quarta-feira, maio 25, 2022

A neve, o poeta e a fotografia

Uma breve história sobre versos que nasceram no olhar  

Por Jozieli Cardenal Wolff*

Na manhã mais fria de que se tem memória, a cidade amanheceu coberta por um extenso tapete branco, cujo fim não dava para ver da janela de casa. Era preciso ir mais longe, na praça. Todos estavam lá, fazendo bonecos de neve, dando forma ao pato e à noiva sem noivo. “Ele não apareceu, deve ter fugido do frio”, riam os viajantes.

Era 21 de agosto de 1965 e, naquele sábado, doze casamentos estavam marcados na Matriz São Pedro Apóstolo, inaugurada há menos de um mês. A cidade estava na Praça Presidente Vargas; crianças, idosos, homens e mulheres fazendo esculturas de neve, jogando punhados de gelo uns nos outros – mal sabiam que estavam esculpindo memórias. Justamente naquele frio danado! A maioria estava vendo a neve pela primeira vez. Foi um dia maravilhoso. Contudo, como lembraríamos dele? Não bastava contar, era preciso mostrar; mas fotografar a neve não era tarefa fácil.  

João, que havia chegado há poucos meses na cidade, recorreu aos livros que colecionava, dos cursos que fez por correspondência; alguns em idiomas que ele se viu obrigado a aprender, ao menos as palavras mais importantes. Nada é difícil ou impossível para quem não teme, tampouco nega, o sonho. Quanto ao livro em francês, voilá: o céu estava nublado, mas a neve reflete luz, então bastava regular a câmera ao contrário!

A bênção veio, literalmente, do céu. O jovem fotógrafo passou a noite revelando os filmes. Vendeu tanta, mas tanta foto, que ficou conhecido. Deixou de ser o “João Ninguém,” para se tornar o João de Paula. De lá para cá, foram mais de 50 anos fotografando momentos históricos de Pato Branco e região.

Temos nossa história e estações preservadas nas fotografias de João de Paula que, ao longo da carreira, nos ensinou que o mais singelo sopro de vida merece ser eternizado. Árvores, bancos, flores e rastros de animais formam a melodia que conduz a valsa dos dias, formando luzes e sombras encantadoras. O resultado: o cotidiano virou memória viva, pincelada no seu olhar. Eis a arte de eternizar a vida em preto e branco, como os poetas ousam com as palavras.

Será que depois de uma vida inteira dedicada à fotografia, é possível escolher uma imagem preferida? “Gosto das fotos que me transportam ao passado”, reponde João. É compreensível, afinal, manter o coração aquecido pelas lembranças é como adoçar a saudade com mel.

Aliás, hoje, com 82 anos, João pratica outra arte, a apicultura. Dia desses, o escutei falando baixinho com suas abelhas, como quem revela um segredo: “se tiver outra Pato Branco, na outra vida, quero ir pra lá… então, talvez, eu recomece e volte a ser fotógrafo, outra vez”.

Enquanto passeio sobre a neve que invadiu a cidade, deixo rastros num tempo feito de memórias. Não faz frio, pelo contrário. Ensaio o ponto final com o coração aquecido por essa caminhada que iniciou no inverno, mas que renova a aurora das demais estações – e que nos inspira a continuar, seguindo aqueles que tornam a vida uma saudosa poesia.


João Maria Alves de Paula nasceu em 13 de julho de 1935, em Lagoa Vermelha, Rio Grande do Sul (RS). Chegou a Pato Branco no dia 15 de fevereiro de 1965.

* Jornalista pato-branquense, professora universitária e mestre em Desenvolvimento Regional, com estudos voltados à análise do discurso. Entusiasta literária, dedica-se também à preservação da memória local.

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