quinta-feira, maio 26, 2022

Retratos de coragem

Momentos de superação fazem parte da trajetória de muitas mulheres, que precisaram enfrentar diferentes tipos de desafios e provações ao longo de suas vidas. Criado por duas fotógrafas de Pato Branco, o projeto Serena pretende trazer a luz histórias inspiradoras vividas por mulheres anônimas 

Por Nelson da Luz Junior – Fotos: Carina Pelegrini e Elisa Rohweder


Quando criança, Maria Silvania Paulo Santos mais trabalhou do que brincou. Quando tinha oito anos de idade, seus pais a colocaram para “trabalhar na cozinha dos outros”, como diz um ditado popular de Sergipe, sua terra natal.

O emprego não era por necessidade, era um tipo de tradição. Naqueles tempos, filho de pobre labutava desde cedo para crescer responsável. Mas diz ela que não se queixa.

Foi por meio do trabalho que ela realizou um de seus sonhos: sair de Aracaju, a capital sergipana, cidade difícil de se viver fora da cidade de veraneio. A empresa tinha duas filiais, uma no Rio de Janeiro e outra em Brasília. Maria escolheu Brasília, onde trabalhava de dia e morava em um alojamento a noite.

Na cidade nova, a adolescente de 16 anos de idade conheceu aquele que seria o seu marido. “Era um homem bom, que bebia, mas não tanto”, descreve o homem daqueles tempos. Foram morar juntos quando Maria Silvania engravidou do primeiro dos seus quatro filhos.

Certa vez, em plena rua, Maria foi espancada pelo marido. A violência foi tanta que ela ficou apenas de calcinha e sutiã. “Eu não lembro se foram chutes, se foram socos. Uma mulher que apanha de um homem vê o mundo girar. Você sente o primeiro tapa, e depois amortece por dentro”, conta. Junto com a camisa, que ela ganhou para vestir até chegar em casa, veio a promessa de que não apanharia mais.

A promessa não se cumpriu. Em anos de convivência, Maria foi espancada várias vezes, inclusive em uma ocasião enquanto amamentava sua primogênita. Não bastasse a violência física, ainda precisou enfrentar o racismo quando passou a morar no Sudoeste, e precisou lutar muito para garantir o sustento dos filhos. Teve até a casa incendiada pelo marido embriagado.

Hoje ela não convive mais com essa situação, já garantiu sua independência financeira produzindo estopa, tem uma filha prestes a se tornar mestre em antropologia e outra estudando jornalismo. Os outros filhos, dois meninos, também estão bem encaminhados.

A história de Maria Silvania infelizmente não é uma exceção no Brasil, e demonstra como situações de violência doméstica podem estar muito próximas.

Maria é uma das personagens de uma iniciativa pensada para trazer a luz vivências de mulheres anônimas. É o Projeto Serena, criado pelas fotógrafas Carina Pelegrini e Elisa Rohweder.

Elas entrevistaram e fotografaram dez mulheres, com perfis, idades, trajetórias pessoais e profissionais bastante distintas, de professora a caminhoneira, de protetora dos animais a assistente social, de uma mulher que precisou enfrentar a morte de um filho a mulheres empreendedoras.

A intenção, segundo ambas, foi conhecer histórias que as inspirassem profissionalmente e que também pudesse inspirar outras pessoas. O resultado da primeira parte do trabalho foi mostrado em uma exposição fotográfica, realizada em maio no Clube Pinheiros, em Pato Branco.

“Geralmente conhecemos as empreendedoras de sucesso, as capas de revista. Não que elas não tenham seus méritos, mas nós queríamos contar histórias que ainda estavam escondidas”, conta Carina.

Maria Silvania

As sugestões de entrevistadas foram aparecendo por vários caminhos, como por exemplo, a indicação de pessoas que acabavam sabendo da ideia.   “A gente foi se envolvendo com as histórias, e hoje vemos que foram as mulheres certas para esse projeto. A maioria, senão todas, nos surpreenderam muito”, completa Elisa, que batizou o projeto. A justificativa é que as mulheres continuam encarando a vida de forma serena, apesar de todas as dificuldades.

Muitos dos depoimentos foram de superação, apesar de este não ter sido necessariamente o foco do projeto. Mesmo com a diversidade de perfis, o machismo, o alcoolismo e a violência de ex-companheiros foram pontos bastante convergentes.

O projeto Serena também ilustra como eram alguns arranjos sociais há poucas décadas. Todas têm mais de 40 anos de idade, e a grandessíssima maioria começou a trabalhar na infância para ajudar no sustento da família. Praticamente todas se casaram com pouco mais ou pouco menos de 20 anos de idade já com seus primeiros namorados, e algumas ainda era adolescentes quando engravidaram.

Jakeline Reolon nasceu em Mariópolis, morou no campo a maior parte da vida, ajudando os pais na lida com a lavoura e os animais.  Se casou com um colega de colégio, com quem teve uma filha. Jakeline sofreu violência logo nos primeiros meses de casamento, enquanto estava grávida, e no ápice de uma agressão teve um revólver colocado em sua boca. “Aquele dia eu vi que ia morrer”, desabafou na entrevista para o projeto.

Para deixar o casamento, ela aguardou o amadurecimento da filha, mas nem isso lhe garantiu tranquilidade. Mesmo separada, por meses Jakeline precisou se esquivar do ex-marido enciumado.

Eliane Casagrande

Hoje, livre das ameaças, ela mantém sua independência dirigindo um caminhão. Pelas estradas, ela ainda precisa conviver com o preconceito por parte de outros motoristas, mas pondera que a discriminação é cada vez menor. “Nessa profissão você precisa ser forte, mostrar que não está para brincadeira, e que na estrada é todo mundo igual, homens e mulheres estão ali para trabalhar”.

Nos depoimentos houve uma unanimidade: os filhos, que estão entre as coisas mais importantes na vida de todas. Para muitos, a motivação para superar dificuldades veio da necessidade de cuidar dos filhos.

A vendedora de produtos coloniais Érica Molinari Ferreira já esteve em várias encruzilhadas. Com os filhos pequenos doentes e sem uma renda fixa, ela viajou de Coronel Vivida a Palmas de ônibus para vender mandioca. Caminhou o dia todo carregando os produtos, e pernoitou em um hotel em troca de ajuda na lavagem da louça. Refez o trajeto por cerca de dois anos.

Em várias outras ocasiões ela precisou da criatividade, como quando criou uma salada de frutas para vender de porta em porta. O produto ficou famoso, e ela o comercializa até hoje. Aos 52 anos de idade, ela conta que ainda sonha com um espaço fixo para trabalhar.

Olga da Silva Pichetti e Neusa Fatima Vanin, ambas empresárias, também compartilharam suas experiências com o projeto. A primeira foi quem fundou o Atelier Eliza, um dos empreendimentos do gênero mais reconhecidos de Pato Branco e região.

Dona Olga é natural do interior de Itapejara D´Oeste, e colaborava com os pais na roça antes de começar a costurar, ainda criança. Eram tempos difíceis, conta ela, pois a oferta de aviamentos e outras matérias primas não era abundante.

Ela mesma fez seu vestido de casamento, e foi nostálgica ao lembrar dos pais e dos tempos de vida no campo, quando trabalhava de dia mas confraternizava e fazia serenatas com os irmãos e vizinhos a noite. Para prosperar, Neusa Vanin também fez sacrifícios, sobretudo ao conciliar o trabalho com o cuidado dos filhos, que quando crianças passaram por problemas de saúde.

Em comum, Sônia Mitrut, Thania Kaminski e Karin Silvestre tem a consciência social. Sônia trabalha com resgate de pessoas em situação de vulnerabilidade; Thania é protetora de animais e Karin é professora.

Neusa Vanin

Já Eliane Casagrande falou sobre os sentimentos ligados a perda do filho, Everton, falecido em 2017 de modo repentino, vítima de uma doença. “No primeiro mês depois que ele partiu eu não gostava mais da luz do sol, não queria ver as flores, não queria mais nada colorido. Parecia que aquilo não me pertencia mais”, confidenciou. Ela conta que a superação é um exercício diário, e que seu principal alicerce é a fé.

Apesar de conhecer previamente a história de cada uma das personagens, as fotógrafas dizem ter se surpreendido e se emocionado com os depoimentos. “A gente se envolvia muito intimamente durante o ensaio, por ser um ambiente mais intimista, privado”, conta Elisa.

As fotos foram feitas nas casas das entrevistadas, que foram maquiadas apenas de forma discreta. Segundo Carina, a intenção era captar as mulheres em seus lares, onde se sentisse mais à vontade. Os depoimentos em vídeo, apresentados na exposição, foram captados pelo vídeo maker Fernando Lazarin, um dos vários parceiros e patrocinadores que fizeram parte do projeto.

Carina e Elisa contam que notaram traços de parentes e de conhecidas nas histórias que ouviram, e se identificaram pessoalmente com pelo menos uma característica: a força de vontade.

Apesar de jovens, tanto uma quanto a outra já acumulam certa experiência na fotografia e nas artes. Carina Pelegrini quase estudou geologia, mas o curso superior em Porto Alegre era inviável. Começou então a trabalhar, e com a economia dos primeiros salários comprou uma câmera fotográfica. Há dez anos, seus primeiros modelos foram parentes.

Em seguida conseguiu trabalho em uma revista local, como vendedora que também fotografava inaugurações e ventos. Tomou gosto pela fotografia e se especializou, atuou em uma empresa de eventos de Pato Branco, fez faculdade de artes e há seis anos é especialista em fotografia de casamentos.  

Nas suas contas registrou mais de 80, muitos na companhia de Elisa, braço direito e amiga. Elisa Rohweder chegou na fotografia pelo artesanato. Ela cria desde criança, quando fazia pulseiras. Comprou sua primeira câmera para fotografar e fazer propaganda das caixas forradas de tecido que fazia para vender.

Com o equipamento também fotografava as amigas, até que chegou o primeiro pedido de orçamento para registrar uma festa infantil. Notou que a fotografia a completava, e há cerca de cinco anos é fotógrafa profissional.

O projeto Serena terá outras etapas. Várias mulheres que visitaram a exposição também foram fotografadas, e podem fazer parte de novas edições da mostra.  As histórias e fotos também devem ser divulgadas na internet. Por enquanto, o projeto possui uma página no Facebook (facebook.com/projetoserena) e um site (www.projetoserena.com.br).

  • Conteúdo publicado na edição nº 25 da Vanilla, em junho/julho de 2018.

Ultimas Notícias