quinta-feira, maio 26, 2022

O maior assalto da história

(Paulo Argollo)

Quando estreou a série Narcos, com Wagner Moura interpretando Pablo Escobar, lembro de ter pensado bastante sobre a razão pela qual a gente gosta tanto de assistir filmes e séries sobre crimes e criminosos. Assim como eu, boa parte dos meus amigos nunca se meteu em brigas e não gosta de violência, bem como nunca cometeram crimes. Claro, um pessoal já andou fumando um cigarrinho de artista e tal, mas isso é outra questão. O fato é que mesmo com esse comportamento, todos adoram filmes como Bons Companheiros, Poderoso Chefão, Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, Pulp Fiction… Cheguei então a conclusão de que a gente gosta de boas histórias, incríveis, cheias de nuances, reviravoltas e muita ação. E filmes e séries sobre crimes e criminosos têm esses elementos de sobra. O dia 11 de dezembro é marcado por uma dessas histórias inacreditáveis: O famoso Roubo da Lufthansa.

Antes de falar do roubo em si, é legal dar uma geral na história da máfia italiana. Na metade do século XIX, a Itália estava em processo de unificação. Até então toda a península era dividida em vários pequenos reinos e ducados, alguns deles sob dominação de austríacos, prussianos e franceses. Os abusos desses estrangeiros começaram a dar origem a um sentimento nacionalista nos italianos, que começaram a se rebelar e lutar pela unificação. Havia um grupo republicano, outro que defendia a monarquia a partir do Papa, que residia em Roma, e outro grupo, o mais forte deles, que defendia a monarquia a partir do reino de Piemonte.

Em 1849 Vitor Emanuel II é coroado rei de Piemonte e inicia a unificação italiana expulsando austríacos, incorporando a região de Vêneto e seguindo em gente. A região da Sicília, no sul da Itália, sempre foi a região mais pobre do país. Com a confusão política, começou uma onda de saques e roubos, os sicilianos decidiram montar grupos que faziam ronda e protegiam casas e estabelecimentos comerciais. Décadas depois, com a situação já muito bem controlada, esses grupos não tinham mais muita razão de ser, porém se impuseram passando a cobrar dinheiro da população para continuar a proteger os vilarejos. Algo muito próximo do que nós conhecemos muito bem por aqui sob o nome de milícia.

No início do Século XX, a imigração de italianos para a América foi gigantesca. Muitos vieram para a América do Sul, em especial Brasil e Argentina, onde tinham, apesar de más condições, muita oferta de trabalho nas lavouras e fazendas. Já na América do Norte, com cidades mais desenvolvidas porém sem tanta opção de trabalho, muitos italianos tiveram que se virar como podiam. Alguns deles, vindos da Sicília, com experiência no ramo da “segurança forçada”, passaram a exercer esse trabalho na costa oeste dos Estados Unidos, em especial Nova Iorque e Chicago. Daí pra frente, a história é amplamente conhecida. Nomes como Al Capone e Lucky Luciano são conhecidíssimos. O livro, que virou filme, de Mario Puzzo, O Poderoso Chefão, conta a história da máfia, em especial a Casa Nostra, nos Estados Unidos. Nova York ficou dividida entre cinco famílias: Genovese, Gambino, Lucchese, Bonano e Colombo. Mas a que interessa para nós hoje é a família Lucchese.

A cidade de Nova York era dividida entre regiões de atuação de cada uma das cinco famílias. Jimmy “The Gent” Burke era o capo da família Lucchese em 1978, quando recebeu a informação que havia um carregamento imenso de dinheiro e joias vindo de avião da Alemanha para os Estados Unidos, numa transação bancária. A dica foi dada por um funcionário da empresa aérea Lufthansa que tinha negócios com a máfia. O aeroporto JFK, onde o carregamento chegaria, estava localizado numa região que era dividia entre as famílias Lucchese e Gambino. Com uma fatia generosa do roubo garantida aos Gambino, os Lucchese tiveram sinal verde para dar sequência no plano.

O avião chegou no dia 11 de dezembro de 1978. O carregamento foi guardado numa sala. Às 3 da madrugada, três homens entraram facilmente no terminal da Lufthansa, no aeroporto JFK. Os alarmes já haviam sido desligados pelo funcionário que deu a dica e estava participando da jogada. Jimmy The Gent não participou pessoalmente, mas foi quem elaborou o plano todo. Nenhum deles sabia a quantidade de dinheiro que estavam roubando. Os bandidos se depararam com grandes pacotes de dinheiro e joias que foram levados embora numa van. No dia seguinte, todos os jornais anunciavam o maior assalto já realizado na história dos Estados Unidos, talvez do mundo. Eram quase 7 milhões de dólares entre joias e dinheiro vivo.

Dada essa quantia exorbitante, a polícia fechou o cerco e passou a investigar com afinco o caso. A parte dos Gambino foi paga corretamente, e o resto divido entre os participantes do roubo, da família Lucchese. Porém, quando os três homens que praticaram o roubo, mais o motorista, ficaram sabendo pelas notícias da quantidade de dinheiro em questão, ficaram insatisfeitos com a parte que tinham levado. Foi então que, nos próximos meses, começaram a aparecer corpos e mais corpos de gangsters pela cidade. Era Jimmy The Gent executando uma queima de arquivo truculenta eliminando todos que pudessem ligar o roubo a ele. Quatro pessoas foram presas relacionadas ao crime, porém o dinheiro mesmo não foi recuperado. Um desses presos foi Henry Hill, preso em 1980 por tráfico de drogas, mas que era ligado a família Lucchese e muito próximo de Jimmy The Gent. Foi Hill quem testemunhou apontando Jimmy como manante do assalto. Jimmy foi preso em 1985.

E, se essa história toda e alguns nomes te soam familiar, é porque você já assistiu ao excelente filme Bons Companheiros, de Martin Scorsese. O filme conta justamente a história de amizade entre Henry Hill e Jimmy The Gent, incluindo os pormenores do Roubo da Lufthansa. O filme é baseado no livro de Henry Hill, que escreveu sua autobiografia depois de testemunhar e entregar vários nomes grandes da Cosa Nostra em Nova York e entrar para o Programa de Proteção a Testemunha. Bons Companheiros é um filme brilhante, que deixa muito claro que o crime não compensa, mas rende cada história…


HOJE EU RECOMENDO
Filme: Bons Companheiros
Direção: Martin Scorsese
Ano de lançamento: 1990

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