quinta-feira, maio 26, 2022

“A gente acredita na perspectiva de diminuir barreiras”

André Boaventura, diretor de marketing e sócio do EBANX, em uma conversa sobre empreendedorismo e o futuro das transações financeiras

Por Nelson da Luz Junior – Fotos: Regis Santos/Assessoria

André Boaventura tem 30 anos de idade, e seu perfil se parece com o estereótipo dos empreendedores do ramo da tecnologia do Vale do Silício. Barba, tatuagens, camiseta, jeans, meias coloridas e tênis.

Depois de conversar comigo e outros jornalistas, Boaventura falaria para pelo menos 2000 pessoas sobre o case da empresa da qual é sócio e diretor de marketing, o EBANX. A grande maioria da plateia era do meio empresarial, ou se relaciona com o mundo dos negócios, empresas, startups e afins.   

O motivo da reunião era o Summit Sebrae 2018, realizado em novembro passado, em Curitiba, com o intuito geral de debater o empreendedorismo no estado.

Boaventura não foi despojado apenas nos trajes. Durante sua palestra apareceram até alguns palavrões leves para descrever o entusiasmo com objetivos alcançados em seis anos de existência da empresa, fundada em Curitiba, e também a determinação com suas metas.

Em linhas gerais, o EBANX é uma empresa de pagamentos, que intermedia transações financeiras entre o mercado latino americano e empresas estrangeiras. É por meio de soluções da empresa, por exemplo, que você paga sua assinatura do Spotify. E a lista de lojas e serviços ligados ao EBANX conta ainda com AliExpress, Udacity, e Airbnb.

À audiência Boaventura falou sobre valores corporativos, motivação, princípios e curiosidades sobre a história do EBANX, que ocupava uma pequena sala e contava com apenas oito colaboradores quando conquistou sua primeira grande conta, a do site AliBaba.

Mas foi o mestre de cerimônias que, assim que ele saiu do palco, precisou contar ao público a possível proporção do negócio tocado pelo palestrante e seus sócios. O EBANX seria um candidato a unicórnio, jargão que em linhas gerais classifica as startups que começam pequenas, com propostas de grande impacto mercadológico e que chegam a valer R$ 1 Bilhão.

Não apuramos se a informação procede, mas a eventual discrição de Boaventura se alinha ao menos com seu discurso. Ele não fala em faturamentos ou expansão, mas sim em diminuir barreiras financeiras, em permitir acesso às pessoas a compras e serviços.

Vanilla conversou com André Boaventura sobre empreendedorismo, o futuro das transações financeiras, e outros assuntos.        

Vanilla – Quais hábitos você considera necessários para o cotidiano de um empreendedor?

André Boaventura – Rituais, rotinas são superimportantes, para no dia a dia ele lembrar de tudo que ele tem que fazer. Acho que todo empreendedor devia diariamente saber de cabeça o principal indicador, a principal meta da sua empresa. É essencial que uma vez ao dia ele se pergunte, como está o meu principal número? A coisa mais importante pra mim. O empreendedor que geralmente perde esse número, perde track de como está sua empresa, por uma semana, duas semanas, no geral perde essa semana. Então escolhe qual é o indicador mais importante da sua empresa, e saiba de cor todo os dias.

O segundo ponto primordial é o clima da empresa. Muitas vezes o empreendedor acaba entrando na rotina de resolver problemas e acaba esquecendo de olhar para o lado, para o seu time, e saber como ele está. E as vezes é facinho você deixar o time passar dias fora da energia e do astral que ele deveria estar. Esse é mais um jeito fácil de perder uma semana de trabalho. As vezes você está focado nas suas coisas, e o seu time não está produzindo e performando como poderia.

Então, todo dia, não esquece de olhar o seu principal número, e de dar uma passeada no meio do seu time, para ver como está o clima, se todo mundo está engajado, motivado, ou se precisa de você pra avançar e chegar no seu objetivo mais rápido.

Porque você considera importante compartilhar as experiências do case EBANX?

Nenhuma comunicação tem uma via só. Então toda vez que você está dando uma palestra, participando de um painel, ou está em um evento, com empreendedores, você está oferecendo algo e recebendo algo em troca.

Para o EBANX, um dos valores intrínsecos da gente é um certo carinho enorme pelo mundo do empreendedorismo e por Curitiba, que é onde a gente nasceu e cresceu. De alguma forma faz todo sentido a gente retribuir um pouquinho, devolver a comunidade, seja participando de eventos, dividindo conhecimentos, seja investindo em cultura, em esporte, em algumas coisas que são importantes para a gente. Acho que é o básico, de toda a empresa que começa a se desenvolver é olhar um pouquinho para a sua comunidade.

Isso não estimula o crescimento da sociedade, mas naturalmente sempre vai trazer ganhos para a empresa, porque vai ter empreendedor que está sentado assistindo que pode ser próximo funcionário seu, um ótimo funcionário, gente que vai fazer negócio.

E a gente não é responsável só pelo faturamento da nossa empresa, mas pelo PIB da própria cidade, do país, então quanto mais estimularmos pessoas a crescer, mas a economia vai pra frente.

Quais pautas você costuma trazer para as palestras?

O que eu trouxe foram oito dicas simples, traduzidas de oito valores, crenças que a gente tem no Ebanx, e como a gente transformou essas crenças em atitudes, aplicadas desde o início, que fizeram a empresa estar onde está. O objetivo é que no final os empreendedores saiam com algumas ideias que possam aplicar, e melhorar o seu dia a dia.

Você pode mencionar dois desses pontos que considera fundamentais?

Um dos primeiros valores, e talvez o mais essencial, que na rotina de um ebanker, que é quem trabalha no EBANX, você vai ouvir falar disso pelo menos uma vez por semana, se não diariamente, que está nas nossas paredes, e não é por acaso, se chama sonho grande.

É um valor ressignificado dentro de cada empresa, tem muita gente que fala, tem o seu jeito de abordar o sonho grande. Pra gente tem muito a ver com a capacidade de não parar de acreditar que a gente pode construir algo maior.

Muita gente pergunta o que é o tal do sonho grande, na perspectiva de como se houvesse uma resposta de onde a gente vai chegar, e o sonho grande não tem a ver com uma chegada, mas para qual caminho você vai.

E a gente acredita na perspectiva de diminuir barreiras de acesso das pessoas, especialmente quebrando barreiras financeiras, seja com pagamentos, seja com outros produtos que possam vir pela frente, mas de conectar pessoas ao que elas quiserem.

O tamanho desse problema é tão gigante que é impossível medir de forma simples aonde vamos chegar, mas sabemos para onde estamos indo. E esse sonho precisa ser retroalimentado, não importa o quanto você cresça.

Uma dica básica que a gente dá pra quem quer começar uma empresa escalável e exponencial, é que você deveria ter no primeiro dia a perspectiva de construir um negócio que vá crescer 100 vezes.

Como isso será feito não importa nesse momento, mas você precisa estar preparado, com mindset, e com recursos básicos, a infraestrutura básica para crescer 100 vezes.

E o segundo ponto, também muito importante, e que ganhou uma proporção cada vez maior a medida que a empresa foi amadurecendo é a orientação aos resultados.

Dizendo isso parece que a empresa engessa e olha só pra números. Quando você junta a orientação aos resultados com o sonho grande, você percebe que é muito maior que isso.

A orientação ao resultado é a perspectiva de conseguir medir se você está progredindo na sua visão. Eu sei para onde eu quero ir, eu consigo ver se eu realmente estou chegando perto?

Quando você pega essas métricas e coloca na essência do teu negócio, você consegue dia após dia, semana após semana, saber se você está realmente avançando dentro daquilo que você acredita ser o seu sonho, ou daquele teu propósito de empresa. Sem essa métrica, normalmente você está perdido, não sabe se está tomando a atitude certa ou a errada, e você não está aprendendo.

O EBANX tem grandes clientes no mundo todo. Na sua análise, quais fatores foram fundamentais para que a empresa chamasse atenção do mercado externo?

O EBANX era uma empresa de oito pessoas quando ganhou a conta do Ali baba, uma empresa que tem 60 mil (funcionários). As pessoas não compram produtos, elas compram vendedores que acreditam nos seus produtos, e isso a gente tinha desde o dia zero da empresa.

Nós acreditávamos tanto que podíamos construir um produto tão grande que as pessoas que estavam do outro lado da mesa também começaram a acreditar.

Mesmo que elas não vissem aquilo, naquele momento, elas acreditavam o suficiente que em algum momento iria acontecer, que entregaríamos um produto fora da curva, disruptivo, capaz de atender as necessidades dos nossos clientes.

Outro ponto que é super básico, mas que vemos em empresas menores, e até nas grandes. Em algum momento você olha para o próprio umbigo, para sua solução, como se ela fosse realmente resolver o problema das pessoas, e você para de perguntar o que elas querem.

Desde o início, especialmente falando das contas grandes que a gente está tendo o privilégio de atender, nós perguntamos o que eles precisam e vai fazer exatamente o que eles precisam e não necessariamente chega com o produto que julgamos perfeito para uma empresa, achando que ela deveria se adaptar.

Isso não só no momento zero, mas em toda a sequência. Esse é um dos motivos pelos quais, depois de seis anos, a gente nunca perdeu uma conta grande.

Como vocês imaginam que será o futuro das transições financeiras? Por quanto tempo ainda usaremos cédulas?

Acho que a China pode dar um palpite. A Ásia, e especialmente a China, não é um mercado tão regulado quanto o mercado ocidental de pagamentos, onde a gente tem especialmente dois players gigantescos que é Master e Visa, e mais vários bancos centrais com muita força.

Como esses atores não eram tão fortes na China, o mercado de produtos se autorregulou, se autoconstruiu, e é por isso que a economia chinesa praticamente não tem mais cédula. É uma economia que vive na base de aplicativos, de startups e de negócios digitais por onde passa o dinheiro.

Acredito que a gente irá dar passos em relação a isso, mas não necessariamente no mesmo formato que é hoje a China, onde todo mundo paga com aplicativos. Nós teremos isso, mas esse não vai ser necessariamente o nosso jeito de resolver o problema.

Até porque a China saiu de uma economia rural, onde o acesso ao dinheiro quase não existia. A gente vive uma lógica de acesso a serviços bancários razoavelmente decente. Obviamente ainda existem 40 milhões de desbancarizados no Brasil, e na América Latina esse número é gigante.

Mas a gente tem atores suficientemente bons para se reorganizar enquanto ecossistema, e transformar o nosso mundo financeiro de pagamentos de um jeito em que todo mundo tenha direito ao seus cartão, que possa transacionar onde quiser, que é pra onde a gente tá indo, e pra onde o Ebanx de alguma forma está ajudando um pouquinho.

Que nós vamos diminuir o uso do dinheiro, isso é uma política inclusive do Banco Central. Todas as iniciativas que tendem a diminuir o uso de cédulas, o Banco Central incentiva de alguma forma, por uma questão de segurança, de praticidade, de ecologia, e até para o tracking dos serviços bancários.

Por enquanto, nós não acreditamos que em um horizonte de menos de dez anos a gente vai parar de usar boleto. Embora ano após ano mais pessoas tenham cartão de crédito, ano após ano o uso de boletos cresce. 

Nós estamos trazendo gente que usa dinheiro para meios de pagamento, ou que guarda dinheiro embaixo do colchão para uma continha de débito. Então são etapas para chegar naquele cartão de crédito full, aquela conta bancária, conta corrente que a classe média alta vai ter no Brasil. Temos ainda uma caminhada grande pela frente.


Olho: “
As pessoas não compram produtos, elas compram vendedores que acreditam nos seus produtos. Nós acreditávamos tanto que podíamos construir um produto tão grande que as pessoas que estavam do outro lado da mesa também começaram a acreditar”.

Olho 2: “Todas as iniciativas que tendem a diminuir o uso de cédulas, o Banco Central incentiva de alguma forma, por uma questão de segurança, de praticidade, de ecologia, e até para o tracking dos serviços bancários”

Olho 3: “Por enquanto, nós não acreditamos que em um horizonte de menos de dez anos a gente vai parar de usar boleto. Embora ano após ano mais pessoas tenham cartão de crédito, ano após ano o uso de boletos cresce”. 

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