quinta-feira, maio 26, 2022

Quanto custa realizar seus sonhos?

O número altíssimo no índice de endividamento das famílias brasileiras liga o sinal de alerta: quanto antes se aprender sobre equilíbrio financeiro, melhor. Partindo dessa premissa, uma cooperativa de crédito desenvolveu, junto com a Maurício Produções, um material para ensinar crianças que poupar para o futuro é a maneira mais eficaz de ter todos os seus sonhos realizados

Por Mariana Salles

Crianças da escola Integral, de Pato Branco, assistem ao filme de animação da Turma da Mônica sobre educação financeira

Conforme um levantamento feito pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, no mês de maio de 2019, 63,4% das famílias brasileiras se encontravam em situação de endividamento. Para a conta, o índice considera dívidas de cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, empréstimo pessoal, financiamento de veículo e seguro. Com parcelas em atraso, o número é de 24,1%. Também, 9,5% das famílias afirmam que não têm condições de quitar seus débitos, permanecendo inadimplentes.

Esse alto número, que pode surpreender quem não faz parte dos índices, é reflexo da crise econômica que o país atravessa. Mas não é só isso: ele reflete também que o brasileiro está financeiramente despreparado quando é pego de surpresa por algum imprevisto — que pode ser decorrente também de desemprego, um problema de saúde, mudanças nas estruturas financeiras.

“Um dos grandes problemas atuais é que as pessoas não se preocupam financeiramente com o dia de amanhã, elas não poupam para estarem preparadas para o seu futuro”, afirma o assessor de Desenvolvimento do Cooperativismo do Sicredi Parque das Araucárias, Neri Fabbris. “Sabemos que 65% da população brasileira hoje está sem crédito ou com dívidas, e mesmo assim possui uma cultura de não economizar. Isso é ruim não só para o mercado, mas também para as instituições financeiras sérias, por isso o Sicredi aposta na educação financeira”, conta.

Fabbris acredita que o processo de ensinar adultos a poupar é quase impossível porque eles já estão cheios de vícios — ao contrário das crianças, que estão em fase de aprendizado. “Elas funcionam como um instrumento de ajuda aos pais. A criança, depois que aprendeu, coloca em prática, cobrando dos adultos atitudes e ações mais sensatas. Dentro de sua inocência, ela faz essa cobrança”, acredita.

Com o foco nos pequenos, a cooperativa de crédito, através da Central da Sicredi  PR/SP/RJ, firmou parceria com a Maurício Produções  e confeccionou revistinha da Turma da Mônica com o tema educação financeira. São seis edições, cada uma com um tema específico, além de desenhos animados da Turma da Mônica falando também neste assunto. “Com este material em mãos, saímos a campo. Hoje, a maioria de nossas ações em Educação Financeira é com público infantil, mostrando que as crianças também podem ajudar os pais a economizar”.

Neri Fabbris ensina às crianças toda a logística por trás do cartão de crédito

As oficinas são divididas por públicos. As crianças de 5 a 7 anos assistem aos filmes e depois participam de roda de bate-papo. Às um pouco maiores, de 7 a 10 anos, é feita uma apresentação com questões de economia, explicando em que pontos eles podem ajudar seus pais dentro de casa e criando nelas a responsabilidade de colaborar no orçamento familiar, assim como saber o valor das coisas que ganham. Acima de 9, 10 anos, a linguagem vai mudando, falando mais sobre a responsabilidade que ela tem de economizar, de ajudar o pai e a mãe a terem conhecimento financeiro, a fiscalizar as contas de casa fazendo planilhas de ganhos e gastos, que são questões básicas do orçamento familiar.

Para colocar tudo isso em prática, o Sicredi formou uma equipe de multiplicadores de educação financeira com cerca de 40 pessoas formadas para trabalhar didaticamente com o assunto. “Temos uma ou duas pessoas em cada agência e também na sede administrativa. Estamos disponíveis para aplicar a educação financeira às crianças utilizando esse material, todo com a Turma da Mônica. Basta a escola interessada entrar em contato com o Sicredi para agendar o trabalho”, informa o assessor.

Dinheiro não nasce em árvore

E não pense que o trabalho incentiva apenas os pequenos a guardar moedas em cofrinhos (até porque, dessa maneira, o dinheiro poupado não faz a economia girar): o objetivo é fazer com que elas entendam desde pequenas que as coisas custam dinheiro e que para comprá-las é preciso ter recursos. “A criança vê o pai passando o cartão de crédito na maquininha, sacando dinheiro, e acredita que basta ter um cartão; ela não entende todo o processo que tem por trás disso. Uma de nossas preocupações é mostrar que, para que o pai possa pagar com o seu cartão, ele precisa trabalhar, depositar dinheiro em uma conta, recursos que são gerados através do seu trabalho, seu emprego”, resume.

Outra preocupação é fazer com que a criança cresça sabendo da importância do cuidado com suas coisas, que o brinquedinho tem um custo, assim como a comida, a energia elétrica. “Não é só sobre dinheiro, mas também sobre desperdício, sustentabilidade. As pessoas têm se tornado tão reféns do consumismo que esse endividamento demonstra um problema sério com isso. Queremos vacinar as crianças dessa ideia de que é preciso comprar, comprar, comprar”, diz Fabbris.

Neste contexto, o assessor diz que é importante que elas saibam que não é porque o coleguinha tem um tênis novo que ele também precisa, nem do mais novo modelo de celular se o dele ainda o atende. “Ensinamos a eles que se façam algumas perguntas: Eu realmente preciso disso? Os meus pais têm condições de atender esse meu desejo? Se eles comprarem isso para mim, quanto vão ter que trabalhar para pagar? O que esse tempo trabalhando significa em privação de tempo, passeios e diversão na companhia deles? Ensinar essas reflexões serve para que não tenhamos crianças tão desinformadas, achando que dinheiro dá em árvore ou então que é só passar o cartão que o pagamento acontece. É preciso saber toda a logística por trás do cartão”.

Poupar para realizar sonhos

Um último aspecto a ser trabalhado nas crianças é que ter responsabilidade financeira as ajudam a realizar sonhos. Fabbris lembra de uma passagem em que uma professora do município de Mariópolis ensinou sobre educação financeira em sala. Dois anos após essas aulas, a equipe do Sicredi foi conversar com os alunos, e um deles já tinha um grande montante na poupança para realizar o sonho de ser veterinário.  “A criança conversou com sua família e percebeu que eles não teriam dinheiro para bancar a faculdade, então ela começou a poupar. Todos embarcaram no sonho e começaram a guardar dinheiro para a faculdade de medicina veterinária. A criança mudou, dentro de casa, o pensamento da família. Já ouvimos várias histórias como essas, de alunos que passaram por episódios de educação financeira e que hoje já guardam dinheiro, preocupadas com reservas para o seu futuro“.

Raul Corteze Rauta tem apenas 11 anos e já entende que não depende dos pais para realizar os seus desejos de consumo. “Sempre que queria alguma coisa, economizava para comprar, pois eu não gosto de ficar pedindo dinheiro para os meus pais. Acho chato para eles terem que me dar o dinheiro sendo que sou eu que quero e vou usar o produto que quero comprar”, diz.

Com uma mesada de R$50 por mês, e juntando dinheiro que ganhava dos seus pais e avós em datas comemorativas, como aniversário, Natal, Páscoa, Dia das Crianças, em dois anos juntou R$ 700 para comprar um celular. “Meus pais me ajudaram com R$100 para inteirar o que faltava. Isso foi em janeiro de 2018, mas ainda antes disso eu economizava valores menores para comprar coisas mais baratas para o computador, como mouse e fone de ouvido. Agora estou economizando, pois quero comprar um novo mouse, que custa em torno de R$300. Mais pra frente, quero um celular novo, mas é uma coisa por vez”.

Ele não acha difícil e diz que é só ter paciência. “Não sinto uma tentação em gastar, sou bem controlado, não quero comprar tudo o que vejo na frente. Tenho objetivos e economizo para eles, e sou bem organizado em relação ao dinheiro, fico calculando quanto economizar por mês e quais os melhores locais, com bons preços, para economizar também na hora da compra”.

Primeiro o hábito, depois a cultura

Com apenas 11 anos, Raul Corteze Rauta conseguiu comprar seu celular poupando sua mesada e dinheiro que granhava de seus avós

Ao contrário de Raul, Fabbris lembra que alguns adultos estão totalmente despreparados para utilizarem cartão de crédito ou trabalharem com limite em sua conta. “Eles realmente não conseguem ficar com dinheiro investido porque gastam tudo e não garantem o dia de amanhã. Não estão preparados para lidar com as questões financeiras por não analisarem as coisas, acumulando parcelas, sem olhar o preço final das mercadorias, e isso é uma bola de neve”, avalia.

O exemplo na família também ajuda. Para a contadora Francieli Comora Pissinin, educação financeira, assim como outras situações que são vividas na prática, deveria ser ensinada desde cedo, tanto em casa quanto na escola. “Muito além do ensinar, temos que dar o exemplo. Hoje as crianças estão ligadas em tudo, de nada adianta ensinar aquilo que os pais não praticam. Devemos ensinar o valor que o dinheiro tem e que nem sempre é possível ter tudo o que se quer. Muitos pais não querem frustrar os filhos e compram tudo o que eles desejam e, quando adultos, se não puderem continuar com este comportamento, a frustração será muito maior”, acredita.

Isso porque educação financeira não traz saúde somente ao bolso, mas também ao corpo. Pessoas com problemas financeiros desenvolvem depressão, crises de ansiedade e muitas vezes não conseguem trabalhar por problemas de saúde. “Estudos indicam que a terceira maior causa de separação são as questões econômicas. Também é causa de suicídios. Quando uma família está passando por dificuldade, ela toda precisa trabalhar junta para sair daquela situação”, analisa Fabbris.

A publicitária Claudia Pagano é um exemplo de que dinheiro, ou a falta dele, reflete no relacionamento de um casal. “Tive um casamento que chegou ao fim por problemas financeiros. Sou péssima nisso e tenho certeza que se tivesse aprendido na escola hoje seria melhor. Mas acho que é exemplo também, pais que poupam ensinam filhos a poupar”. Por isso, para ela, a educação financeira deveria ser de praxe dentro das escolas e constar no currículo escolar.

Por fim, Fabbris afirma que se as pessoas soubessem administrar o seu dinheiro melhor, conseguiríamos certamente ter um país melhor, com uma população mais equilibrada financeiramente. E, para guardar dinheiro, é preciso criar o hábito. “Quanto mais cedo isso for feito, mais eficiente o processo será. Por isso o ideal é que a iniciativa seja na infância. Só assim se cria a cultura de poupar. Quando conseguirmos chegar ao estágio da cultura de economia, aí criamos um cidadão preocupado totalmente com a sua questão financeira. As pessoas melhores preparadas, preocupadas com o dia de amanhã, passam melhor por crises financeiras. Elas crescem fazendo com que seus sonhos se realizem”. 

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