Engenharia Mecânica, na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Em seguida, Everton resolveu seguir o mesmo caminho do irmão mais velho. A família, contente com a qualidade de vida do município e com o custo acessível para viver, decidiu que Leonardo, o irmão mais novo, também viria morar em Pato Branco para estudar.

A opção mais viável foi morar em família ao invés de viver em repúblicas. “Não só porque fica muito confortável, psicologicamente, para a gente, como também fica bem mais viável economicamente”, explicou Everton.  

O estudante relembra que, para isso, tiveram bastante trabalho para alugar um imóvel. “Foi preciso muita conversa com as imobiliárias. Como universitários, sentimos que não há facilidades na hora de alugar”. Por não conseguirem encontrar um fiador, precisaram pagar três aluguéis adiantados para garantir o imóvel.

“Era difícil encontrar um apartamento que tinha um custo acessível ao nosso bolso, que fosse bem localizado e que aceitasse alugar para universitários. A condição de sermos irmãos facilitou”, pontuou.

Os meninos gastam em torno de R$ 3.000 por mês, entre aluguel, condomínio, luz, internet, alimentação e transporte. “Este valor seria o dobro se tivéssemos optado por morar na capital”, esclareceu Leonardo.

Os irmãos não são beneficiados com nenhuma bolsa da universidade, e realizam alguns trabalhos informais para ajudar nas despesas. “Fazemos um pouco de tudo, formatamos um computador, instalamos um chuveiro e também arrumamos celular.”

Everton contou à reportagem, que um ano depois de já estar morando em Pato Branco, a namorada decidiu mudar-se para cá. “Ela encontrou aqui o curso que queria (biomedicina), já trabalha na área e tudo isso com um valor acessível. Minha namorada ama a cidade.”

De Bauru para o Mundo

Eduardo, piloto da equipe Pato a Jato, da UTFPR

Com 23 anos, o estudante de engenharia elétrica Eduardo da Silva Gomes Júnior viaja pela primeira vez aos Estados Unidos para participar da maior competição de eficiência energética do mundo, na qual será o piloto do protótipo que faz o maior percurso com o menor consumo de combustível.

O universitário, que embarcou no final de março, conheceu Pato Branco ao procurar por lugares onde fosse ofertado o curso que desejava. “Quando comecei a procurar pelas instituições, pesquisei sobre Pato Branco. Ainda não tinha ouvido falar sobre a universidade, mas fui atrás e me empolguei. Fiquei encantado pela cidade. Aqui as ruas são limpas, o município é organizado e os motoristas respeitam os pedestres”. Ainda assim, o que mais atraiu Eduardo foi a qualidade da graduação.

No início, o universitário morou seis meses em uma pensão, e depois alugou um apartamento junto com um amigo. Assim como os irmãos Bazarin Veríssimo, o jovem também teve dificuldades para alugar um imóvel. “Para conseguir locar, meus pais tiveram que vir a Pato Branco e alugar no nome deles. Resolveram as burocracias e assumiram as responsabilidades por nós. Foi só por isso que nos aceitaram”, desabafou.

O universitário contou a reportagem uma situação constrangedora que passou com a família, ao alugar um imóvel. “Havíamos feito todo o processo burocrático para alugar e, na hora da mudança, o síndico nos barrou e não deixou a gente entrar. Hoje em dia é o mesmo prédio em que resido, só que agora sou o proprietário”, contou. “Em dois ou três dias foi preciso arrumar outro imóvel. Foi um grande transtorno.”

Os pais de Eduardo perceberam o potencial econômico do município e investiram suas economias na aquisição de um apartamento para o filho, que hoje divide o imóvel com a namorada e gasta aproximadamente R$ 700 ao mês, com conta de luz, internet, condomínio, alimentação e transporte.

Há um ano, os pais do estudante estão desempregados, e mantém o filho no município com economias e com alguns trabalhos informais que a mãe exerce.

O jovem que veio e não quis voltar

Leonardo Lembranci, nascido na Bahia, capixaba de coração e músico residnete em Pato Branco

A vocação para músico surgiu ainda com dez anos, com um presente do tio: um violão. O menino nascido em Eunápolis, no sul da Bahia, mas capixaba de coração, aprendeu a tocar o instrumento sozinho, vendo vídeos na internet e, mais tarde, aos 20 anos, começou a trabalhar com a música.

Essa é a história de Leonardo Trevisani Lembranci, que chegou a Pato Branco, para fazer uma faculdade. Mas foi nos bares do município que o músico percebeu que sua paixão não era pela Engenharia Civil, mas pelos acordes.

“Quando estava no quinto semestre, comecei a tocar por hobby, porque eu queria ter um trocadinho, comprar um equipamento, uma renda extra. Percebi que quanto mais avançava no curso, menos eu me via engenheiro”, contou Leonardo. O hobby, então, se tornou profissão. “Eu fui fazendo umas apresentações sem compromisso, e percebi que a galera achava legal”.

Aos poucos, Leonardo começou a receber mensagens de pessoas querendo contratá-lo. Segundo ele, ia somente com um violão e a gaita, pois ainda não tinha os equipamentos que utiliza hoje. “No início, alugava o que faltava. Aos poucos fui conseguindo comprar, com meu trabalho, meus equipamentos e investir na carreira”.

Com o crescimento de seu trabalho, Leonardo abandonou a engenharia e hoje frequenta o curso de Marketing, que irá ajudá-lo em sua profissão. “Desde então, tenho tocado e produzido. Eu sobrevivo da música. No começo tocava três dias por semana, agora tem semana que eu toco todo dia, mas usualmente toco até cinco dias por semana. Hoje eu estou muito melhor do que eu imaginava que poderia estar.”

O músico explicou a Vanilla que, mesmo após ter abandonado o curso que o trouxe ao município, optou por continuar em Pato Branco. “Foi uma cidade que me acolheu e eu me sinto muito bem vivendo aqui. Conheci pessoas extraordinárias e a qualidade de vida é muita boa”.


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