quinta-feira, maio 26, 2022

Memória restaurada

A história dos irmãos que resgataram e restauraram um Aero Willys que pertenceu a sua família

Por Nelson da Luz Junior – Fotos: Helmuth Kühl

O primeiro carro adquirido por uma família costuma ficar na lembrança por muitos anos. Edgar Deiss, médico em Pato Branco, diz lembrar quando seu pai, Artur Deiss, chegou em casa com o Aero Williys recém comprada em Chapecó, modelo do ano. Ele era uma criança de nove anos de idade, e o que se segue é a sua versão da história.

Para a época, 1964, o modelo era um veículo de prestígio, o xodó do seu Artur, que só deixou os filhos mais velhos pegarem no volante alguns meses depois.

O carro da família Deiss circulava pelas ruas sem pavimentação de Mondaí, no oeste de Santa Catarina, margem do rio Uruguai, divisa com o Rio Grande do Sul. A passeio ou a negócios, o carro levou a família também pelos municípios vizinhos, por outras regiões e ia até Porto Alegre. Cabiam quatro passageiros nos bancos da frente, e quatro no banco de trás. 

Era preciso muitas viagens, pois na cidade não havia sequer agência bancária. Estradas ruins, que obrigavam visitas frequentes a oficina mecânica para reparos.

       
Seu Artur começou seus negócios com um açougue. Depois, partiu para um armazém de produtos gerais, e para o ramo de transportes, levando madeira e os produtos do seu armazém que vendia de tudo, de feijão a sabão. Por fim, uma empresa do ramo de plásticos, que passou a ser comandada pelos filhos mais velhos após seu falecimento. Foi mais ou menos nessa época que Edgar foi cursar medicina.

Cerca de dez anos depois da compra, o Willys foi vendido para um agricultor da região, e por lá ficou até por volta do fim dos anos 80, quando foi reencontrado por um dos irmãos.

Estava ainda com o mesmo pessoal que o comprou de seu pai, com o motor desmontado, resultado de um serviço de reparo, restauração ou algo do tipo que foi interrompido.

A força da nostalgia despertou a vontade de recomprar a relíquia, e foi o que aconteceu. Além de ter sido o primeiro carro de passeio da família, carregado de histórias, todos os sete irmãos, quatro homens e três mulheres, aprenderam a dirigir no veículo.

Anos depois uma reunião foi articulada, pois a intenção era também restaurar a peça, deixar o mais próximo possível da imagem que tinha na segunda metade dos anos 1960.

Decisão tomada, o veículo foi para uma oficina de Chapecó, onde ficou por cerca de cinco anos, entre compra de peças e trabalho de restauração, até que saiu com suas placas pretas.

Refizeram o motor, a lataria, e até o rádio é original da época. Para se adaptar as normas de segurança de novos tempos, foram acrescentados cinto de segurança e espelhos retrovisores, externos e interno. Na época, o carro não vinha com nada disso.

Como todos pagaram pelo serviço, Vilma, Henrique, Erica, Nelson, Edgar, Hugo e Ingrid, foi feito um acordo para que todos pudessem desfrutar do carro e das memórias. Foi combinado um rodízio: a cada quatro ou cinco meses, o carro passaria aos cuidados de um dos irmãos.

No primeiro semestre, o Aero Willys esteve circulando por Pato Branco, com Edgar Deiss na direção. Os outros integrantes da família estão por Santa Catarina e pelo Mato Grosso.

Por onde o carro passa atrai a atenção dos curiosos. Enquanto fotografávamos Edgar ao lado do veículo, no fim de maio de 2019, um homem parou para assistir e depois olhar mais de perto. Disse que o tio teve um carro parecido.

Algumas pessoas guardam álbuns de fotografia. Edgar Deiss e seus irmãos guardam um carro na garagem.

Ultimas Notícias