quinta-feira, maio 26, 2022

Um outro céu

Grupo de estudantes da UTFPR estuda como as culturas indígenas brasileiras enxergaram as estrelas

Por Nelson da Luz Junior – Fotos: Rodinei Santos

O céu sempre encantou a humanidade. Olhar para as estrelas, contemplar sua beleza e imaginar suas origens é algo que não só nos acompanha como também ajudou a moldar a nossa história.

Se hoje estamos planejando ir a Marte, no passado já olhamos para as estrelas associando o firmamento a natureza, ao mundo que nos cerca na Terra.

Assim surgiram lendas, histórias, interpretações do mundo que estão por aí até hoje. Porém, estamos acostumados com um ponto de vista sobre o céu. Constelações como orion, cruzeiro do sul, ursa maior e menor estão integradas a cultura ocidental, que determina também o modo como significamos vários outros aspectos do nosso cotidiano.

Boa parte do mundo de hoje é visto a partir de heranças da cultura grega e romana. Mas outras civilizações também olharam para as estrelas e criaram seus próprios mitos e significados.

Um grupo de estudos na UTFPR, Câmpus Pato Branco, tem se dedicado a investigar como culturas indígenas brasileiras enxergam o céu. São alunos que integram o Geastro, coletivo de alunos da universidade que realiza vários projetos e atividades ligados a diferentes áreas da astronomia.

Entre os temas de interesse estão as constelações. “Surgiu a proposta de fazer um estudo sobre as constelações indígenas para comparar, o que nós vemos, como são as lendas para nós e como são as lendas para eles”, explica Andreyna Beatriz Moreski Artuzo, acadêmica do curso de Licenciatura em Matemática e uma das integrantes do Geastro.

Ainda que o grupo também investigue a perspectiva de outras culturas, como a oriental, o foco está nos grupos indígenas brasileiros. Andreyna explica que o objetivo é desenvolver atividades para crianças, a partir do conhecimento coletado. As atividades estão disponíveis para download gratuitamente no site do grupo (Site).

Um dos pontos de partida foi traçar um paralelo entre as constelações ditas ocidentais, com as indígenas, analisando o mesmo espaço no céu a partir dessas diferentes perspectivas, segundo explicou Luiza Dalla Costa Perusso, integrante do Geastro e também estudante do curso de Licenciatura em Matemática.

Antigamente o céu servia como um guia, e para melhor memorizar as constelações os povos antigos criaram histórias baseadas em seus panteões, contou a estudante, explicando de modo geral como algumas constelações foram, digamos, criadas.

Também era comum buscar relacionar animais, plantas, e outros elementos da natureza com as estrelas. Foi assim com os gregos, e foi assim com os Guaranis e outras culturas, cada uma com suas particularidades, ambientes e crenças.

Luiza usa como exemplo a constelação de escorpião. Os indígenas enxergavam uma ema no mesmo espaço do céu onde os gregos desenharam uma aracnídeo com linhas imaginárias ligando as estrelas. Inclusive algumas das estrelas utilizadas para formar a pata da constelação da ema formam a cauda da constelação de escorpião.

“Para os chineses essa porção do céu é representada pelo chamado dragão verde”, continua Luiza, acrescentando outro ponto de vista sobre o mesmo espaço.

Andreyna conta que o grupo está estudando o assunto de forma mais geral, e não uma etnia específica. Até porque as fontes científicas de informação não são tão abundantes.

Tanto ela como Luiza citaram como referência os trabalhos do professor doutor Germano Afonso, que foi ligado a Universidade Federal do Paraná (UFPR), e possivelmente um dos intelectuais brasileiros mais dedicados a astronomia indígena. As estudantes dizem ter utilizado material atribuído ao doutor Afonso sobre a cultura tupi – guarani, por exemplo.

O céu não servia apenas para orientação espacial. Interpretar a posição das estrelas também é uma forma de entender o clima, e consequentemente saber quais são as épocas mais adequadas para o cultivo de algumas culturas, se era tempo de seca, se era tempo de chuvas. Ou seja, as estrelas podem ser um calendário.

Luiza conta que a constelação da ema, por exemplo, é mais visível no inverno. Então quando a ema aparecia no céu, a colheita era mais difícil. Além desta, as constelações da onça-pintada e do homem velho também representavam períodos específicos de plantio e colheita.

As constelações indígenas também fazem parte de uma mitologia. Segundo Andreyna, a constelação do homem velho nasceu da história de um casal, formado por uma mulher e um homem, sendo ele muito mais velho do que ela.

Ela se apaixonou pelo cunhado mais jovem. Para ficarem juntos, ambos decidem assassinar o homem velho, e antes de executar o plano cortam uma de suas pernas na altura do joelho. Por piedade, os deuses transformaram a vítima em uma constelação.

Andreyna conta sobre um artigo de Germano que fala em mais de 100 constelações identificadas. Porém, o número pode ser bem maior, os indígenas costumavam crer que tudo que há no céu também existe na terra.

Educação

A partir dos estudos, o grupo desenvolveu várias atividades escolares. Um dos exercícios instiga a criar uma bandeira do Brasil a partir das constelações indígenas.

Há também jogos que relacionam as constelações com imagens, e também sobre os mitos que envolvem suas criações. Estes e outros materiais estão disponíveis gratuitamente no site do grupo: www.pb.utfpr.edu.br/geastro.

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