quinta-feira, maio 26, 2022

Se não mudarmos nossa percepção sobre as pessoas com deficiência, nada vai acontecer

Alex Duarte, diretor do filme Cromossomo 21 fala sobre os desafios de promover a inclusão

Por Nelson da Luz Junior

Há cerca de 11 anos, Alex Duarte trabalhava como redator em um jornal da cidade de São Luiz Gonzaga, Rio Grande do Sul.  Em uma pauta ele conheceu Adriele Pelentir, que havia sido aprovada no vestibular para Nutrição. Repórter e fonte viraram amigos.

Com síndrome de Down, a moça foi a responsável por uma transformação na vida de Duarte. Foi a partir desse convívio que ele passou a se dedicar ao tema da inclusão de pessoas com necessidades especiais.

Primeiro veio o filme, Cromossomo 21, dirigido por ele e que contou com Adriele como protagonista. Depois vieram outros projetos, como palestras e vivências pelo Brasil, livros e projetos criados para promover o empoderamento de pessoas com necessidades especiais. Um deles reuniu um grupo de pessoas com síndrome de Down convivendo em uma casa, sem a presença dos pais, com o objetivo de estimular a autonomia.

Ele conta que entre os participantes havia uma pessoa que nunca havia dormido longe dos pais, caso que ilustra, na sua opinião, um dos entraves para a promoção da inclusão: a superproteção por parte de alguns pais.

Alex Duarte esteve recentemente em Pato Branco, onde conversou com Vanilla sobre inclusão. 


Como surgiu o seu interesse em se dedicar a esse tema?

Eu trabalhava em um jornal, como redator. Estava me formando em Publicidade e Propaganda, e fui chamado para cobrir uma pauta, sobre uma jovem com síndrome de Down que havia sido aprovada no vestibular para Nutrição.

Quando eu fui fazer a matéria eu cheguei com receio, pois eu não convivia com pessoas com deficiência e não sabia como lidar com a situação. Eu fiz perguntas bem limitadas, pois achava que a Adriele não daria conta do recado. Ou seja, com preconceito.

E no momento da entrevista ela me perguntou se eu tinha um melhor amigo. Eu respondi que tinha, e questionei o porquê da pergunta. Ela disse que não tinha, que as pessoas não a convidavam para sair. De vez em quando para um aniversário, por obrigação, para tomar um sorvete para dizer que estão fazendo inclusão. Mas amigos de verdade, que saem juntos, que se divertem, que trocam confidências, que tem uma vida social ativa, ela disse que não tinha.

“Será que você pode ser o meu melhor amigo?”, essa foi a pergunta que ela fez que mudou completamente a minha vida. Eu disse que sim.

Então eu comecei a conviver com a Adriele dentro da casa dela, e ali surgiu o tema do meu filme, o “Cromossomo 21”. Eu já tinha feito uma experiência no Haiti, um documentário sobre a missão de paz da ONU, e eu queria fazer um filme na área social. E eu tinha descoberto tanto meu tema quanto a protagonista. Fiz um teste com a Adriele, ela passou, eu comecei a produzir o roteiro e nós começamos as gravações.


Quais foram as barreiras que você superou por conta dessa amizade com a Adriele?

A primeira coisa foi sair na cidade. O que as pessoas iriam pensar? Olha o preconceito que a gente tem. Como que seria essa convivência, o que as pessoas pensariam. Como é que eu ia lidar com as diferenças? Coisas que com menos de um mês eu já havia quebrado, e nós estávamos de igual para igual. Eu passei a olhar a Adriele como alguém sem deficiência, eu não via a síndrome de Down.

Eu não via incapacidades nela, ela tinha uma vida igual a minha, mas tinha o tempo dela. Às vezes é difícil a gente respeitar o tempo do outro, o tempo de aprender, o tempo de ouvir. E a Adriele me ensinou isso.

Toda essa experiência eu coloquei dentro do filme, que não é sobre síndrome de Down. É a história da Vitória, que se apaixona pelo Afonso, que não tem a síndrome. Essa é a história do filme, de como a sociedade ia receber esse casal.

A Adriele me confidenciou tudo que ela passava. Ela estudou em escola regular, e na época que eu comecei a transitar nesse mundo da inclusão, as pessoas com síndrome de Down não estavam nas escolas regulares, elas estavam nas escolas especiais. Eu também queria entender porque as pessoas não estudavam no mesmo ambiente. Todos esses questionamentos nós jogamos para o filme, e inconscientemente conseguimos abrir essas discussões.


Como foi o processo de produção?

Muita coisa, inclusive diálogos, vieram de coisas que a Adriele me falou. Teve uma cena muito forte, em que ela tinha que entrar dentro de um ONG, como nós temos muitas no Brasil, formadas por pais, que se juntam para tentar amenizar o preconceito, fazer com a sociedade seja mais inclusiva.

Na cena, a personagem Vitória tinha que entrar na ONG e gritar que não adianta fazer reuniãozinha como aquela. Quem precisa ouvir são as pessoas lá fora, que não tem filho com deficiência. Quando eu pedi para ela entrar na cena, disse que era para quebrar tudo. Tudo que ela me contou, que sofreu de preconceito, que as pessoas fizeram para você, era para jogar essa verdade para dentro da tela.

Foi aí (depois do filme) que eu comecei a ser convidado a dar palestras pelo Brasil, que eu comecei a me especializar na área de educação inclusiva, fiz pós-graduação em psicopedagogia clínica, estou fazendo MBA em educação inclusiva. E tudo que eu enxergava nas famílias, nos jovens principalmente, é que alguns eram independentes, mas a grande maioria era dependente dos pais. Por uma série de fatores. Primeiro, a superproteção, os pais…

Ou seja, além da sociedade em geral, também há resistências nas famílias?

O maior obstáculo de uma pessoa com síndrome de Down são os pais, eu digo isso de forma efetiva. E veja bem, paradoxalmente, o amor excessivo acaba fazendo com que meu filho não se desenvolva. Mas vamos pensar outra coisa, com ou sem deficiência, qual é a informação que um pai e uma mãe mandam para um filho superprotegido? Que ele não sabe se proteger.

Se argumenta que pessoas com síndrome de Down são mais suscetíveis a maldade, mas como uma pessoa vai entender a maldade? Quando ela vivencia. Então a gente costuma dizer que ter um filho com deficiência é um salto no escuro, você tem que arriscar. É um aprendizado pois a vida é cheia de riscos.

Os pais acabam sentando em cima do medo, pois é mais fácil, e não deixar que meu filho tenha uma vida com mais independência e autonomia. Claro que cada um tem o seu tempo, de maturidade, autonomia, de percepção, de responsabilidades.

Mas eu preciso pelo menos ter a liberdade de vivenciar isso, e os pais quando começam a apostar nesse indivíduo, tudo muda. E a autonomia é algo que precisa ser desenvolvida na infância, não é quando ele se torna um adulto. É uma pessoa como qualquer outra, que precisa de limites, de responsabilidade, maturidade.

O que as pessoas que não tem familiares com deficiência podem fazer para promover a inclusão?

A maioria das pessoas com síndrome de Down não tem amigos do portão da escola para fora. Não se costuma ter uma vida ativa com pessoas com deficiência. Então quem não tem pessoas com deficiência na família, precisa quebrar a forma como vemos essas pessoas e começar a incluir. Como eu faço isso? Incluindo na roda de conversa, saindo, me aproximando, quando contrato alguém com deficiência para trabalhar na minha empresa. Isso é inclusão social, é trazer eles para perto e ouvi-los.

Quanto as políticas públicas, quais foram os principais avanços recentes?

A Lei Brasileira de Inclusão (LBI) é uma lei recente, e uma das mais efetivas do mundo, que torna pessoas com síndrome de Down civilmente capazes ao completarem 18 anos de idade.

Outras políticas públicas: nós temos hoje cotas. Uma empresa que tem mais de 100 funcionários ela precisa contratar uma pessoa com deficiência. Mas é muito importante que essa empresa não contrate apenas por conta da cota, para não serem penalizados com uma multa. Eu preciso saber o que essa pessoa quer fazer nessa empresa, qual é a vontade dela.

Vale notar, porém, que muitas empresas não conseguem preencher essas vagas pois os pais não querem que seus filhos trabalhem. Olha como a situação é complexa, tem famílias que julgam ser mais cômodo deixar em casa, na frente da televisão, no celular, ou enfiar em uma Apae, para ficar o dia inteiro lá.

É mais cômodo do que eu ter que me preocupar, se vou ter que ir buscar, ou dar condições para que ele desenvolva autonomia e possa ir sozinho ao trabalho.


E no que ainda é necessário avançar?

O principal vem da sociedade. E ela for inclusiva, os espaços serão inclusivos. Enquanto não mudarmos a nossa mentalidade, nossa percepção sobre alguém com deficiência, nada vai acontecer. Até então, ainda há que acredite que pessoas com síndrome de Down serão eternas crianças. Nós queremos tornar a pesquisa da Expedição 21 científica por causa disso. Precisamos questionar o senso comum.

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