quinta-feira, maio 26, 2022

Depois do parto

O puerpério é um período difícil para a mulher. Por dentro, seu corpo trabalha incansavelmente para retornar ao estado de pré-gravidez. Por fora, dois seres estranhos se esforçam para colocarem suas vidas em harmonia. E um deles, o filho, é totalmente dependente do outro, a mãe.

Mariana Salles

A gravidez, surpresa ou planejada, é um período mágico para a maioria das mulheres. Apesar de todos os percalços, os incômodos, as dores, os enjoos, quando você ouve relatos de mães há sempre saudade da barriga, do bebê se mexendo no ventre, da expectativa de ver o rostinho, da organização do enxoval.

O dar à luz divide opiniões: algumas relatam dores, outras dizem que foi lindo, há quem tenha vivenciado a violência no parto. Mas, em geral, a família está ao lado dando o suporte necessário para que aquela vivência traga boas lembranças. Há também apoio médico para os primeiros momentos após o nascimento, alguns cuidados especiais.

A nova realidade começa a mostrar as caras quando mãe e bebê vão para casa e, num período de aproximadamente oito semanas, aquelas duas pessoas estranhas precisam entrar em um acordo de como será a vida dali em diante. Como mãe, surgem vários questionamentos acerca do bebê, que inundam a cabeça de ansiedade. Como mulher, o espelho mostra um corpo que não era o que ela tinha antes de gerar uma criança e que está trabalhando para voltar a ser o mesmo.

Enquanto isso, aquela nova vida tenta sobreviver ao ambiente, adaptando seu corpinho que ainda está se desenvolvendo para enfrentar o universo fora de onde ele foi gerado.

É no puerpério que a mulher descreve, naqueles depoimentos sobre a maternidade real, que um filho não é a plenitude da mulher, mesmo que ser mãe seja algo muito legal.

No corpo

Conforme o ginecologista e obstetra Igor Chiminacio, a recuperação da mulher depende do tipo de parto pelo qual ela deu à luz ao bebê. “A principal diferença está no fato de, após a cesariana, a paciente se sentir operada, pois foi submetida a uma cirurgia, com um corte, que apesar de muito tranquilo, requer alguns cuidados com esforços. Mas, de maneira geral, os avanços das técnicas cirúrgicas de cesariana resultam no abando de algumas práticas desnecessárias, como a sonda na bexiga, e o repouso por 24h deitada”, explica. Sendo assim, mesmo as mulheres que necessitam de cesariana têm levantado com apenas 8 horas após o procedimento, podendo amamentar sentadas no mesmo dia, ficando bastante independentes para cuidar do bebê.

Por outro lado, após um parto normal, apesar do desgaste e cansaço físico durante a fase ativa do parto, a mulher já está imediatamente apta para cuidar sozinha do seu filho, podendo levantar e amamentar sentada. “Atualmente não tem sido recomendado o corte vaginal intencional no momento do nascimento, chamada episiotomia, a não ser nos casos estritamente necessários, colaborando assim que a mulher se recupere muito mais rápido e sem medo de sofrer qualquer tipo de sequela, como muitas ainda têm medo”, recomenda. Ele diz ainda que é importante saber que a episiotomia não previne a flacidez vaginal ou a descida da bexiga, a famosa “bexiga caída”, por exemplo.

De maneira geral, após o parto, seja ele por via baixa (parto normal) ou via alta (cesariana), a primeira percepção que pode causar estranheza na mulher é uma flacidez abdominal, da pele e da musculatura. “Isso irá se recuperar de forma rápida, ainda nos primeiros 40 dias”, informa.

Outras mudanças estão ligadas à amamentação, que fará o aumento do volume das mamas para produção de leite, além de, para isso, haver um bloqueio hormonal, o que em maior prazo levará a atrofia dos órgãos genitais, com um natural desinteresse sexual, o que os parceiros devem compreender. “A natureza faz com que a mulher tenha o foco sobre o bebê, que está dependendo exclusivamente do alimento materno”.

Do ponto de vista físico, diz o especialista, o maior problema que pode surgir neste período está ligado aos cuidados das mamas, que podem rachar os mamilos ou empedrar. “As mulheres se sentirão sempre mais inchadas por até 10 dias após o nascimento, o que vai diminuindo naturalmente, sem necessidade de nenhuma intervenção”.

Autoestima

Igor diz que a principal maneira de acelerar a recuperação é cuidar da autoestima. “Por isso a mulher pode, já no pós-parto imediato, cuidar dos cabelos. Não existe risco algum em lavar os cabelos nos primeiros 40 dias. Além disso, pode fazer a unha, caprichar nas roupas, mesmo que seja em camisolas e pijamas. Além disso, a mãe precisa descansar. Por isso, quando o bebê dorme, a mãe também precisa dormir, ou pelo menos cochilar, mesmo que tenha visitas em casa”, alerta.

Visitas

É importante também, diz o médico, criarmos a cultura de não visitar as mães e bebês nos primeiros 14 dias pós-parto. “Eles precisam descansar bastante neste período, e as visitas atrapalham muito a criação das rotinas individuais de cada família. Além que a imunidade das mães e dos bebês ainda estão em recuperação no pós-parto imediato, com risco de levarmos vírus e bactérias para eles quando os visitamos”.

Em forma

Do ponto de vista físico, 40 dias pós parto e 60 dias pós cesariana está liberado a realização de atividade física regular. Fazer massagem e drenagem linfática está autorizado já no momento que vão para casa, e isso ajuda a diminuir o inchaço do pós-parto, além de colaborar com a autoestima da mulher.

“Gestar significa uma transformação, tanto física quanto emocional. E é esse um dos momentos de maior amadurecimento para a vida da mulher, e são esperadas mudanças definitivas. A maior preocupação, que é o formato do abdome e da flacidez, tende a estar sanado nos primeiros 40 dias, pois naturalmente os músculos abdominais voltam ao normal neste período,  mas é muito mais satisfatório nas mães que já se exercitavam antes e durante a gestação”, comenta.

Já as estrias que a gestação deixou, essas provavelmente necessitarão de tratamento especializado com médico dermatologista. “Mas vale saber que elas, ao longos do primeiro ano, irão ficar mais claras”.

Na mente

Chiminacio diz que, apesar das alterações físicas, a maioria dos problemas neste período são de ordem emocional, com a passagem por um momento chamado de “Blues puerperal”, ou tristeza do pós parto, que pode se transformar em depressão pós parto. “O risco sempre acontece por haver uma queda repentina de todos os hormônios que estavam na corrente sanguínea da mãe durante a gestação, além de uma mudança repentina nas rotinas, como privação do sono, mudança dos horários de alimentação e falta de tempo para cuidar de si mesma”, reflete.

Sobre isso, a psiquiatra Valéria Azevedo endossa o conhecimento do obstetra confirmando que a mulher pode se sentir mais sensível, chorosa e até insegura com a maternidade. “Há uma série de cobranças internas para ser uma mãe suficientemente boa. Além disso, a própria sociedade cobra que ela esteja se sentindo plena, completa, em estado de graça. Porém, muitas vezes ela tem dúvidas quanto a sua real capacidade de lidar com tantas demandas que vêm com a chegada do filho”, avalia.

O Baby blues, então, é um período breve de hipersensibilidade, no qual pode ocorrer choro e tristeza pela nova fase, na qual o bebê não está mais na barriga protegido e agora depende de cuidados da mãe. 

Essa tristeza é mais branda que a depressão puerperal ou pós-parto, “que é um quadro patológico em que a mulher tem muita insegurança para cuidar do bebê, pode não conseguir fazer contato visual com o filho, não conseguir trocar suas fraldas, banhá-lo, nem amamentá-lo”, explica Valéria. “Ou, mesmo que consiga realizar tais tarefas, o faça com extremo medo de errar, de machucá-lo, de afogá-lo durante o banho, de que ele tenha morte súbita por apneia. Enfim, é um estágio que necessita tratamento psiquiátrico e psicoterápico”.

A médica diz ainda que há casos de psicose puerperal, muito mais raros felizmente, em que ocorre risco de vida para a criança e até para a mãe.

Valéria dá algumas dicas de como ajudar a mãe a passar por esse período de instabilidade emocional.

Apoio nas emoções

No caso de baby blues, é preciso dar apoio emocional à mãe, procurando auxiliá-la nas tarefas domésticas e de cuidados com o bebê. Quando se trata de depressão é preciso tratamento médico.

Não opinar

As pessoas que convivem com a puérpera devem ser colaborativas sem ser invasivas. “É preciso tomar cuidado com críticas, com conversas de ‘como era no meu tempo’. Respeitar os desejos do casal em termos de amamentação, crenças em simpatias ou não, roupinhas, local de dormir, banhos. Enfim, tomar o cuidado de não impor sua cultura familiar à nova família que está se adaptando uns aos outros”, indica.

Manter a individualidade

A psiquiatra diz que é importante que tão logo a mulher já esteja dominando a nova rotina de cuidados do filho, que ela volte, aos poucos, a perceber-se novamente como um indivíduo, não apenas mãe. “Que ela possa contar com o apoio do marido e outros familiares para ter momentos para cuidar de si, voltar a praticar atividade física, alimentação saudável e balanceada e ter um tempo para sua vaidade feminina, que ajuda a ir recuperando a autoestima”.

Procurar ajuda

Valéria acredita que a mulher que está bem resolvida quanto a sua nova condição de vida jamais irá descarregar no bebê suas frustrações. Ela terá equilíbrio psíquico e maturidade emocional para ir amando e educando o filho desde os primeiros meses. “Quando isso não ocorre, é legítima a procura de ajuda psicoterapêutica para se adaptar melhor a essa nova fase”.

Prevenção é imprescindível para mulher e bebê

O acompanhamento pré-natal é fundamental para garantir a saúde da mãe e do bebê. Para o diretor técnico do Laboratório Biocenter (Grupo Plátano), Jardel Bordignon, qualquer problema diagnosticado cedo tem maior chance de ser curado e, o mais importante de tudo, evita que ocorram prejuízos para a saúde da criança. “Citando um exemplo, uma mãe portadora do vírus HIV que faça o tratamento correto praticamente elimina a chance de transmissão da doença para o filho”, alerta. E o mesmo ocorre com outras doenças.

Neste caso, a aplicação de exames laboratoriais se fazem necessárias, inclusive após o parto. Mas o que esses exames devem monitorar?

No hospital

Conforme Bordignon, após o parto, alguns exames são realizados já no hospital. “São exames relacionados a doenças infectocontagiosas, e isso é necessário para ter certeza de que a mãe não é portadora de alguma delas, o que poderia ocasionar a transmissão para o bebê ainda dentro do útero. Alguns exemplos são a pesquisa de HIV e de sífilis”.

Para os bebês

O teste do pezinho é sempre coletado já no hospital. “É um exame fundamental para rastrear algumas alterações que, se diagnosticadas e tratadas rapidamente, podem evitar problemas futuros”.

Além desse teste, em caso de mãe com tipagem sanguínea Rh negativo, é necessário determinar o tipo sanguíneo do bebê, pois caso ele seja Rh positivo a mãe precisará receber uma vacina específica para evitar problemas nas próximas gestações.

Ainda, outros exames podem ser solicitados pelo médico, dependendo da sua avaliação sobre o estado da criança.

Diabetes ou anemia gestacional no pós-parto

Na maior parte dos casos, o diabetes e a anemia relacionados à gestação regridem nos meses seguintes. “Para isso, é necessário que a paciente continue o acompanhamento com o seu médico e realize os exames solicitados por ele”, diz Bordignon.

  • Conteúdo publicado naedição nª 25 da Vanilla, em junho/julho de 2018.
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