quinta-feira, maio 26, 2022

Genuinamente brasileiro

Chorinho, samba, forró, MPB e outros ritmos que carregam a essência do Brasil estão no repertório do Trio Fascinação

Por Mariana Salles

Para começar essa conversa, é necessário fazer duas considerações sobre a música brasileira. A primeira delas é em relação a sua sonoridade. Extremamente rica e complexa, é preciso ser um ótimo músico para reproduzir o nosso cancioneiro. A segunda é que, mesmo que você não ouça chorinho, samba, forró, MPB ou Bossa Nova todos os dias, certamente você conhece grande parte desse riquíssimo repertório.

Dito isso, vamos à história de Isabella Dias, que tem a flauta transversal como seu instrumento preferido. Ela começou a estudar música com 9 anos na Escola Municipal de Artes de Pato Branco. Primeiro foi o violão, depois flauta doce, então chegou à flauta transversal — com maior dedicação. Até que virou professora.

Inspirada em grupos de choro formados por mulheres, sua maior referência musical, não há de se estranhar que, ao receber o convite para participar do UTFPR In Concert, ela não teve dúvidas quanto ao tipo de música que gostaria de tocar. Mas precisaria de bons músicos para acompanhá-la.

Convidou, então, Jean Venâncio e Guilherme Andreatta, que também são professores de música da Escola Fascinação, onde ela trabalha. Foi assim que surgiu o “Trio Fascinação”, que encanta o público por onde passa.

“Sou muito apaixonada por choro e sempre senti muita falta disso na nossa região, de chegar em algum bar ou restaurante e escutar um choro, como é possível em Curitiba e em outros estados”, comenta Bella. “Enxergamos esse nicho e incorporamos ao nosso repertório também outros gêneros brasileiros”. 

Essa foi a forma como a musicista encontrou de  ajudar a fomentar o gênero que tanto gosta no Sul do país, principalmente no sudoeste do Paraná. “Realmente não temos muitos grupos que tocam isso por aqui”, diz.

Jazz brasuca

Guilherme Andreatta é um dos músicos mais versáteis de Pato Branco, e é ele quem faz a percussão do trio. Quando foi estudar música, ainda adolescente, gostava mesmo era de rock e metal, mas conforme foi ganhando maturidade musical começou a valorizar sons mais brasileiros, como a Tropicália, e artistas como Chico Buarque.  

Ele reforça que foi Bella que trouxe o choro, “mas, depois que rolou a apresentação, percebemos que tinha espaço para ir colocando outros ritmos. Parece que uma coisa puxou a outra”, diz.

Para Guilherme, a melhor parte do choro é que, por ter um som bonito, mesmo quem não conhece acaba gostando, além de que boa parte das músicas as pessoas já escutaram e sempre sabem um trechinho. “A gente traz uma música que está na voz da galera. Seja do rock, de outros gêneros, todo mundo conhece o samba, os forrós mais populares”, diz. “Há momentos em que a gente gosta de tocar as músicas mais melancólicas, mas queremos mesmo é colocar pra cima porque essa música é pra cima”. 

A próxima renovação do repertório deve ganhar também marchinhas de carnaval. “O brasileiro gosta disso. Pode ser até que não escute com frequência, mas é um som brasileiro, que está no nosso sangue”, observa Guilherme.

Mesmo que o choro não seja algo muito comercial, deixa feliz a todos que estão ouvindo. “É uma das músicas mais ricas. É como um jazz brasuca, bem brasileiro. Me sinto realizado de tocar nesse estilo. Trazer isso para Pato Branco é muito especial”

Valorização da nossa cultura

Jean Venâncio, ou profe Jean, é bastante conhecido por ser um entusiasta da cultura regional. É dele a Escola Fascinação, que deu nome ao trio. “Faz muito tempo que levo a bandeira da música, do ensino da arte e da propagação da cultura paranaense”, define. E quando se fala em choro, samba e outros ritmos nacionalmente mais abrangente, mesmo vindo de outros lugares, ele se sente na obrigação de formar plateia, de trazer essa riqueza para as pessoas.

Violonista do trio, Jean acredita que o público tem o hábito de consumir músicas de outros lugares e deixa relegada a sua própria. “Como educador, quero fazer com que as pessoas, no mínimo, conheçam a nossa sonoridade, que tenham acesso a nossa música e que isso desperte o interesse em consumir a nossa própria cultura”.

Para Jean, a tecnologia que torna a música mais eletrônica faz com que ela não só perca sua complexidade, mas também seu aspecto de coletivo. “A tecnologia torna a manipulação musical mais acessível a todos, porém de uma forma individual. Queremos justamente resgatar sambas de roda, choro, ritmos coletivos, que fazem parte de movimentos de pessoas”, fala. 

Formar plateia para esses estilos é resgatar a apreciação musical de maneira que ela volte a ser escutada. “A gente percebe que hoje as pessoas consomem a música assistindo, não ouvindo. Todo mundo com o seu celular, vendo no youtube, nas redes sociais. Há um lado meio saudosista em querer que as pessoas ouçam música, mas também é importante para aguçar as percepções. Embora você possa apreciar uma música vendo, o principal é que você a escute”, acredita Jean.

Quem quiser conhecer mais sobre o trabalho do Trio Fascinação pode segui-los em instagram.com/triofascinação.

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