quinta-feira, maio 26, 2022

Sexualidade e aceitação

Quanto mais as mulheres conhecem sobre sua sexualidade, mais aceitam o seu corpo. E quanto mais aceitam o seu corpo, mais conhecem sobre sexualidade. Agora coloque isso num looping infinito e seja feliz.

Por Mariana Salles e Milena Chaise – Ilustrções Luma Flôres

Paradoxo: uma mulher não é só um corpo — aliás, ninguém é —, mas o corpo é tudo que nos representa fisicamente. Nascemos com ele, não há como fugir disso, não há como trocá-lo por outro, não como abandoná-lo no caminho. Ele é nosso e, por isso, deveríamos o conhecer melhor que ninguém e cuidá-lo com todo o zelo que é possível.

Dependemos desse corpo para sobreviver. Por isso, um corpo perfeito é aquele que funciona: que o coração bombeia o sangue que é filtrado pelos rins, que o sistema digestivo absorve o que de bom engolimos e transforma o resto em cocô, os olhos enxergam, os pés nos carregam…Porém, se você perguntar pra uma mulher o que é um corpo perfeito, 9 entre 10 vão te responder sobre não ter barriga nem celulite, ser alongada, não ter marcas de expressão. E aí já fica claro que o que nós somos incentivadas a aprender sobre essa massa de carne e sangue tem muito mais a ver com estética do que com autoconhecimento.

Tanto é que falar sobre sexualidade feminina, em pleno 2018, ainda é um tabu. O discurso de liberdade é muito mais teórico do que prático. Duvida? Pergunte pra sua amiga mais descolada qualquer coisa sobre sexo e a veja gaguejar pra responder; ou tente falar para o seu parceiro sobre um fetiche sem medo de julgamento. Ainda é preciso evoluir muito para o prazer feminino ser visto como algo normal.

Para o psicólogo Flávio Voight, a aceitação sobre o corpo e a ver a sexualidade como algo natural são construções simultâneas. “Adquirir intimidade com o próprio corpo vai trazer um potencial de mais tranquilidade e prazer no sexo, e uma tranquilidade no setor sexual vai permitir aceitar e conhecer o corpo cada vez melhor”, diz.

Ou seja, para aceitar o próprio corpo é importante conhecê-lo, desfrutar dele. “É importante que a pessoa permita usar o corpo e ter prazer com ele em situações não sexuais também, como através do esporte ou até da vaidade. Conviver e conhecer bem o próprio corpo, reconhecendo ele como uma ferramenta que pode trazer muitos prazeres diferentes, é o início do caminho rumo à aceitação e o carinho por si mesmo”.

Neste sentido, de autoaceitação, alguns youtubers – que hoje são, de longe, a galera mais influente entre os jovens – aderiram a tag “Tour pelo Meu Corpo”, criada por Luiza Junqueira, do canal Tá Querida. Com isso eles pretendem mostrar corpos reais, cada um bonito a sua maneira e bem longe da “perfeição” que é pregada como uma religião pela mídia.

 Nos vídeos, vários influenciadores digitais mostram suas barrigas protuberantes, sua falta ou sobra de glúteos e peitos, as manchas no rosto sem maquiagem, os pelos que nascem onde não devem, olheiras, cabelo branco e tudo aquilo que forma uma pessoa normal, convencional, comum, que dorme, come, vai ao banheiro, se relaciona, acha que não tem roupa pra sair e paga alguns boletos e dia e outros um pouco atrasados.

“Se para estar segura, a mulher precisa mudar alguma coisa, melhorar ou eliminar algo que a incomoda , isso se faz necessário, seja mudar a aparência ou a maneira de pensar sobre, trabalhando a aceitação”, acredita a psicóloga Silvane Gross Bianchi. Estando segura, ela terá um olhar mais amável para si mesma, se permitindo buscar mais prazer, e com mais assertividade na escolha de seu parceiro.  “Sabendo o que gosta e o que não gosta tanto no sexo, assim como no relacionamento como um todo, a satisfação e a realização vão dar lugar a mais momentos felizes. Nesse caso, a aparência fica em segundo plano e a aceitação do corpo como ele é, perfeito, funcional para o que ela precisa e de acordo com a sua vontade”, define. Em resumo, o prazer trás a aceitação sim. “Afinal, a busca é por felicidade. Se a temos, o resto fica secundário”.

Outra coisa lembrada por Silvane: agradar a si é muito mais fácil do que agradar a todos.

É preciso manual?

Além de perfeição estética, há, sobre o corpo, a cultura constituída e solidificada de que a mulher é um ser passivo, que aceita, se submete, abriga-se em si e não exala sua sexualidade é o principal impedimento para que ela se conheça. No entando, nunca deixaram de existir pessoas que lutem por essa abertura, por essa quebra de paradigmas, buscando sempre visibilidade e acima de tudo autoconhecimento.

Entre elas está um grupo de meninas da Bahia, formado por Jaqueline de Almeida, Laís Souza, Luma Flôres, Máira Coelho, Nanda Tanara e Cibele Ferreira, que desenvolveu um livro chamado ”Manual de Ginecologia Natural e Autônoma”, que está disponível para download na internet. O livro abrange uma visão do próprio corpo feminino através de assuntos como auto-exame ginecologico, auto-observação, alimentação, ciclos mentruais, além de vários poemas e desenhos espalhados pelas páginas, tornando-o ainda mais aconchegante e bonito.

A intenção de desenvolver o livro, assim como o interesse pelo assunto, surgiu da ideia de conhecer novas perspectivas, relatam as autoras. ”Ao nos debruçarmos sobre a ginecologia natural foi possível romper com vários tabus que cerca os nossos corpos e que nos impedem de nos fortacermos enquanto mulheres autônomas, que buscam o caminho do autocuidado com a ginecologia natural”, disseram. “Quando compreendemos que somos nós quem damos o sentido para a vida que temos, percebemos que é importante primeiramente olhar para si compreender os nossos traços e, principalmente, nossa própria saúde, seja esta física ou mental”.

A ideia de compartilhar esse conhecimento surgiu a partir de um encontro entre três das quatro mulheres que produziram o Manual. Isto aconteceu durante uma oficina de Ginecologia Autônoma, realizada em setembro de 2016, em Salvador-BA. Durante a oficina, Lais Souza (professora de letras vernáculas e educadora) apresentou uma agenda que ela havia construído artesanalmente para acompanhamento do seu ciclo menstrual. Jaqueline de Almeida (relações públicas e terapeuta holística) e Luma Flôres (designer), entusiasmadas com esta agenda, começaram um diálogo com Laís sobre a possibilidade de transformar aquele material em uma cartilha a ser compartilhada com outras mulheres, disponibilizada on-line e gratuitamente. Luma contribuiria com as ilustrações e Jaqueline com seus conhecimentos sobre autocuidado. Durante o processo de construção, Máira Coelho (professora de letras espanhol e educadora), amiga de Lais, foi chamada a contribuir também com relatos e experiências no conhecimento do corpo.

“Nossa maior intenção é de poder compartilhar com as mulheres, principalmente às que não acessam este tipo de conteúdo na internet e àquelas que vivem fora dos centros urbanos e que não tem a possibilidade de participar da construção de informações como: mulheres e comunidades periféricas e rurais, quilombos, assentamentos, aldeias… E o desejo e o prazer de oferecer às mulheres um conhecimento que as permitam iniciar uma prática autônoma de autocuidado, individualmente, mas também em coletividade, pois esta é a nossa caminhada”, esclareceram.

Para elas, o autoconhecimento é o caminho da nossa libertação. “Precisamos nos alimentar de amor próprio e com autonomia sobre os nossos corpos. Cada corpo é único em sua beleza e com suas necessidades individuais”, acreditam.

Para quem quiser conhecer mais do trabalho dessas meninas, basta acessar https://drive.google.com/drive/folders/1QUWF5GJwoVwpSe0MA0kenG_eXt9-WX0s

Neutralidade

Mas como amar o que você detesta? Funciona dizer para uma pessoa que a única saída é amar aquilo que ela nunca gostou ou a deixa ainda mais desesperada por não saber como fazer isso?

A partir dessa premissa, outro movimento ganha cada vez mais força: o Body Neutrality, programa que prega uma relação menos tóxica e impositiva consigo mesmo desenvolvido pelo Green Mountain at Fox, centro de bem-estar em Vermont (EUA), que há 40 anos trata transtornos de imagem corporal.

Na prática, a pessoa passa a considerar o caráter funcional do corpo, como descrevemos lá no primeiro parágrafo. Afinal, não importa se o braço é grosso ou fino, mas a capacidade que ele tem de fazer o que é preciso – incluindo abraçar quem a gente ama –, em atividades que são muito mais importantes que a beleza. O resultado é que, independente da forma que tenha o seu corpo, ele é capaz de fazer tudo o que você quer da maneira como é, sem odiar nem amar as suas formas, sem a pressão de se amar, tão prejudicial como a pressão de ter o shape perfeito.

Uma das principais ferramentas utilizadas para difundir a prática da neutralidade sobre o que se sente em relação ao corpo é o Instagram, batendo de frente com a febre fitness que assolou a rede social. Nele, as pessoas, assim como com a tag “tour pelo meu corpo”, mostram as suas “falhas”, ou o que não gostam em si sem a hipocrisia de dizer que ama aquele queixo duplo, por exemplo.

“Conhecer o próprio corpo não quer dizer que a pessoa vá se amar o tempo inteiro”, diz a psicóloga Elise Leopoldino. “Acredito que ela terá momentos em que vai se sentir mais bonita e em outros menos, mas vai ser conhecer o suficiente pra entender que ela é um todo. Pelos próprios hormônios mesmo, as vezes bem humorada, as vezes mal, a pele depois do sexo”, avalia.

Para Elise, o autoconhecimento também faz a gente discernir sobre quem mantemos por perto e quem não queremos conviver, “pelo menos não intimamente, principalmente com alguém que tenha valores opostos. Se o homem ou a mulher achar que você é só um pedaço de carne, desculpe, mas não vai rolar relacionamento. Sexo talvez, e pode ser que seja também o que você quer, e isso não é problema nenhum”.

DEPOIMENTOS

Claudia Pagano, publicitária

“Se conhecer e saber preferências, os limites, é muito importante. Acho que tem tudo a ver com empoderamento feminino e amor próprio. Não é a toa que existe estupro marital. Muita gente ainda nem sabe que isso existe e é errado. Se conhecer e saber sobre como o corpo funciona é um caminho inteligente, para saúde inclusive, para se proteger, evitar gravidez indesejada. Lembro da vergonha que passei quando fiquei menstruada, porque não queria que os meninos soubessem. Era uma vergonha sangrar. Falar sobre isso, esconder que comprou absorvente na farmácia etc era muito vergonhoso. As meninas e os meninos devem ter o máximo de informação e educação sobre o assunto”.

Camila Mugnai Vieira, psicóloga

“Desde bem pequena, minha filha pergunta sobre os corpos, diferenças que observa, sensações que tem, porque mamãe usa absorvente naqueles dias, porque há partes do corpo agradáveis de tocar, de onde vem os bebês, etc. Em cada fase, a profundidade da pergunta é diferente, de curiosidades que passam logo a temas que se repetem por vários dias. Tentamos sempre tratar com a máxima naturalidade, primeiro entender o que ela quer mesmo saber, se já tem suas próprias explicações para aquilo (e sempre tem várias!) e, em uma linguagem acessível, confirmamos, questionamos ou explicamos as coisas. Conhecer o nosso corpo é tudo para o desenvolvimento da própria sexualidade no futuro, para sentir prazer sem culpas, ter maior consciência para tomadas de decisões com autonomia e responsabilidade, perceber situações de risco e proteger-se delas. Ter a abertura de falar disso sem censura e julgamentos é muito bom. Eu ainda sinto vergonha de conversar sobre minha sexualidade com amigas porque não fui criada com este incentivo, tive acesso a informações, mas levou um tempo para livrar-me de culpas e tabus. Então, com minha filha faço diferente. Por exemplo, tem mesmo partes de corpo boas de tocar. Percebendo isto e podendo me dizer com naturalidade, tenho a oportunidade de dizer pra ela que isto é bom, mas deve ser feito com cuidado, higiene, na privacidade e, quando criança, nunca por outra pessoa, mesmo conhecida, porque é algo íntimo, só nosso. Posso alerta-la que se alguém tentar, ela não deve deixar mesmo sendo bom, deve sempre me contar, porque está errado fazer algo que o outro não quer, adulto com criança e coisas assim. Diferente de quando for adulta, namorar, e isto faz parte dos relacionamentos se ambos quiserem. Enfim, tudo sobre o corpo, sexualidade, incluindo homossexualidade, aborto e outros temas polêmicos, na medida que os interesses surgem, vamos conversando e nos empoderando juntas”.

Bruno Fafnir Guedes, soldado

“Existem três necessidades básicas para uma sociedade se manter: educação, saúde e alimentação, respectivamente, na minha opinião nesta ordem, pois com uma boa educação as outras duas são muito mais fácil de se conseguir. Pois é na educação que a criança vai aprender a cuidar da saúde e alimentar-se corretamente. São três necessidades básicas que interligam-se. E o auto-conhecimento do corpo nada mais é do que uma auto-educação, tanto para as meninas como para os meninos. Somente se conhecendo é que saberão os limites, as sensações e o que outras pessoas podem e não podem, até onde outra pessoa pode e não pode ir. Mas com certeza o lado feminino vem há muito tempo sendo reprimido quando o assunto é conhecer-se. Reprimidas pela sociedade e muitas vezes até por elas mesmas. Minha opinião é que todos devem conhecer cada parte do seu corpo, o que gosta e que não gosta”.

Mariana Macário,

“A mulher conhecer o corpo é um grande empoderamento, na minha experiência. Mas não basta saber onde estão as partes. Pra mim isso ainda é tabu, e estou tentando desconstruir. Porque não é só falar de vagina, vulva e clitóris, mas falar sobre nossa liberdade, de como desde pequenas somos treinadas para não sermos realmente autônomas nos nossos desejos, prazeres, escolhas. É totalmente compreensível, pensando nos interesses do status quo, porque mulheres que sabem o que lhes dá prazer – não pautam essas escolhas pelo prazer [email protected] [email protected], principalmente se for homem – incomodam muito a tradicional família brasileira. E um dos maiores tabus, na minha opinião – e fundamental -, é masturbação. Ou melhor, a siririca”.

Ricardo Viapiana,

“O sexo é sempre melhor quando a garota conhece o próprio corpo. O auto-conhecimento tem de ser amplo, inclusive neste âmbito. Se ela conhece a si, não se prende à ninguém que saiba alguns ‘truques’ à mais”.

Carla Geraldo, jornalista

“Me perceber como mulher foi um processo complicado. Quando criança, descobrindo o corpo, me tocava, mas com vergonha e achando que era pecado. A primeira experiência aconteceu com 14 anos, e ok. Com o passar dos anos, comecei a assistir filmes, ler sobre o assunto e comecei a me masturbar, ainda com muita vergonha e me sentindo uma pecadora. Porém, foi o que ajudou a me relacionar melhor e aprendi a gostar de sexo e chegar sabendo o que e como queria. Só me entendi mesmo como mulher com mais de 20 anos, e quase nunca falo com as pessoas sobre sexo, mesmo gostando do assunto, porque temo julgamentos — os preconceitos me matam. Hoje sou casada com um cara que topa tudo que não nos gera desconforto, o que só acontece porque aceito meu corpo e minha sexualidade. Sou muito feliz, obrigada.”.

  • Conteúdo publicado na edicação nº 24 da Vanilla, em março/abril de 2018

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