quinta-feira, maio 26, 2022

Da escravidão a liberdade

A atuação dos negros nos Campos de Palmas não se limitou apenas ao trabalho com o gado, mas a construção de taipas que lhe renderam suor e sangue. Libertados, muitos cativos, ficaram trabalhando nas fazendas, sendo que algumas até hoje preservam sinais de um tempo sombrio da história do Brasil

Por Jéssica Procópio – Fotos de Marcilei Rossi

Palmas é uma das cidades mais frias do Paraná, é a capital da maçã, é referência na produção agropastoril, é a cidade mais antiga do Sudoeste e também foi palco da escravidão, no século XIX. Esse período, passa despercebido por muitos, apesar de ser importante para a historiografia brasileira.

Um relatório emitido pelo governo da Província do Paraná em 1880 estima que viveram no Município 315 escravos. Conforme aponta a dissertação de mestrado “Cativeiro e Dependência na Fronteira de Ocupação: Palmas, PR, 1850-1888”, de Ana Paula Pruner de Siqueira, esse número de cativos permaneceu até mesmo depois da proibição do tráfico de escravos, no fim de 1850.

Segundo a dissertação de Ana Paula, esses índices foram mantidos por fatores como a compra de escravos no mercado interno, a reprodução entre os próprios cativos e até mesmo devido à mudança de senhores de outras regiões para os chamados Campos de Palmas, que já continham escravos.

De acordo com um levantamento historiográfico feito por Neiva Krewer, em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), foram concedidas nos Campos de Palmas 66 liberdades e seis cartas pela Lei dos Sexagenários, que garantia a liberdade de escravos com 60 anos de idade ou mais.

Em 1870, como aponta o estudo de Neiva, as mulheres tiveram 42% das alforrias registradas enquanto que os homens apenas 23% — essa diferença se dá em decorrência da divisão de trabalho.

Campos de Palmas

Em um de seus artigos, o professor de história Paulo Pinheiro Machado explica que os Campos de Palmas eram muito cobiçados por possuírem, além de um solo fértil bom para a plantação, um pasto de qualidade para os animais e uma diversidade de madeiras, tendo em vista que em meados de 1850 nada, ou muito pouco, era desmatado na região.

Conforme o historiador, os Campos de Palmas compreendiam “[…] uma extensa faixa de terra entre os rios Uruguai e Iguaçu, limitada a oeste pelos rios Santo Antônio e Peperi-Guaçu e, à leste, pelos rios Chapecó e Jangada, totalizando uma área de aproximadamente 40.000 km²”.

Em seu TCC, Neiva aponta ainda que, geograficamente, os Campos de Palmas estavam bem localizados, estando situados próximos da Estrada das Missões, rota utilizada pelos tropeiros, desde Rio Grande do Sul até São Paulo.

Conforme a autora, o percurso era uma boa opção para o desenvolvimento dos Campos de Palmas, porém, para que isso ocorresse era necessário que os fazendeiros mudassem suas sedes para mais próximo da estrada. No entanto, diante da resistência de mudanças, a área urbana da região desenvolveu-se bem mais tarde do que o esperado. “Devido a esse fator, a área urbana de Palmas não obteve uma maior importância e crescimento nessa fase inicial de colonização, favorecendo o domínio rural onde as famílias fixavam residência com atividades econômicas ligadas à pecuária e lavouras, utilizando a mão de obra escrava”, explica em seu trabalho de conclusão de curso.

As taipas eram construídas para dividir terras

Dos índios aos negros

Os Campos de Palmas eram muito cobiçados, tanto por brasileiros quanto por estrangeiros, devido a suas terras ricas, que eram boas para o plantio e para a criação do gado. A região chegou a ser disputada entre Brasil e Argentina. Porém, antes dos fazendeiros se instalarem nas terras já havia gente morando por lá: os indígenas.

De acordo com o historiador e fazendeiro em Palmas, Joaquim Osório Ribas, a ocupação na região, com início na década de 1840, foi bastante violenta. Segundo ele, os fazendeiros mataram muitos índios na busca por posse de terras, mão de obra e acerto de contas por furtos nas fazendas.

“Aqui no Horizonte tinha uma redução de índios que hoje chama-se Catequese. Os fazendeiros arrasaram, queimaram as casas, e os índios que se salvaram tiveram que atravessar o rio Iguaçu fugindo de uma perseguição com cães de caça. Eles escorraçaram todos os índios”, contou Ribas.

O historiador explica que os senhores viam o índio como ladrão. “O fazendeiro criava muito porco e o índio, ao encontrá-los na natureza, matava para comer e era chamado de ladrão. Estava roubando, mas o índio não tinha esse conceito de propriedade.”

Foi a partir do choque cultural entre os índios e os brancos que os negros foram inseridos nos Campos de Palmas. Conforme Ribas, os nativos não aceitavam o trabalho nas fazendas e lutavam contra a presença dos fazendeiros. “As fazendas só conseguiram se implantar aqui e alcançar seus objetivos de produção com o trabalho do negro, que foram os braços e as pernas do fazendeiro.”

Os negros em Palmas

Como após dez anos da ocupação na região foi proibido o tráfico de negros e como a as fazendas da região trabalhavam com a criação de gado, que não exigia tanta mão de obra, o número de negros cativos por propriedade, em Palmas, era baixo.

“Cada fazenda tinha três ou quatro escravos. Eles eram muito caros. Eu vi diversos inventários do século XIX, inclusive de um tio bisavô, em que ele recebeu quatro escravos — duas mulheres e dois homens”, contou Ribas, que faz parte da terceira geração de uma família onde houve escravidão.

Segundo o fazendeiro, cada fazenda tinha no máximo cinco escravos. “Isso era decorrente do preço muito alto que estava o escravo”, disse comentando que teve acesso a um inventário onde uma escrava valia o aproximado a 70 alqueires de terras, na época.

Escravo da canela fina trabalha mais

Além do sexo influenciar no preço de um escravo, outra característica, bastante peculiar, que chama a atenção nos relatos dos entrevistados para esta reportagem, é o julgamento da canela dos escravos, que quanto mais finas fossem, mais trabalhador seria o negro.

Conforme o historiador Ribas, ao desembarcar no Brasil, no ato de sua venda, os fazendeiros pagavam mais para o negro de canela fina. O valor mais alto estava diretamente ligado a capacidade de trabalhar mais tempo em um serviço pesado. “Tinha o preto canela fina, que era muito trabalhador e rápido, tanto o preto quanto a preta canela fina. E tinha um mais entroncado, que vinha do Congo, que tinha perna grossa, aquele o valor de mercado era menor.”

A líder quilombola, Maria Arlete Ferreira Da Silva, que aos 77 anos escreveu o livro “Da África ao Rocio São Sebastião – Quilombo de Palmas-PR Brasil”, da qual conta, através do relato de seus antepassados, um pouco da escravidão nos Campos de Palmas, diz que esse julgamento, de o negro ser trabalhador ou não a partir de sua canela, se fazia presente até mesmo entre as famílias de escravos.

Segundo ela, sua avó dizia às filhas para que não casassem com um homem de canela grossa. “Minha mãe sempre contava que quando elas namoravam os rapazes que tinham as características de perna grossa e bunda grande, a minha avó dizia que era vadio, dizia para não casar. Tinha que ter as canelas finas”, relatou.

Joaquim Osório Ribas, historiador e fazendeiro em Palmas

O escravo e a escrava

Dentro de uma fazenda escravista, o homem negro era considerado mais importante do que a mulher negra, por trabalhar diretamente no campo, no trato dos animais, principalmente do gado. Ou seja, era o homem quem realizava as atividades mais pesadas dentro da fazenda, devido sua condição de gênero.

Além desse serviço, Ribas relata que os homens escravos também eram os responsáveis pela segurança dos senhores durante o transporte dos animais. Como conta o fazendeiro, a partir das histórias do avô e do pai, os negros muitas vezes iam na frente das tropas para limpar a passagem, ficando assim expostos a animais perigosos e a ataques indígenas – sendo essa, uma situação bastante comum nos Campos de Palmas na época, devido aos conflitos por posse de terras, entre índios e fazendeiros.

O trabalho do escravo também foi muito importante para a construção da cidade de Palmas. Uma das edificações que podem ser notadas até hoje, são os muros de pedras presentes nas fazendas e as casas antigas, também construídas de pedras, as chamadas taipas. Conforme Ribas, os muros de pedrasserviam para limitar as divisas das fazendas e para separar os rebanhos, pois, naquele tempo não era fácil a aquisição de arames e madeiras.

Na fazenda de Ribas, cerca de 60 km de taipas  construídas ainda no século XIX, dividem até hoje a divisa de sua propriedade com a de outro fazendeiro. “Meu avô sempre dizia que debaix de cada pedras dessas, tem um pouco de sangue de um negro.”

Já as mulheres, apesar de serem inferiorizadas perante seu valor de mercado, eram responsáveis pelos serviços domésticos, por cuidar dos filhos dos senhores, assim como também por garantir as alimentações fartas nas propriedades, pois, além de cozinhar, também trabalhavam nas hortas das fazendas — como os Campos de Palmas ficavam muito longe dos mercados, que na época só existiam em Curitiba ou São Paulo, era na horta de cada propriedade que ficavam todos os alimentos para a subsistência da família. No local eram cultivados alimentos como mandioca, arroz, feijão, verduras, frutas, batata, entre outros.

Mesmo que as escravas fossem consideradas menos importantes do que os homens, elas eram vistas como a “alma da casa”, como conta Ribas. “Além de trabalhar na horta da fazenda, que servia da subsistência de toda família, a escrava ajudava muito na parte de lavar roupa, limpar a casa e cuidar das crianças.”

Apesar dos escravos terem sido importantes no desenvolvimento do hoje então Município de Palmas, dona Maria Arlete, relembra, a partir da fala dos mais antigos, que as fazendas, na localidade, tinham senzalas, ou espaços separados especialmente para os escravos e que o trato com os cativos, nem sempre era amigável.

Ela conta que nas propriedades os negros eram trancados durante a noite, podendo sair somente ao amanhecer para a lida do dia. Mesmo se houvesse algum imprevisto, como o nascimento de uma criança, uma briga entre escravos ou a morte de alguém, a senzala só seria aberta pela manhã.

“A Dona Jovina [também descendente de escravos] contava que as comidas eram colocadas nas gamelas e empurradas para dentro da senzala, durante a noite. Não tinha colher, comiam com a mão”, comenta completando que, no Município existe um cemitério no campo onde os escravos mais velhos da fazenda eram enterrados.

Diferente de seu Joaquim que expressa a relação do negro com seus senhores como amigável, na maioria dos casos, dona Arlete, descendente de escravos, fala sobre o fato com uma visão contrária. Para ela, a relação entre negros e fazendeiros, principalmente os primeiros [da década de 1840], era bastante triste.

“Com o tempo, depois de 1868, 1888, ai tinha aquelas pessoas que pensavam diferente. Os filhos dos senhores já pensavam diferente. Eles queriam bem o negro, assim como a gesnte gosta de um cachorrinho de estimação”  fala completando “os negros não tinham a liberdade de comer junto na mesa. Não tem aquilo de igual para igual. E isso nunca vai existir. Isso é utopia.”

Ribas também relembra uma situação bastante comum nas fazendas — o apadrinhamento de crianças de escravos pelos fazendeiros. “O negro era compadre. Quando nascia uma criança ele levava o patrão ou o filho do patrão para padrinho. Na fazenda do meu avô tinha um afrodescendente que tinha muitos filhos. Eu fui padrinho de dois filhos dele. Ele levava para compadre o patrão, o filho do patrão e os netos do padrão, para sedimentar a amizade entre as duas raças. Isso, é um fator que aconteceu aqui e contribuiu muito para construir uma sociedade um pouco menos preconceituosas”, disse.

Maria Arlete Ferreira da Silva, lídr quilombola em Palmas

Marcas e memórias

Mesmo após dois séculos da abolição da escravidão, os vestígios e as lembranças das histórias contadas por antepassados, continuam latentes nas veias de Maria Arlete.

Segundo a descendente, um dos principais traços da escravidão que podem ser notados até hoje no Município é o nome das pessoas. Conforme ela explica, negros residentes na Comunidade Quilombola Maria Adelaide Trindade Batista, com o nome Maria ou João, possivelmente, são descentes de escravos. De acordo com ela, era muito comum que cativos fossem batizados por seus senhores com novos nomes ao desembarcar no Brasil, sendo na maioria das vezes batizados por Maria ou João, nomes bastante comuns na época.

“José Ferreira e Maria Joana tiveram oito filhos, sendo sete mulheres e um homem, que recebeu o nome de Tomás; e era um exímio domador de cavalos dos fazendeiros. Já, as mulheres foram todas chamadas de Marias: Maria Lua, Maria Glória, Maria José, Maria Tereza, Maria Francisca, Maria Adelaide, Maria Ermelina, minha mãe. E até hoje o nome Maria é tradição em minha família”, conta Maria Arlete em um trecho do seu livro, ao relembrar o nome dos tios e comentar que suas filhas, netas e bisnetas, são todas Marias.

“Endemoniado”

Arlete lembra que seus parentes mais antigos lhe contavam que muitos vinham da África sendo pessoas importantes, e ao desembarcar no Brasil, passavam a ser mercadorias, deixando de ser considerados como humanos.

“Tinham alguns que eram reis e rainhas na África e vieram sofrer no Brasil com a escravidão. Fico pensando se os portugueses não tinham coração, se não tinham pena […] É que eles não consideravam o negro como ser humano. Diziam que negros eram endemoniados, por causa da cor”, relembra Maria Arlete a fala do tio Antônio que explicava à sobrinha que os negros eram marcados nas costas para serem trocados como mercadorias mais tarde.

Maria Arlete comenta, emocionada, a fala da avó ao contar para a neta as marcas que sua irmã, Maria Salomé, carregava por ter sido uma escrava. Segundo o que ela lembra, a tia-avó tinha as mãos queimadas e a orelha toda furada. Essas marcas eram castigos por situações que em muitos casos nem haviam ocorrido. “Os donos dessa fazenda que ela era escrava, em Guarapuava, pregavam a orelha dela em uma madeira e chamavam ela para vir, por isso a orelha era toda rasgada. Eles também mandavam ela pegar brasa com a mão. Diziam ‘vai lá e pega brasa, traz aqui para eu acender o cigarro’. Diziam que as mãos dela eram fundas com as queimaduras.”

A descendente de escravos comenta ainda que, em algumas fazendas, o negro ia para o tronco. Segundo ela, qualquer mínima situação era motivo para o castigo. “As vezes nem faziam nada. Se quebrasse uma porcelana, estivessem limpando uma louça lá e quebrasse para ver se já não iam apanhar e receber o castigo. Até quando começavam a rezar eles sofriam”.

“Fico pensando a mente das pessoas que judiavam dos negros e nunca chego em uma conclusão de como conseguiam matar, marcar com ferro quente e outras coisas. Alguns me contavam que às vezes,eles [os donos das fazendas] matavam um escravo e davam as vísceras para o outro comer falando ‘olha, ele fugiu e vai comer o coração. Se você fugir vai acontecer assim’. Ficamos sentidos e sem entender o porque dessa judiação. Até hoje é tudo camuflado. Dizem, ´não existe racismo´. Existe sim e como existe. Agora que está aflorando mais o racismo”, desabafa Maria Arlete ao comentar o sentimento que fica após todo esse período de escravidão e os resquícios que ainda estão presentes na sociedade.

Comunidade Maria Adelaide Trindade Batista

Segundo Maria Arlete, tudo começou ainda na década de 1830 quando expedições começaram a chegar no Município com o objetivo de desbravar as terras da região, conhecidas na época por seu alto potencial para a criação de gado.

“Meu avô, José Ferreira da Silva, veio em uma dessas expedições como cozinheiro. Ele e o irmão, Tobias Ferreira, fugindo da Guerra dos Farrapos ingressaram em uma expedição para povoar o Campo de Palmas. Em Guarapuava, meu avô conheceu minha avó, Maria Joana, que era escrava lá”, disse. No mesmo período, outras famílias, como os Silveira, Batista, Santos, Souza e Fortunato, se deslocavam para a região.

Atualmente, vivem no Quilombo três comunidades reconhecidas pela Fundação Palmares, Maria Adelaide, Castorina Maria da Conceição e Tobias Ferreira.

Além de serem obrigados a trocar de nome ao pisar em solo brasileiro, dona Arlete conta que os escravos também eram obrigados a esconder suas crenças, pois, os senhores proibiam os negros de falar em orixás. Por isso, alguns santos brasileiros foram identificados pelos escravos e passaram a ser seus “orixás” no país. São exemplos o São Sebastião que na África era Oxóssi, São Jorge que era Ogum e Santa Bárbara que era orixá Iansã.

Ruptura da escravidão

Ribas conta que mesmo após a Lei Áurea [13 de maio de 1888], muitos escravos já libertos, permaneceram no campo. Segundo ele, os escravos não tinham para onde ir e por isso, optaram por ficar nas fazendas, junto dos senhores trabalharam para os mesmos. “Ele [o escravo livre] passou a ter uma condição de vida pior que a dos escravos porque ele não tinha nem eira nem beira. Ficou sem rumo na vida e sem recurso. Então, a maioria permaneceu e ai o patrão começou a remunerar”, disse.

Para o historiador e fazendeiro, a ruptura da lei Áurea teve reflexões diferentes em Palmas do que em outras regiões do país, pois aqui, não faltou mão de obra e a economia continuou funcionando normalmente.

O historiador e fazendeiro pertencente a uma família em que houve a escravidão acredita que, todos os problemas atualmente enfrentados pelos negros estão ligados a escravidão e a ruptura que os deixou desamparados.

A Fazenda Floresta foi construída por escravos entra as décadas de 1840 e 1860, e é conservada até hoje pela família Araujo

Uma viagem ao século XIX

Ao entrar pela porta principal da casa da sede da Fazenda Floresta, a sensação é de estarmos na residência dos senhores de escravos. As pinturas, as tábuas do chão, as janelas e até mesmo as fechaduras nos levam para o período em que, em diversas situações, a história busca esquecer.

Prova viva de que ocorreu a escravidão em Palmas e de que grandes senhores, como é o caso de Visconde de Guarapuava, viveram pela região devido sua alta importância econômica, a casa da família Araújo, encontra-se totalmente conservada desde sua edificação, que é estimada entre 1840 e 1860. Ao andar pelos cômodos da casa, é possível verificar os inúmeros detalhes da construção antiga, que deixa qualquer admirador da arquitetura sem fôlego.

De acordo com o também historiador e fazendeiro de Palmas, Sérgio Mendes de Araújo, na fazenda Floresta, que conta hoje com mais de 50 donos, existem taipas feitas por escravos a mais de 170 anos, que estão perfeitamente erguidas e intactas.

“A minha família só entrou aqui por volta de 1955. Na época, meu pai e meu tio compraram 100 alqueires de terra, mas não era aqui a sede. Dez anos depois, que ele [o pai] comprou o remanescente que sobrou da área porque o seu Pedro [dono na época] morreu. Então, desde 1966 que está na nossa família essa área e a sede”, contou o fazendeiro explicando que além de sua família existem mais 50 donos espalhados pelas terras da fazenda.

Fazenda Floresta

Conforme Araújo, toda a belíssima e encantadora fazenda, projetada e construída com mínimos detalhes, foi erguida pelas mãos de escravos. “Não vou conseguir precisar quantos, mas não é pouco porque eles tiravam pedra do buraco ali [local dentro da própria fazenda], traziam aqui [para onde é a casa]”, disse relembrando que todas as taipas erguidas pelos cativos eram utilizadas também para levar o gado de um local a outro.

A casa histórica, com clima e ar de dois séculos atrás, chegou até o fazendeiro através de um testamento de família. Por ser historiador e saber sobre a escravidão no local, ele optou, ao receber a casa da família, em restaurar toda a estrutura construída ainda no século XIX. “As pinturas originais foram mantidas. E as que não tem mais, é porque já foram descaracterizadas com o tempo. Ela  [a casa] estava bem deteriorada quando a gente recebeu. […] Todas essas vistas, janelas, as bases de embuia embaixo, em cima, é tudo original.”

Além da presença da madeira original na casa, outra característica bastante visível é o trabalho feito a mão, tanto nas janelas e nas portas, quanto no assoalho.

Conforme Araújo, o único cômodo da casa descaracterizado foi o banheiro, que na época nem existia exatamente, tendo apenas uma banheira. “Apesar de serem 100% analfabetos, é impressionante a capacidade de construção desse povo porque tem quase 200 anos. Dá raio, trovão, treme o chão volte e meia, cai, e as taipas continuam intactas.”

Para o fazendeiro, a escravidão é bem complexa e leva a questionamentos que muitas vezes não chegam a uma resposta concreta. “Eu sempre penso isso [a escravatura] e não consigo chegar a um denominador comum porque, reis católicos eram coniventes com esse tipo de coisa. Como é que você acredita que a igreja é conivente com a escravidão no Brasil, com a escravidão na Guiana, com a escravidão na Espanha, com a escravidão na Argentina, na América toda?”, questiona-se.

Parede construída a mais de 100 anos por escravos, e que ainda compõem a arquitetura atual da Fazenda Coxilhão

A arquitetura moderna aliada à história

Diferentemente da fazenda Floresta, em que houve a conservação da história em toda a sua estrutura, de maneira totalmente ligada a construção original, uma outra fazenda em Palmas — Coxilhão — mantém vestígios da escravidão, porém com uma arquitetura moderna, onde em um ambiente de lazer, com peças estilosas foi mantida, como preservação da história, uma parede com mais de 100 anos de construção.

A proprietária do local, Jaqueline Antonela Baptista Dorneles, comenta que no local onde é hoje um salão de festas, era a casa sede da fazenda. Porém, com um vendaval, por volta de 1958, a estrutura caiu, ficando somente a parede, hoje conservada, em pé. “Essa construção de agora, não foi feita pelos escravos. Nós fizemos um resgate da cultura dos escravos, mas a mão de obra foi paga. Agora, essa parte aqui [da parede e janela] é do tempo dos escravos. Nós aproveitamos o lugar”, contou Jaqueline comentando que a propriedade está na família há cerca de 100 anos.

Assim como em outras propriedades, condições climáticas e acidentes domésticos, como casas incendiadas, foram aos poucos diminuindo os rastros da época da escravidão no Município. A fazenda Coxilhão é um dos exemplos. Conforme Jaqueline, a um tempo atrás, casas na propriedade, construídas por embuia [tipo de madeira] queimaram e com isso, armas de índios, paredes feitas por escravos e outros objetos históricos acabaram sendo queimados.


Fazenda Coxilhão
Fazenda Coxilhão

*Matéria publicada na edição nº 35 da Revista Vanilla, no ano de 2020. Conteúdo foi apurado respeitando todas as medidas sanitárias do enfrentamento da pandemia de covid-19.

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