quarta-feira, maio 25, 2022

E grito: truco!

Duas duplas, três cartas na mão e um vocabulário próprio de gentilezas. Há pouco consenso sobre as origens do truco, mas poucos jogos de baralho se enraizaram tanto na cultura do Sudoeste quanto ele   

Por Nelson da Luz Junior

Os jogos de baralho são um passatempo muito comum na região Sudoeste. Canastra, cacheta, trisete, bisca, tranca, são algumas das modalidades mais comuns, sobretudo entre as gerações que cresceram se divertindo sem videogames. Porém, poucos jogos se relacionam tanto com a identidade local quanto o truco.

Famoso entre universitários, caminhoneiros e frequentadores de bares, o jogo de truco ganha adeptos principalmente por sua simplicidade, dinâmica e pelo desafio; a julgar pela exaltação, pedir “truco” e devolver um “seis” são boas definições de tentativa de intimidação.

Por essas bandas é bem provável que o truco tenha chegado com os pioneiros do Rio Grande do Sul, dada a ligação do jogo com a cultura gaúcha, por intermédio da imigração italiana.

Porém, não foram apenas os italianos os responsáveis por trazer o jogo para o Brasil. Portugueses e espanhóis também trouxeram o baralho no bolso, e ajudaram a popularizar a brincadeira, sobretudo a partir da região Sudeste, em estados como São Paulo e Minas Gerais. Isso explica o seu lugar cativo também no universo da música sertaneja.

Quanto as origens europeias, a história é mais nebulosa. Segundo a Federação Brasiliense de Truco especula-se que os criadores do truco tenham sido os mouros, originários do norte da África e que ocuparam a península Ibérica durante a Idade Média.

Há outras versões. Uma delas diz que o jogo surgiu no século XVII, na Inglaterra. Após um período de ostracismo, o jogo teria sido redescoberto décadas depois em regiões da França e da Espanha, com algumas regras e nomes diferentes.

Outra versão diz ainda que as origens do jogo são escandinavas. Os vikings teriam sido os criadores deu jogo ancestral do truco, que só depois teria sido difundido pela Inglaterra, França e Espanha.

Brasil

De modo geral, o truco pode ser jogado por no mínimo duas e no máximo quatro pessoas, sendo a forma mais comum entre quatro jogadores, formato que praticamente domina nos vários torneios realizados pelo Brasil.

Cada rodada ganha vale um ponto, exceto as rodadas ganhas por truco (três pontos), seis, nove ou 12 pontos. Ganha quem marcar os 12 pontos primeiro.

Tudo isso de modo geral, pois existem diferentes variações do jogo no Brasil, que pode ser disputado tanto com o baralho espanhol, o preferido na região sul, quanto com o baralho francês, usado no restante do Brasil

Truco Mineiro

Diferente do truco paulista, versão mais jogada no sul do Brasil, o truco mineiro possui manilhas fixas, que são as seguintes, da maior para a menor carta:

– 4 de paus

– 7 de copas

– A de espada

– 7 de ouros

Depois das manilhas vem as outras cartas, cujos valores são dados pelos números, não importando os naipes, sendo o três a mais valiosa, seguida do dois e do A, e do restante do baralho a partir do rei até o quatro, exceto pelas manilhas.

Cada jogador recebe três cartas, e no fim de duas rodadas ganha quem jogar a carta maior. Cada disputa vale dois pontos, e vence o jogo quer fizer 12 pontos.  

O pedido de truco aumenta o valor da partida para quatro pontos. O adversário pode aceitar, fugir ou aumentar o desafio pedindo seis, quando a rodada passa a valer oito pontos. A disputa pode ainda pode ser aumentada para 10 e para 12. Quem não aceitar ao desafio perde os pontos em disputa.

Truco Paulista

A versão mais jogada também no Paraná. A dinâmica é parecida com a do truco mineiro, sendo as principais diferenças as manilhas, que variam ao longo do jogo e o sistema de pontuação. O valor das manilhas é definido pelo naipe, sendo a seguinte sequência, da maior para a menor.  

– Paus

– Copas

– Espadas

– Ouro

Cada jogador também recebe três cartas. Ao fim da distribuição, uma carta do baralho é virada na mesa, e o número subsequente será a manilha da vez. Por exemplo, se a carta virada for o quatro, o cinco será a manilha.

Cada mão também possui duas rodadas, e vence quem tiver as cartas de maior valor, que exceto as manilhas vão do três ao Ás, e do rei ao quatro (as cartas oito e nove não são utilizadas).

Cada mão vencida vale um ponto, exceto as mãos vencidas por truco, que valem três. Se alguém pedir truco, o adversário pode pedir para cair, fugir ou aumenta a aposta para seis, que pode ser rebatida por um pedido de nove que por sua vez pode ser levantada para 12. Vence quem chegar aos 12 pontos primeiro.

Quando o diabo pediu truco

De tão popular, o truco já foi tema de músicas em diferentes contextos. Na seara do sertanejo, o jogo aparece em canções de várias duplas, principalmente do sertanejo universitário, dada a relação do jogo com o público das faculdades.

O fisioterapeuta Vinicius Teixeira Urbano lembra de jogar truco no ônibus, no caminho até a faculdade. “Cada um já tinha seu parceiro, com os sinais todos ensaiados”, conta.

Vinicius é também acordeonista da banda Tiregrito, de Francisco Beltrão, que faz um rock cheio de referências gaudérias. Em seu álbum mais recente, “Laço Forte”, lançado em 2016, a banda traz a faixa “O diabo pede truco”, composição de Vinicius.

A faixa narra uma disputa de truco com o diabo. Vinicius conta que a música surgiu na estrada, enquanto a banda viajava de van de Cascavel a Maringá. Primeiro veio a letra, e dias depois a música cujo arranjo foi fechado em conjunto.

Umas das inspirações do acordeonista foi a música “Jogando Truco”, composta por Élon Péricles e Pirisca Grecco, que ensina a jogar o chamado truco gaudério, ou truco gaúcho. “Pensei que não lembrava de ter ouvido uma música sobre o nosso truco, apreciado no Sudoeste”, conta.

O diabo entrou na história por conta de uma piada interna. Vinicius conta que o grupo costumava ouvir uma banda chamada “The Devil Makes Three”. O amigo de alguém fez uma tradução torta do nome da banda para brincar que eles se chamavam “O diabo pede três”. Estava feita a ligação.

A letra de Vinicius traz várias das gírias típicas das partidas disputadas pelas bandas do Sudoeste. “Passar o facão”, relativa ao blefe de pedir truco, ou mais, sem ter cartas boas na mão; “Pedir três pau”, que significa pedir truco, entre outras. Assim como nas partidas reais, a disputada contra o diabo narrada pela música também tem gritaria e subida na mesa.

O palavreado do truco usado na música, explica Vinicius, foi construído coletivamente. Por meio do Facebook, a banda pediu aos fãs que sugerissem frases utilizadas para provocar quando se pede truco. “Portão de cemitério”, “Pouca folha”…enfim, foram mais de 600 comentários com sugestões.

Ligado a cultura tradicionalista gaúcha desde muito cedo, Vinicius lembra de já ter aprendido o truco gaudério, diferente da variante paulista jogada no Sudoeste.

Por exemplo, no truco gaúcho não se pede truco, se canta “flor”, seguido da recitação de um verso, decorado ou de improviso que tenha a palavra flor no meio. Pelo lado nativista, Vinicius analisa que o pedido de flor faz sentido. “Faz parte da estética do homem do campo, que passa a semana `solito´ no campo, e no fim de semana vai na vendinha, na bodega, tomar um trago jogar conversa fora e jogar truco”, diz o músico, que já não pratica o truco com a mesma frequência, mas que já ajudou na formação de novos jogadores.

Ele conta que recentemente ensinou as regras do jogo a seu sobrinho de 13 anos de idade, que queria acompanhar os amigos que já sabiam. “Como fazia tempo que não jogava foi interessante relembrar da época de faculdade, onde a jogatina corria solta”, lembra Vinicius.

  • Conteúdo publicado na edição nº 22 da Vanilla, em outubro/novembro de 2017.

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