quinta-feira, maio 26, 2022

Guido e a música

As histórias do professor que decidiu anos de sua vida aos corais e ao canto

Por Nelson da Luz Junior

O professor Guido Brod sente saudades de estar a frente de um coral. Como quase tudo, as apresentações musicais cessaram por conta da pandemia de Covid-19, e no momento em que conversamos, via telefone, já se seguiam cinco meses sem ensaios ou performances.

Sentir a ausência é inevitável. O senhor franzino e simpático mantém uma relação íntima com a música por pelo menos 50 anos, dos seus 81 de vida.

Ainda que a docência em geografia tenha sido sua prioridade profissional,

os corais e as bandas marciais sempre ocuparam um lugar muito cativo na sua rotina.

Natural de Santo Cristo, Rio Grande do Sul, Guido Brod aprendeu a gostar de música em casa. O instrumento favorito de sua família era a voz. Desde sua infância, pais e irmãos cantavam para extravasar alegria, em momentos de descontração, em festas religiosas.

Seu avô foi inclusive o fundador de um coral, que está na ativa até hoje em Santo Cristo, e conta com a participação de um de seus irmãos.

Por meio da congregação dos irmãos Lassalistas, Brod chegou a Pato Branco no início dos anos 1970. No tradicional colégio, ele comandou a banda marcial, que chegou a ter 80 membros.

Brod regia, ensinava todos os instrumentos e comandava as evoluções, sem nunca ter estudado música formalmente, exceto por um curso de canto orfeônico, nos tempos de sua educação primária. Ele conta que sua maior escola foi a observação, seu jeito de dizer que é autodidata.

Já com os corais, seu trabalho ficou mais evidente a partir do início dos anos 1980, ao ser convidado a liderar o coral da AABB, que ao longo do tempo se transformou até chegar ao atual Renascer Chama Viva, que conta com o mecenato do Instituto Theóphilo Petrycoski. Vanilla conversou com Guido Brod sobre essas e outras histórias.

Vanilla – Há tempo o senhor está em Pato Branco, e qual o foi o motivo da sua vinda para a cidade?

Guido Brod – Eu morei em outras cidades também, pois eu fui da congregação dos irmãos Lassalistas. Estudei em Canoas e Carazinho. Depois quando completei minha formação no magistério, fui transferido para Toledo, isso foi entre 1961 e 1962. De Toledo, me transferiram para Francisco Beltrão, onde fiquei até 1969. No começo de 1970 me transferiram para o Colégio La Salle de Cianorte, lá fiquei um ano. E de lá eu vim para o La Salle aqui em Pato Branco, em 1971.

Como é o trabalho de um irmão Lassalista?


O irmão Lassalista não era padre, sua função é especificamente a educação, para qualquer área da sociedade. Eu fui professor a minha vida toda, e irmão Lassalista até o ano de 1976. Eu fiz minha graduação em Geografia em Guarapuava, com registro para dar aulas de Geografia, História, OSPB (Organização Social e Política do Brasil) e Moral e Cívica.

Nesse tempo também atuei como maestro da banda marcial. O colégio teve banda por sete ou oito anos. Era instrutor, maestro, fazia parte das apresentações. Foi um tempo de muita produtividade, de aprofundamento na área da música, da disciplina, foi bem intensivo.

Como a música entrou na sua vida?

Meu pai, minha mãe, eram agricultores, meus irmãos todos trabalhavam na agricultura. O canto era um passatempo. Inclusive meu avô e meu pai fundaram o coral Santa Cecília, que existe até hoje lá em Santo Cristo. Meu pai fazia parte, meus tios faziam parte, meus primos. Meu avô, meu pai e seus irmãos eram todos ligados a música.

Na época o principal eram os corais. E daí surgiu o meu gosto pela música. Na escola eu cantava no coral de crianças do colégio. Às vezes a gente cantava em missas. Foi o meu começo.

Claro que depois fiz cursos, de canto orfeônico. Inclusive, antes de 1970 havia disciplina de canto orfeônico, onde se ensinava música aos alunos.

Isso no colégio La Salle?

Não, era no Brasil inteiro. Fiz o curso, que me garantia o registro para ensinar música. Mas fiz pouco uso desse registro, pois o governo retirou essa matéria das escolas. Mas a parte técnica foi muito importante, no ensinamento do uso dos instrumentos.

Por ali fomos estudando, aprendendo e também vendo outros colégios que tinham banda. Certa vez reunimos cinco bandas, acho que 1974, para uma apresentação no estádio Os Pioneiros.

Havia instrumentistas na sua família?

Eu não cheguei a aprender desde pequeno um instrumento. Depois, quando fui a Canoas fazer o antigo ginásio, estudei um pouco de harmônio, que é parecido com um teclado, só que para o som sair é preciso fazer fole com o pé.

Que canções vocês costumavam cantar em casa?

Cantávamos mais em festas, como as do padroeiro da cidade, eram cantos folclóricos. Nós aprendemos um mundaréu de cantos, de passatempo. Um bem facinho é o O Du Lieber Augustin, que se canta até hoje no interior, onde se tem colônia alemã.

Mais algum familiar se dedicou a música como o senhor?

O meu irmão, Marcos, também é maestro, do coral lá em Santo Cristo. É o segundo maestro.

Como era o trabalho na banda marcial do La Salle?

Em um ano eu cheguei a ter 80 figuras, todos eles alunos do colégio. Eles aprendiam pistão, corneta, a parte da percussão, e outros instrumentos. Para a época era o chamariz da Semana da Pátria. Fazíamos evoluções, figuras enquanto íamos marchando, coisas assim. E sempre tivemos apoio. O irmão Albano (em memória), foi o grande incentivador da banda.

Trabalhamos por uns sete ou oito anos. Depois, por conta da faculdade, eu precisei optar: ou aula (na banda), ou faculdade. Priorizei a profissão, o futuro, pois só poderia lecionar se tivesse o registro. Outros colégios também tiveram banda, mas nunca houve outra tão estruturada como a do La Salle.

O senhor ensinava todos os instrumentos?

Sim, e fui aprendendo por mim. Eu não fiz aulas de instrumentos de sopro, por exemplo. Fiz (apenas) o curso de canto orfeônico, em 1957, na PUC, em Porto Alegre.

Apesar do fim da banda, a música seguiu fazendo parte da sua vida?

Mesmo dando aulas todo dia, nós acompanhávamos a missa, na paróquia. Eu tinha facilidade em lidar com o órgão de tubos da igreja. Eu era o organista, o irmão Arnaldo era o orientador da parte dos cantos, e o frei Eugênio era o celebrante. Durante muitos anos fui o organista. Aliás, eu ainda hoje o ocupo de vez em quando, geralmente em sábados de manhã. Vou matar a saudade.

Também aprendi por mim. Hoje que eu estou estudando partituras, métodos, que é o meu passatempo como aposentado.

E os corais?

Em março de 1981, três rapazes, funcionários do Banco do Brasil, vieram me procurar. Eles participaram de corais quando eram estudantes, e acharam que seria uma boa ideia criar um coral da Associação Atlética Banco do Brasil (AABB), e precisavam de um regente.

Eu já tinha experiência de maestro, pois já havia tido corais em Beltrão, em Cianorte, um coral de igreja, então eu tinha uma ideia de maestro. Logo, por que não?

Foi fundado assim o coral da AABB, que ficou famosíssimo, modéstia a parte. A gente levou sempre a sério.

O coral fez parte de três ligas de corais. Uma em Santa Catarina, uma do oeste do Paraná, e outra aqui no Sudoeste. Na de Santa Catarina, o coral ficou várias vezes em segundo e terceiro lugar. Só nunca conseguimos o primeiro lugar.

Essa liga promovia competições. Chegou uma época que havia tantos corais que não havia mais condições de fazer um encontro em um único sábado. Eram perto de 50.

E era coisa linda, meu caro. Dois dos encontros da liga, classe A, foram feitos em Pato Branco, no tempo em que o coral da Cattani participava.

O senhor chegou a atuar no coral Cattani?

Cantei durante três anos com eles. Mas aí mudou o horário de ensaio deles, o meu, e não foi mais possível, pois eu também tinha que me dedicar ao coral da AABB.

O coral da AABB chegou a gravar discos?

Sim, gravamos um LP em 1987, depois de um trabalho de preparação de dois anos. Do coral da AABB foi o único.

E qual era o repertório do coral?

Naquela época eram músicas folclóricas, religiosas. Hoje temos música clássica, religiosa, populares, gauchescas. E um detalhe, as apresentações dos corais da liga tinham que ser sem instrumentos, era à capela, que é muito mais complicado. Ainda hoje eu faço isso, cantamos sem instrumentos.

O coral da AABB existiu até quando?

Até perto de 1990, daí passamos para o coral municipal, no tempo do Padoan, do Delvino (ex-prefeitos de Pato Branco). Lá pelas tantas, em uma mudança de gestão, o coral acabou.

Quando deixamos de ser coral municipal, passamos alguns anos sem patrocínio nenhum, por conta própria. Os cantores não queriam abandonar, e assim surgiu o nome Coral Renascer, pois havíamos morrido duas vezes para renascer.

Então ao menos parte dos cantores permaneceu desde o coral da AABB?

Quem sugeriu o nome Renascer foi a dona Lori Tagliari, que era do coral da AABB e ainda canta hoje. Há mais gente, o Irio Marini, a Elisete e o Vilson Angeli, a Orilde Piaceski e o Miguel de Oliveira.

Como é o trabalho de um regente?

Para formar um coral você precisa ter noções básicas da voz, quais cantos você quer trabalhar, como você vai trabalhar as vozes, para definir quem é soprano e contralto, no caso das mulheres, e para homens, quem é tenor e baixo. E essas noções a gente aprendeu naquele curso de canto orfeônico, lá em 1957.

O canto coral envolve a expressão musical, a parte técnica, das notas, do canto, e a parte artística do canto. Isso quer dizer quando o canto exige você cantar mais rápido, mais devagar, bem fraquinho e depois passar para um fortíssimo. Isso tudo faz parte do belo trabalho do canto coral.

Um coral tem um número máximo de pessoas?

Não. Se vierem 40, vamos com 40. Se vierem 100, vamos com 100, se vierem quatro, vamos com quatro. Claro que é mais fácil trabalhar com 25, 28, 30 pessoas. Pelo contato, pela facilidade do aprendizado, porque durante o ensaio você tem que escutar a pessoa cantando, para ver se há uma evolução.

Qual foi o maior coral que o senhor regeu?

Foi na época da AABB. Chegou uma época que tínhamos 48 cantores. Era barulho, meu caro (risos).

Além do coral, o senhor realiza outras atividades ligadas a música?

Hoje somente com o coral Renascer Chama Viva. A gente não te mais aquele pique de manter corais em outros municípios, por exemplo. Bem que eu gostaria.

De quais outros corais da região você já esteve a frente?

Nos tempos em que estive em Beltrão eu tive coral de igreja, regi o municipal, trabalhei no coral de Cianorte…

Quais corais ou artistas que te influenciaram?

Há corais que considere mestres, que eu aprendi muito observando, como o coral Schalom, de Curitiba. O maestro era o José Rodrigues, já falecido. Ele inclusive foi maestro do coral Cattani por uns três anos.

Outro coral que me chamou sempre muita atenção, e foi decisivo para eu continuar, é o coral Cristo Rei, de Toledo, do maestro Darcysio. É um coral que está em atividade há mais de 60 anos.

Eu aprendi muito com a prática, ouvindo outros corais, observando o que eles fazem. Hoje a gente tem a internet, meu Deus, quanta coisa. Eu tô ligado, como diz a piazada (risos).

* Matéria publicada na edição nª 35 da Revista Vanilla

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