quinta-feira, maio 26, 2022

Buscando novos horizontes

Indústrias do Sudoeste se reinventam e passam a produzir EPIs para profissionais de saúde, que estão na linha de frente do combate à pandemia de Covid-19

Por Paloma Stedile – Fotos: KDU Confecções e Conéctar Produtora

Há alguns meses, o mundo foi surpreendido com uma doença que ainda tem alguns mistérios. A única certeza é que grande parte das pessoas conhece alguém ou mesmo contraiu o novo coronavírus (Covid-19).

Com essa pandemia, que chegou silenciosamente, o mundo não será mais o mesmo. De forma forçada, as pessoas a cada dia tomam consciência da importância do isolamento social; de lavar as mãos e utilizar o álcool em gel; e de usar as máscaras, as quais se tornaram “acessórios” ao sair de casa.

A princípio, as máscaras eram recomendadas exclusivamente aos profissionais de saúde e aos demais trabalhadores da linha de frente ao combate a Covid-19. Porém, pouco tempo depois, médicos passaram a orientar todas as pessoas a utilizarem esse item indispensável, o qual inclusive se tornou obrigatório em boa parte dos países.

Para a população são recomendadas máscaras em tecido, inclusive àquelas que muitas costureiras aprenderam a confeccionar devido a situação, deixando de lado as reformas e outros afazeres. Aos profissionais, que atuam contra a pandemia, as máscaras cirúrgicas passaram a ser mais essenciais do que nunca.

Com isso, não só o Brasil (que começou a ser acometido pelo coronavírus no final de fevereiro), mas o mundo precisou adquirir esse Equipamento de Proteção Individual (EPI), o qual até então era produzido em sua maioria na China.

Tendo em vista a situação de pandemia, o comércio, em praticamente todos os segmentos, teve sua paralisação obrigatória, buscando a prevenção ao coronavírus. Assim, a venda de roupas, por exemplo, teve uma diminuição drástica, o que consequentemente fez com que as lojas cancelassem seus pedidos junto às indústrias têxteis.

Problema x Solução

Buscando soluções para a necessidade de máscaras cirúrgicas e para a baixa demanda na fabricação de roupas, a Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) mobilizou todos os seus sindicatos, entre eles o Sindicato das Indústrias do Vestuário do Sudoeste do Paraná (Sinvespar), em Francisco Beltrão, incentivando as indústrias têxteis a fabricarem máscaras cirúrgicas. “Em meados de março, mesmo antes do isolamento social, o Paraná adquiriu um lote de máscaras cirúrgicas da China. E o avião, que estava transportando essas máscaras, fez escala técnica na Europa, onde naquele momento enfrentava o auge da pandemia; com isso, acabaram retendo aquela carga”, descreve João Arthur Mohr, gerente de assuntos estratégicos da Fiep.

Com isso, segundo Mohr, “o Governo do Estado do Paraná entrou em contato com a Fiep, descrevendo essa situação: ‘Vamos ter problema de desabastecimento de máscaras cirúrgicas, porque 95% delas são fabricadas na China. O mundo inteiro está comprando máscaras e o lote que havíamos adquirido foi retido. Dessa forma, muito provavelmente ficaremos sem máscaras para que as pessoas da linha de frente do combate a Covid-19 possam trabalhar’”.

Como na indústria o segmento de vestuário tem cerca de 70 mil pessoas trabalhando em todo o Estado, e esse setor foi um dos mais atingidos pela crise, houve o incentivo da Fiep para que essas indústrias paranaenses se reinventassem. “Nos reunimos com todos os presidentes de sindicatos e falamos: ‘Vocês estão com o nível de produção baixíssimo, as vendas de roupas caíram mais de 85%, sendo um dos setores mais atingidos, tirando a aviação e a hotelaria. Existe uma oportunidade agora, de mudarmos a nossa linha de produção: a confecção de máscaras cirúrgicas’. Assim, unimos três questões: a preservação da saúde das pessoas, a preservação do emprego e a preservação da saúde financeira das empresas”, diz Mohr.

O gerente de assuntos estratégicos da Fiep explica que a Federação orientou as indústrias para fazer treinamento, a fim de se adequarem ao padrão estabelecido pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), na fabricação desses EPIs. “Também existem resoluções da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que devem ser observadas e seguidas. Então fizemos todo o treinamento e, enquanto isso, a Fiep mesmo comprou a matéria-prima especial, que também estava com problema de entrega, para a fabricação desse produto”.

Incentivo

Ao todo, conforme Mohr, foram mobilizadas 150 indústrias no Paraná, que até então fabricavam produtos como bonés e camisetas; roupas masculinas e femininas; calças jeans; e uniformes. Elas empregam mais de 10 mil trabalhadores.

“Não daria para essas indústrias irem nesses fornecedores [no Brasil há dois], adquirir o Tecido Não Tecido (TNT). Então a Fiep entrou em contato com um desses fornecedores, fez o pedido e comprou a matéria-prima. Aí distribuiu para todas essas empresas, por meio dos sindicatos empresariais. No Sudoeste, essa matéria-prima foi para uma indústria de Santo Antônio do Sudoeste, porque venceu a licitação para produção de máscaras destinadas à Secretaria da Saúde do Estado do Paraná (Sesa)”.

Mohr acredita que, das 150 empresas que estão confeccionando EPIs, pelo menos cinco devem permanecer nesse segmento, pós-pandemia. “Inclusive essa empresa de Santo Antônio do Sudoeste, a KDU Confecções, comprou equipamentos para a produção de máscaras e, com certeza, vai continuar nesse mercado. Obviamente é muito importante que os governos Estadual e Federal, ao fazer licitações futuras, tentem manter essas parcerias com as empresas locais [que hoje que estão fabricando as máscaras cirúrgicas] para um período pós-pandemia. Assim, ajudará a fortalecê-las”.

Outros EPIs

Não foram apenas máscaras cirúrgicas que passaram a ser produzidas pelas indústrias paranaenses. Mohr afirma que outros EPIs, como jalecos e aventais cirúrgicos, também no TNT, começaram a ser confeccionados por empresas do Estado devido a Covid-19.

“Também há empresas no Sudoeste que fabricam esses dois itens. Uma delas é o Grupo Krindges, em Ampére. Ela forneceu jalecos, por exemplo, ao Hospital Albert Einstein, em São Paulo, referência nacional de atendimento à saúde. Assim como a KDU Confecções, o Grupo Krindges deve continuar com sua linha de produção de EPIs”.

Para o gerente de assuntos estratégicos da Fiep, o que era até então uma crise acabou se tornando uma oportunidade. “Foi e é um momento de crise. Porém, surgiu a oportunidade de diversificar, de trazer um novo negócio ao portfólio de produtos dessas empresas”.

Ele completa que mais de 10 mil pessoas hoje estão trabalhando na produção desses produtos. “Se não fosse adotada essa medida, essas 10 mil pessoas provavelmente teriam seus contratos de trabalhos suspensos, haveria redução de jornada ou até, em muitos casos, estariam desempregadas. Assim, podemos dizer que, numa média de quatro pessoas por família, cerca de 40 mil pessoas estão permanecendo com seu sustento garantido, em função desses novos produtos fabricados no Paraná”.

Mohr ainda lembra que isso, consequentemente, gerou também saúde financeira às indústrias, pois estão conseguindo vender esses produtos. “Criou-se motivação também para os empresários correrem atrás de outras oportunidades. Soube, por exemplo, que um empresário do Paraná esteve recentemente no Mato Grosso, para concorrer numa licitação de uma prefeitura, a fim de vender máscaras”.

Alternativa

Há 12 anos no mercado, a KDU Confecções foi uma das 150 empresas no setor têxtil paranaense que precisou se reinventar em 2020. Durante todos esses anos, trabalhou exclusivamente nas confecções de alfaiataria, sendo que com o passar do tempo começou a produzir também peças em sarja e jeans, totalizando cerca de 350 mil peças confeccionadas por mês.

A sede está localizada em Santo Antônio do Sudoeste, onde ficam todos os insumos. Entretanto, possui parcerias com aproximadamente 25 empresas situadas em sua maioria no Sudoeste do Paraná. Já a produção é vendida em todo o País, por meio de 120 representantes comerciais.

“Em virtude da pandemia, a comercialização dos nossos produtos teve redução em torno de 80%. Assim, precisamos nos reinventar e passamos a produzir máscaras cirúrgicas. Adquirimos seis máquinas, para confeccionar esses EPIs; enquanto terceirizamos a parte de colocação de tiras e elásticos. Após essa etapa, esses produtos voltam à nossa empresa, onde fazemos o controle de qualidade e higienização para poder comercializá-los”, diz o diretor proprietário da KDU Confecções, Cláudio Cauduro.

O empresário explica que, até em meados do mês de junho [quando foi entrevistado], cerca de 25% dos seus colaboradores continuava no segmento de vestuário, a fim de produzir peças para estoque. Outros 25%, por sua vez, estava no setor de EPIs.

“Os demais 50%, infelizmente, estão com contratos suspensos temporariamente, dentro do plano de Governo Federal, mantendo-se até voltar a produção normal”.

Capacidade

Com esse maquinário adquirido, a capacidade da indústria é de produzir 500 mil máscaras por dia. “Temos também os terceirizados, que fazem o complemento, que consiste na colocação de elásticos e tiras. Ainda, produzimos cerca de 100 mil macacões e aventais por dia, havendo possibilidade de ampliação do espaço. Além do Governo do Estado, atendemos prefeituras e hospitais do Paraná; e estamos começando a atender todo o Brasil, fazendo pequenas vendas e abrindo o mercado”, observa.

Para Cauduro, o apoio da Fiep para ingressar nesse novo segmento fez a diferença. “Essa possibilidade de se reinventar foi essencial nesse momento, pela questão de sobrevivência das empresas ligadas à confecção num percentual bem significativo. A princípio, tínhamos dificuldade de conseguir esse insumo [TNT]. E a Fiep viabilizou de início uma quantidade. A minha empresa recebeu 3,4 toneladas desse produto. Isso nos motivou e fez a diferença nesse momento, sem sombra de dúvidas, para que déssemos sequência na comercialização”.

O empresário reitera o que o gerente de assuntos estratégicos da Fiep disse sobre a continuação nessa área, no período pós-pandemia. “Acredito que o mercado vai demorar para se reestabelecer, será de forma gradativa. É preciso ter consciência disso e estar preparado, porque se as empresas forem muito prejudicadas, respinga no trabalhador. Por isso, com essa estrutura que criamos, pretendemos manter esse segundo segmento [de EPIs] para ser um complemento da atividade tradicional. Dessa forma, buscando que o maior número possível de empregos seja mantido”.

Parceria

Com 42 anos de mercado, o Grupo Krindges é outra empresa do Sudoeste do Paraná que se reinventou nessa época de pandemia. Especializada na confecção de moda masculina, tem sua sede em Ampére e possui filial em São Miguel do Iguaçu (PR).

Juntas, as duas unidades empregam 750 colaboradores, que atuam nas produções para duas marcas principais e também nas confecções de outras etiquetas para grandes grupos e redes de lojas.

Em meados de março, a indústria também sentiu a necessidade de mudança, devido ao coronavírus. “Estávamos com a empresa parada há uma semana. Não por falta de produção, pois tínhamos pedidos pendentes para atender. Mas devido a uma reunião que empresas de Ampére tiveram com a prefeitura, na qual resolvemos paralisar por um período buscando evitar a proliferação do vírus”, afirma o diretor presidente da empresa, Leonardo Fistarol Krindges.

Paralelo a isso, a Medix [uma distribuidora de EPIs hospitalares de Cascavel (PR)] entrou em contato com a empresa, informando que tinha grande demanda de aventais/jalecos hospitalares para atender algumas operações de hospitais de campanha e particulares, que iriam trabalhar com a Covid-19. “A partir daí, mudamos totalmente o nosso negócio, que antes era produzir moda masculina diversificada, de valor agregado, para um negócio de único produto [avental/jaleco] e de única cor [branca]”, diz.

Capacitação e prevenção

Como os colaboradores confeccionavam produtos diferentes dos atuais, passando a produzir EPIs hospitalares, dentro de um parque fabril, a empresa precisou adaptar totalmente a parte produtiva, sendo necessária capacitação dos funcionários. “Em alguns setores, os colaboradores aprenderam mais rápido. Também precisamos redistribuir parte deles para novas funções, porque há operações na moda que não existem nos EPIs, como a passadoria, que passa camisa e blazer, por exemplo”.

Entretanto, conforme o diretor presidente, “sentimos que todos compraram a causa e entenderam a gravidade da situação, se esforçando para aprender o mais rápido possível e colaborar de forma positiva, nesse momento de pandemia”, diz, completando que o quadro de funcionários permanece praticamente o mesmo, se comparado antes dessa realidade.

Apoio

Como naquele momento a capacidade produtiva da indústria não era suficiente para atender à demanda [que inclusive substituiu totalmente a sua produção de moda, pelos EPIs], durante o mês de abril, a Krindges fez parceria com 35 empresas, a fim de entregar o volume total previsto.

Essa produção de aventais consiste “desde corte, confecção, acabamento, embalagem, expedição, toda a parte de logística dessas empresas parceiras [desde receber e enviar material], além da parte de inspeção de qualidade, para garantir um nível adequado de entrega do avental hospitalar, condizente com os hospitais que necessitam e a gravidade da situação”.

Krindges informa que, entre abril e o final do mês de junho, foram produzidos cerca de nove milhões de aventais. A princípio, segundo ele, toda a equipe se dedicava exclusivamente ao EPI. Contudo, ainda na primeira quinzena de junho, em torno de 20% dos colaboradores retomaram suas atividades na parte de confecção de moda masculina.

Continuidade

Assim como a KDU Confecções, o Grupo Krindges também enaltece a iniciativa da Fiep de mobilizar as empresas. “Embora não tenhamos feito parte do projeto [tendo em vista que produzimos aventais, e a iniciativa consiste em máscaras], acompanhei essa situação e parabenizo a Federação e o Sinvespar. Com isso, foi possível atender a demanda do Estado do Paraná de maneira mais assertiva e com preço mais justo”, observa Krindges.

Ele afirma que a ideia é retomar integralmente as atividades com a confecção de moda masculina. Entretanto, a indústria amperense pretende implantar outra empresa, em parceria com a Medix. “EPIs esterilizados, específicos para a época normal, fora desse período de pandemia, pois os aventais hoje produzidos são muito específicos ao momento atual”.

O diretor presidente acredita que, se a empresa não se reinventasse, passando a produzir aventais, “teríamos que ter captado dinheiro; talvez feito algumas suspensões de contrato, reduzindo o quadro de trabalhadores. Enfim, medidas que nenhum empresário gosta de tomar”.

* Matéria publicada na edição nº 34 da edição Vanilla, em 2020.

Ultimas Notícias