quinta-feira, maio 26, 2022

O campo online

Programas e serviços oferecidos pelo poder público e iniciativa privada estão conectando cada vez mais as comunidades rurais à internet

Por Nelson da Luz Junior -Fotos: Helmuth Kühl

Não muito longe na linha do tempo que conta a história local, o Sudoeste possuía a grande maioria de sua população vivendo no campo. A roça era a expertise dos desbravadores que vieram majoritariamente do Rio Grande do Sul e povoaram as localidades onde hoje estão Pato Branco, Francisco Beltrão, Palmas, Coronel Vivida e as demais cidades.

Os meios de transporte, a produção, e a comunicação tinham um tempo muito diferente. Por estradas de terra, as distâncias eram contadas em dias, as culturas eram mais artesanais e as informações circulavam muito mais lentamente.

Tudo mudou principalmente por conta da tecnologia, que causou impactos significativos no modo de vida das comunidades do campo, assim como para os moradores da cidade. E uma das últimas “fronteiras” do desenvolvimento do meio rural está sendo cruzada a passos largos nos últimos meses, especialmente em Pato Branco.

Há aproximadamente dez anos, o Diário do Sudoeste publicou uma matéria a respeito da sucessão familiar no meio rural. E na época, um dos vários fatores que colaboravam para o êxodo era a dificuldade de acesso à internet, sentida em especial pelos jovens.

Diferente das décadas passadas, esse público busca nas universidades o conhecimento para se desenvolver profissionalmente, seja em áreas ligadas ao trabalho na sua propriedade, seja em diversas outras áreas. E para os estudos conexão é fundamental.

Isso aliado a outros reveses como a distância fez com que muitos jovens agricultores buscassem uma morada na cidade para concluir seus estudos, um prato cheio para que possivelmente não voltassem.

Sinal de internet, porém, já não é algo raro nas comunidades rurais. Por conta do trabalho de empresas e do poder público, o campo já possui uma cobertura de internet consideravelmente maior.

“Nas localidades do interior hoje temos uma cobertura quase que de 100%”, diz Nelson Barros Ferreira Junior, proprietário da Cybertech, empresa com sede em Pato Branco, e que também fornece serviços de internet em comunidades do interior de Coronel Vivida, Mariópolis, Honório Serpa e São Domingos, Santa Catarina.

O empresário explica que esse patamar de oferta de serviços foi alcançado gradativamente durante oito anos de investimento. “No interior a grande dificuldade é justamente a comunicação. Telefonia, em alguns lugares funciona com celular, mas ainda de forma meio precária, e uma vez que você consegue ter um sinal de internet você passa a ter a opção de conversar via aplicativos como o WhatsApp, Facebook, etc”, explica Nelson, justificando o ingresso nesse mercado.

Além da comunicação, ele completa dizendo que com o acesso as comunidades passam a ter todos os benefícios disponibilizados pela rede, como se estivesse na cidade. Hoje, a empresa de Nelson fornece, por exemplo, internet via rádio com velocidade de até 10 MB no interior.

Também há a possibilidade de transmissão via fibra ótica, porém, as distâncias e a geografia interferem em uma oferta de forma mais ampla. A tecnologia está disponível, por exemplo, na comunidade de Nova Espero (São Roque do Chopim).

Muito mais do que simplesmente conversar com parentes distantes ou mesmo com vizinhos, a internet é cada vez mais fundamental para o trabalho no campo, seja nas atividades em si, seja na manutenção da mão de obra.

Nelson cita alguns exemplos: granjas e avícolas que possuem núcleos de criação de frangos e incubadoras nas áreas rurais. “Hoje só se consegue uma família para cuidar de uma granja se o filho tiver acesso à internet para poder estudar”.

Empresas e agroindústrias localizadas no interior também precisam emitir notas fiscais e realizar outras tarefas do cotidiano da gestão, cada vez mais digitalizada e informatizada.

Processos mais específicos hoje também dependem da internet. Há laticínios, por exemplo, que utilizam ordenhadeiras que são monitoradas online pelo fabricante. “Qualquer problema que acontece na máquina, o técnico resolve a distância”, completa Nelson.


Agronet

Recentemente, o poder público municipal lançou um programa que pretende universalizar o acesso à internet no interior de Pato Branco. O AgroNET – Internet no Campo é uma iniciativa promovida pela Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Agricultura e da Secretaria Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação, em parceria com a CybertechNet, Ampernet Telecom, Coopertradição, e Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) – câmpus Pato Branco.

De acordo com o site do município de Pato Branco, o programa “visa impulsionar novos negócios; democratizar a informação; viabilizar o desenvolvimento do campo, através da inovação; e colaborar para a agricultura de precisão”.

Serão instalados 50 pontos de internet, distribuídos na área de cobertura das comunidades, escolas, Unidades Básicas de Saúde (UBS), pavilhões da área rural, e pontos intermediários. Os pontos serão fornecidos gradativamente.

O programa também prevê a instalação de seis estações meteorológicas que possibilitarão a coleta de dados para execução de projetos de agricultura 4.0, e disponibilizados 23 drones, de alta resolução, para o levantamento de informações topográficas e outras relacionadas à agricultura. 

Na solenidade de lançamento do Agronet, realizada em agosto passado, o prefeito de Pato Branco, Augustinho Zucchi, avaliou que a iniciativa complementa um ciclo de ações realizadas com o objetivo de desenvolver o campo, entre elas a aquisição de um britador móvel, as obras do Programa de Desenvolvimento da Agricultura (Prodeagri) e o Asfalto no Campo. “Lançamos esse programa inédito, que é o início de algo que será muito importante para os mais distintos aspectos do agronegócio”, ressaltou na ocasião.

Para o secretário municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação, Géri Natalino Dutra, o programa contribui para uma importante parcela da comunidade de Pato Branco. “É uma iniciativa inovadora, que leva a conectividade para todo o município. Os grandes beneficiados são os agricultores e toda a comunidade, que tem uma relação forte com o campo”, disse, na ocasião do lançamento do programa.

Também na ocasião do lançamento do programa, o secretário municipal de Agricultura, Clodomir Ascari, disse que o Agronet oportuniza conforto e segurança aos moradores da área rural. “É um momento em que a população do campo passa a fazer parte de um centro tecnológico e se conecta com todo o mundo”, completou.

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